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Arqueólogos subaquáticos desenterram antigo local de abate

Ferramentas e ossos na Flórida podem por fim na teoria de que o grupo Clóvis foi o primeiro a colonizar a América

Shutterstock

Utilizando equipamento de mergulho, arqueólogos descobriram artefatos de um antigo local de abate que parece resolver o debate sobre quando os humanos se espalharam pelas Américas.

Trabalhando em um rio escuro na Flórida, a equipe achou ferramentas de pedra de provavelmente 14 550 anos, que poderiam ter sido usadas para esfolar feras antigas semelhantes a elefantes, chamados mastodontes, cujos restos foram recuperados no mesmo local.

Os achados, publicados no dia 13 de maio no Science Advances, são novas evidências de que humanos estavam vivendo em boa parte das Américas bem antes de o grupo cultural conhecido como Clóvis estar presente por aqui, cerca de 13 000 anos atrás. A teoria alternativa - a de que o grupos dos Clóvis foram os primeiros Americanos - tem sido cada vez mais disputada.

“Eu acho que esse estudo é um triunfo para a arqueologia subaquática e também um outro prego no caixão da teoria de que o grupo Clóvis teria sido o primeiro a chegar às Américas,” diz Jon Erlandson, um antropólogo da Universidade de Oregon, em Eugene.

O local era originalmente um sumidouro com uma lagoa no centro, mas desde então foi coberto pelo Rio Aucilla. Utilizando espátulas manuais, níveis de laser e um tubo de sucção para puxar os sedimentos até a superfície para a triagem, os arqueólogos subaquáticos encontraram seis artefatos claramente feitos por pessoas. Um - um fragmento de faca - estava cercado por partes de material orgânico que foram datados como tendo 14 550 anos, através de um teste de radiocarbono.

Adicionalmente, uma presa de mastodonte da mesma idade encontrada no mesmo sítio anos atrás por outra equipe mostra marcas claras que os cientistas determinaram como tendo sido resultado de uma tentativa humana de retirá-la. Daniel Fisher, um paleontólogo da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, e autor do estudo mais recente, reanalisou a presa e concorda que as marcas provavelmente foram causadas por agressões, muito provavelmente para extrair os quase 7 quilogramas de tecidos nutritivos que seriam encontrados internamente.

Fisher e sua equipe também procuraram por evidências de animais grandes. Para isso, examinam os sedimentos da velha lagoa em busca de esporos de Sporomiella, um fungo que vive no estrume de herbívoros. Pesquisadores sugeriram que a caça praticada por humanos podem ter levado animais como o mastodonte a extinguirem-se rapidamente, mas os esporos eram mais abundantes 13 700 anos atrás e não desapareceram até 12 600 anos. Isso sugere que pessoas estavam convivendo com esses grandes animais por alguns milhares de anos, antes que eles fossem extintos.

Fisher diz que não é claro se os que manejavam as facas matavam os mastodontes ou simplesmente limpavam a carcaça, mas “seja qual for a forma em que humanos e mastodontes interagiam, levou pelos menos dois milênios para o processo de extinção se completar.”

Clóvis depois

Com provas de outros sítios claramente anteriores ao do Clóvis no Chile e no Oregon, muitas pessoas estão agora convencidos de que humanos chegaram até a Flórida já há 14 550 anos.

Ainda existem os céticos em relação às datas da Flórida. Dinald Grayson, antropólogo da Universidade de Washington, preocupa-se de que as datas do local possam ter sido contaminadas por carbono antigo do enorme aquífero que está sob grande parte da Flórida. “Eu não vejo motivos para aceitar as datas de radiocarbono deles como precisas,” ele diz.

Mas Michel Waters, um antropólogo da Universidade A&M do Texas, em College Station, e outro autor do último estudo, recusa as preocupações de Grayson, pelas seguinte razão: as amostras foram tratadas para remover contaminantes solúveis, “Por alguma razão, ainda existe grande resistência ao conceito de pré-Clóvis,” ele diz. “Os dados são fortes.”

David Madsen, arqueólogo da Universidade do Texas, em Austin, conhecido por guardar seu julgamento sobre quando as Américas foram colonizadas pela primeira vez, está convencido. Ele acha que agora é a hora de re-examinar uma série de sítios que foram datados como sendo de 13 500 anos atrás, mas recusados porque “a ideia de que os primeiros americanos foram os Clóvis era tão universal.”

“Agora que o paradigma de que os Clóvis foram os primeiros já foi amplamente refutado, talvez seja possível revalidar a evidência original daqueles sítios com um trabalho cuidadoso, usando técnicas mais modernas,” afirma Madsen.

 

Emma Maris, Revista Nature
Esse artigo foi reproduzido com autorização e foi originalmente publicado na Nature no dia 13 de maio de 2016.