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Nova cepa de causadora de botulismo é descrita parcialmente

Pesquisadores alegam que publicar os detalhes implicaria em risco biológico

 

 No topo da lista de armas biológicas temidas, um único grama cristalino da toxina Clostridium botulinum  inalada mataria mais de um milhão de pessoas.
Por Helen Branswell

Cientistas descobriram uma nova cepa – a primeira em 40 anos – de Clostridium botulinum, a batéria responsável por provocar o botulismo. E apesar de terem relatado suas descobertas em um periódico científico, os pesquisadores deram o passo extraordinário de não publicar detalhes fundamentais da descoberta. Isso porque as toxinas produzidas pela C. botulinum são as mais perigosas conhecidas pela humanidade e atualmente não há antídoto para a toxina produzida pela nova cepa. O medo é que organizações mal intencionadas ou governos isolados possam fazer engenharia reversa a partir das informações para produzir sua própria versão da nova bactéria e troná-la uma ameaça real e potente de bioterrorismo.

A toxina da C. botulinum está no top da lista de armas biológicas temidas porque pequenas quantidades podem provocar paralisia fatal quando ingeridas ou inaladas pelas pessoas. Sabe-se, ou suspeita-se, que essa toxina foi parte de programas de armas biológicas em países como a União Soviética, Irã, Iraque, Coreia do Norte e Síria, e que foi usada, felizmente de maneira inepta, em Tóquio no começo dos anos 90 pelo culto japonês Aum Shinrikyo, antes de seus membros se voltarem ao agente neurotóxico sarin.

Uma declaração de consenso sobre a toxina C. botulinum como arma biológica, publicada no JAMA: Periódico da Associação Médica dos Estados Unidos calculou que “um único grama de toxina cristalina aspergida e inalada, mataria mais de um milhão de pessoas”.

Até agora havia sete cepas conhecidas da bactéria; as toxinas que elas produzem recebem letras de A a G. Existem antídotos para elas, mas cada antitoxina só neutraliza a toxina específica contra que é produzida, e nenhuma delas funciona contra a nova toxina, batizada de H.

Os autores da nova descoberta, cientistas do Departamento de Saúde Pública da California, decidiram não publicar os mapas genéticos da nova cepa e nem da toxina H. A bactéria foi isolada de um paciente que tinha desenvolvido botulismo e felizmente, não morreu.

As descobertas são descritas em dois artigos publicados no JID (Periódico de Doenças Infecciosas). Stephen Arnon , autor principal e especialista em C. botulinum, não estava disponível para entrevista. Mas Gilberto Chavez, vice-diretor do Centro para Doenças Infecciosas do Departamento de Saúde Pública da Califórnia, declarou em uma entrevista por email que o desenvolvimento de uma antitoxina H requer trabalho adicional de muitos colaboradores e sugere que mesmo a publicação parcial das informações acelerará os esforços.

Assim como muitos periódicos científicos, o JID normalmente exige que autores incluam sequências genéticas em seus artigos para que outros cientistas possam tentar replica e continuar a pesquisa. O vice-editor David Hooper declara que Arnon já tinha conduzido discussões com várias agências do governo federal a respeito da ideia de não publicar os dados de sequenciamento antes de ter entrado em contato com o periódico para saber se eles publicariam a descoberta.

Entre as agências do governo dos Estados Unidos consultadas, estão os Institutos Nacionais da Saúde, o Instituto de Pesquisas Médicas Sobre Doenças Infecciosas do Exército, e a Divisão de Agentes e Toxinas Seletas do Escritório de Prevenção e Resposta de Saúde Pública dos Centros para Controle de Doenças.

Arnon “estava tentando ser muito cuidadoso e atencioso devido às consequências de bioameaças”, observa Hooper, aponta que o periódico teria ficado desconfortável em com a falta de dados sem o posicionamento das agências governamentais. De acordo com ele, o periódico conduziu várias discussões para decidir publicar o trabalho. “Consideramos que esse trabalho era importante o bastante para chegar ao conhecimento da comunidade científica”. O periódico planeja adicionar os dados de sequenciamento ao registro científico no futuro, após uma antitoxina H ter sido produzida.

A situação cria um importante contraponto em um debate que incendiou círculos científicos internacionais há dois anos. Foi nessa época que pesquisadores do vírus influenza, nos Estados Unidos e na Holanda, tentaram publicar detalhes sobre como tinham modificado geneticamente o vírus da “gripe aviária”, H5N1, para que ele se espalhasse entre furões, mamíferos que frequentemente servem como modelos para seres humanos em pesquisas da gripe. Até o momento, o vírus H5N1 natural não se transmite dessa forma.

Naquela época, o Comitê Conselheiro Nacional de Ciências para Biossegurança (NSABB) dos Institutos Nacionais da Saúde – um grupo de especialistas que aconselha o governo dos Estados Unidos – recomendou que as mutações que tornaram os vírus mais facilmente transmissíveis não fossem publicadas. Divulgar essas informações era, na prática, publicar uma receita para um vírus pandêmico que poderia ser liberado no mundo por terroristas ou por cientistas demasiado ambiciosos trabalhando em laboratórios sem condições adequadas de biossegurança, argumentou o grupo.

Foram meses de debate, envolvendo a Organização Mundial da Saúde e agências governamentais dos Estados Unidos. Muitos argumentaram que regras que controlam a publicação de informações sensíveis – conhecidas como export control – deixavam claro que os estudos só poderiam ser publicados em sua totalidade, nunca de maneira editada. (De acordo com Hooper, a documentação das discussões de Arnon com o governo não elevou preocupações em relação aos export control.)

Em março de 2012, a NSABB retirou sua recomendação a respeito da pesquisa com o H5N1 e os artigos da gripe foram publicados em sua totalidade algumas semanas depois. David Relman é um dos membros da NSABB que se opôs à publicação total dos polêmicos estudos da gripe. Ele aplaude o grupo da Califórnia por sua maneira de lidar com os artigos sobre o C. botulinum. “A meu ver, eles fizeram a coisa certa. É importante dizer que não acreditamos nem esperamos que esse tipo de situação ocorra com frequência porque eu certamente não gostaria de ver autores e periódicos omitindo trechos de informações quando quiserem, nem que esta seja uma prática frequente. Mas eu acredito que essa é uma circunstância realmente incomum”, declara Relman, especialista em doenças infecciosas da Stanford University e do Sistema de Saúde de Assuntos de Veteranos em Palo Alto, na Califórnia.

Essa visão, no entanto, não é compartilhada por Ron Fouchier, virologista holandês e autor principal de um dos artigos sobre o H5N1. A visão de Fouchier é que – com muito poucas exceções – a ciência deve ser compartilhada abertamente. E ele acredita que Arnon e seus coautores poderiam ter evitado publicar esses artigos até que a antitoxina H tivesse sido produzida. Ele aponta que os artigos foram enviados ao periódico em maio, e que o laboratório da Califórnia provavelmente teve a informação durante alguns meses antes disso. “Por que a pressa agora? Por que não esperar mais dois meses até ter o antissoro, e então publicar? Assim publica-se toda a informação de uma vez”, observa Fouchier, do Centro Médico Erasmus, em Rotterdam.

De acordo com Chavez, publicar pelo menos parte da informação era importante para diagnosticar, tratar e controlar o botulismo. Mas Fouchier argumenta que laboratórios de outras partes do mundo que estejam tentando estudar cepas de C. botulinum não conseguirão identificar a nova cepa usando a informação desses artigos.