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Arqueólogos descobrem tesouros inéditos no México

Câmaras sob a cidade de Teotihuacán contêm infinidade de objetos 

INAH, Instituto Nacional de Antropologia e História do México
Varreduras por escâner de um complexo de túneis sob o Templo da Serpente Emplumada, em Teotihuacán, mostram a grande abertura de entrada e o pequeno poço que permitiu sua descoberta. Mais adiante se encontra uma série de câmaras, das quais as primeiras foram encontradas em 2013 e as outras neste ano.

 

 
Por Erik Vance | Véalo en español

Em 29 de outubro, cientistas associados ao governo mexicano anunciaram a descoberta de três novas câmaras no final de um túnel sob a antiga cidade de Teotihuacán.

A passagem subterrânea sob o popular destino turístico nos arredores da atual Cidade do México foi descoberta originalmente em 2003 e está entre os achados mais importantes ligados à história da cidade perdida.

Em uma coletiva de imprensa no Museu Nacional de Antropologia na Cidade do México, arqueólogos mexicanos divulgaram que as câmaras recém-descobertas contêm milhares de objetos, inclusive estátuas esculpidas, bolas de borracha, jade da Guatemala e uma caixa de madeira cheia de conchas.

No entanto, além de alguns vestígios de pele, não foram encontrados corpos, embora arqueólogos especulem que o sítio também abriga uma câmara funerária, talvez ainda enterrada no solo.

“Pouco antes das câmaras é onde encontramos um grande número de oferendas extremamente importantes ao lado de muitos outros objetos”, informa Sergio Gomez, que dirige o projeto de escavação.

Arqueólogos sabem muito pouco sobre a cidade de Teotihuacán, aninhada nas montanhas a menos de50 kma nordeste da atual capital mexicana.

O túnel descoberto há 11 anos sob o Templo da Serpente Emplumada, no coração da antiga metrópole, havia sido a última peça de um quebra-cabeça que remonta a um período anterior à chegada dos europeus no Novo Mundo.

Mas a revelação das três novas câmaras de tesouros é algo completamente inesperado e inédito.

“Esses achados são muito importantes, tanto por causa da quantidade como da qualidade dos objetos que estão sendo desenterrados”, escreveu George Cowgill, um professor na Arizona State University em Tempe, que dirige um centro de pesquisa em Teotihuacán, em um e-mail.

Provavelmente levará anos de análises para realmente compreendermos o significado de cada objeto e o modo como foram dispostos, acrescentou.

Como cidade, Teotihuacán nasceu por volta de150 a.C., entrando em colapso em algum momento durante o século 7 da nossa era.

Durante esse período, ela provavelmente foi a cidade mais poderosa em toda a América do Norte, dominando, inclusive, os maias do Período Clássico [de292 a900 d.C.], que foram seus contemporâneos nas distantes planícies a leste, no que hoje é o sul do México e a Guatemala.

Ao contrário dos maias, os habitantes de Teotihuacán não tinham um sistema de escrita e, portanto, sabemos muito pouco sobre como eles viviam ou administravam sua cidade.

Arqueólogos debatem, por exemplo, sua estrutura política: um grupo imagina um único governante onipotente, enquanto o outro vê um governo conjunto, compartilhado por quatro facções concorrentes.

Infelizmente, Teotihuacán não tem imagens de seus reis nem de sepultamentos da realeza, embora cientistas tenham encontrado numerosos túmulos de nobres de alto escalão.

A descoberta de uma câmara funerária real sob o Templo da Serpente Emplumada pode invalidar tudo o que se sabe sobre a cidade.

O túnel em si foi descoberto quando uma forte tempestade de chuva expôs um poço que conduzia a um ponto localizado mais ou menos na metade de sua extensão. Seu propósito continua sendo um mistério, mas cientistas acreditam que o túnel tinha uma finalidade cerimonial. Também é possível que o poço tenha sido utilizado para fins astronômicos.

Ao longo da década seguinte, a equipe de Gomez escavou o túnel e encontrou numerosas oferendas.

O trabalho deles culminou em 2013, com a descoberta de duas câmaras adjacentes de cada lado do túnel, perto de sua extremidade final, cheias de espelhos de pirita [um dissulfeto de ferro com brilho metálico] e estranhas esferas de cristal.

Depois desse ponto, o túnel caiu abaixo do nível freático. “A água tornou o progresso de nosso trabalho mais lento, mas possibilitou a preservação de materiais como madeira, borracha e até fragmentos de pele”, salienta Gomez.

Na coletiva do dia 29, ele e sua equipe anunciaram que as três câmaras novas estão localizadas além das duas iniciais e se orientam em uma espécie de cruz, poucas dezenas de metros mais adiante no túnel.

Dentro e ao redor delas, Gomez encontrou mais objetos intrigantes, inclusive uma caixa de madeira cheia de conchas “importadas” do oceano e esculpidas por ferramentas de pedra. Além disso, havia quatro estátuas de jade de60 cmde altura, bolas de borracha e restos de [onças-pintadas].

Os arqueólogos também relataram ter encontrado fragmentos de pele, embora ainda não possam ter certeza se são humanos.

Humanos ou não, não há sinais óbvios de sepultamentos em nenhuma das câmaras, o que não significa que a busca de um “funeral” em Teotihuacán tenha acabado.

“Esses [objetos] poderiam ser oferendas funerárias, mas também me pergunto se não poderiam ser restos de uma enorme festa, uma festa que poderia ter sido parte de uma grande cerimônia funerária e sacrificial, especialmente considerando o grande número de recipientes bastante simples”, escreveu George Cowgill.

O professor acrescentou que outros objetos encontrados não só reforçam a importância de mulheres na sociedade de Teotihuacán, como também o longo alcance das atividades comerciais da cidade.

A equipe de Gomez está no processo de escavar as câmaras até o chão e é possível que haja nobres sepultados nos detritos ou até abaixo de seus pisos.

O arqueólogo espera que o trabalho prossiga e continua otimista de que será encontrado um corpo.

“Isso é muito empolgante porque corrobora nossa hipótese de que tudo isso poderia ser uma oferenda para algo mais importante que se encontra abaixo. A conjectura é que existe um sítio funerário, mas não saberemos com certeza até o ano que vem”.

Scientific American 31 de outubro de 2014