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Árvores alpinistas

Levantamentos revelam que o aquecimento global está fazendo árvores de florestas francesas migrarem para lugares mais altos em busca de melhores condições de sobrevivência

David Biello
SCIENCE
Morro acima: Um estudo de 171 espécies de plantas diferentes que crescem em florestas de montanhas francesas revela que as alterações climáticas estão deslocando as árvores encosta acima.
O aquecimento global está deixando as árvores para trás, de acordo com um novo estudo na Science. Uma análise das espécies florestais em seis cadeias de montanhas francesas ─ Alpes ocidentais, Pirineus setentrionais, maciço Central, Jura Ocidental, Vosges e cordilheira da Córsega ─ mostra que mais de dois terços das árvores subiu pelas encostas das montanhas, pelo menos 18 metros a cada década, no século 20.

"Entre 171 espécies, a maior parte está subindo as encostas para recuperar as condições ideais de temperatura", comenta o ecologista e autor principal do estudo, Jonathan Lenoir, da AgroParisTech em Nancy, França. "As alterações climáticas já provocaram um efeito significativo em grande variedade de espécies de plantas, e não ficou restrito a ecossistemas sensíveis."

Pesquisa anterior mostrou que plantas no topo de montanhas ─ e nas regiões polares ─ foram se deslocando para se adaptar ao aquecimento global. Mas esta é a primeira confirmação de que ecossistemas inteiros de regiões temperadas mais baixas também estão se mudando.

"Espécies não estão apenas se deslocando nos pontos extremos das montanhas", alerta o ecologista e co-autor Pablo Marquet, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago. "O que observamos é que isso está ocorrendo em toda a parte."
Em um esforço para avaliar o efeito das alterações climáticas na vida das plantas, foram determinados locais montanhosos com melhores condições de crescimento para espécies de árvores, gramíneas, samambaias e musgos. Pesquisadores descobriram que 118 das espécies estudadas ─ desde um tipo de capim utilizado em recheio de colchões (Galium rotundifolium) até árvores de Montajeiro branco (Sorbus Ária) ─ migraram para altitudes mais elevadas devido ao aumento de temperatura.

Eles descobriram também que gramíneas e outras plantas de vida curta, há várias gerações estavam se deslocando mais em busca de temperaturas ideais, enquanto que árvores de vida mais longa permaneceram, em grande parte, no mesmo lugar. Segundo os autores, isto está mudando a composição da floresta ─ misturando gramíneas de baixa altitude com árvores de altitude mais elevada ─ o que pode afetar potencialmente todo o ecossistema, principalmente os animais que dependem de plantas específicas para sobreviver.

O ecologista botânico Gian-Reto Walther, da Universidade de Bayreuth, na Alemanha, admite que não se sabe qual o prognóstico dessas descobertas para o ecossistema.

Lenoir observa, por exemplo, que apesar de espécies arbóreas não terem se deslocado muito ao longo do último século, as alterações climáticas podem afetar a próxima geração. "Mesmo que árvores adultas sofram com as condições adversas, elas já estão ali, e não se pode notar quaisquer mudanças", ele observa. Mas novas semeaduras não aparecem em elevações baixas, que são mais quentes.

Árvores de vida longa e baixa mobilidade, em princípio, podem ser capazes de recuperar o atraso e emparelhar com espécies semelhantes menores e mais rápidas. "Para isso, no entanto, é preciso que árvores mais velhas não se estressem tanto a ponto de não produzir mais sementes férteis, que mecanismos de dispersão ─ como vento, aves, mamíferos ─ estejam presentes, e que o habitat onde a semente se depositar tenha solo, nutrientes e temperatura adequados", afirma o biólogo Terry Rood, da Stanford University, que não estava envolvido no estudo.