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Aspirina pode prevenir propagação do câncer

Além de aliviar dores de cabeça e prevenir ataques cardíacos, o medicamento parece evitar que células malignas se espalhem

Shutterstock
Se já existiu um medicamento-maravilha, pode ser a aspirina. Originalmente derivado das folhas de salgueiro, esse artigo essencial do armário de remédios da família foi utilizado com sucesso por gerações para tratar de artrite à febre, além de prevenir derrames, ataques cardíacos e até mesmo alguns tipos de câncer, dentre outras doenças. De fato, a droga é tão popular que seu consumo mundial anual gira em torno de 120 bilhões de comprimidos.

Nos últimos anos, cientistas descobriram outro possível uso para a aspirina: parar a propagação de células cancerígenas no corpo depois que um tumor inicial já se formou. A pesquisa ainda está em desenvolvimento, mas as descobertas sugerem que o medicamento pode, um dia, formar a base para uma poderosa adição às terapias atuais para o câncer.

Entretanto, nem todo mundo responde da mesma forma positiva à droga e, para algumas pessoas, ela pode ser bastante perigosa. Por isso, pesquisadores buscam desenvolver teste genéticos para determinar quem tem mais probabilidade de se beneficiar do uso de aspirina a longo prazo. A mais recente pesquisa sobre o efeito inibitório do medicamento sobre o câncer está gerando descobertas que, possivelmente, poderiam servir como referência.

Inumeráveis mecanismos

Durante o século passado, pesquisadores demonstraram que a aspirina inibe a produção de certas substâncias similares a hormônios, chamadas prostaglandinas. Depende do local do corpo onde as prostaglandinas são produzidas, elas podem desencadear dor, inflamação, febre ou coagulação sanguínea.

Obviamente, ninguém deseja bloquear essas respostas naturais o tempo todo - particularmente porque elas ajudam o corpo a se curar de cortes, machucados, infecções e outros ferimentos. Porém, algumas vezes elas se demoram por tempo demais, causando mais prejuízos que coisas boas. Inflamações de longa duração, ou crônicas, por exemplo, aumentam o risco de desenvolvimento de doenças cardíacas e câncer, causando danos repetidos a tecidos normais. Eventualmente, o tecido danificado, dependendo de onde está localizado e de outros fatores, pode se tornar uma placa que obstrui vasos e artérias coronárias, ou um pequeno tumor muito escondido dentro do corpo. Diminuindo o pico de prostaglandina, a aspirina previne milhares de ataques cardíacos todos os anos e provavelmente impede a formação de um número significante de tumores.

Em 2000, cientistas descobriram um segundo grande mecanismo de ação da aspirina no corpo. A droga impulsiona a produção de moléculas chamadas resolvinas, que também ajudam a extinguir inflamações.

Mais recentemente, pesquisadores começaram a elucidar uma terceira forma da aspirina funcionar - uma que interfere na habilidade das células cancerígenas se espalharem pelo corpo no processo de metástase. Intrigantemente, nesse caso, as propriedades antiinflamatórias da droga parecem não desempenhar um papel principal.

A metástase é um processo complexo que, um tanto contraintuitivamente, requer uma certa quantidade de cooperação entre as células tumorais e seu hospedeiro. Uma quantidade de células malignas deve se soltar do tumor original, atravessar as paredes de um vaso sanguíneo próximo para entrar na corrente sanguínea e evitar ser detectada pelos defensores do sistema imune enquanto viajam pelo corpo. Aquelas que sobrevivem devem, então, atravessar as paredes de outro vaso sanguíneo em um lugar diferente do corpo, encaixar-se no tecido ao redor - o qual é completamente diferente local onde se originaram - e começar a crescer.

Elisabeth Battinelli, hematologista do Hospital Brigham de Mulheres em Boston, mostrou que as células chamadas plaquetas, mais conhecidas por sua capacidade de desencadear coágulos sanguíneos, também têm um papel importante ao permitir que as células tumorais se espalhem. As primeiras células malignas cobrem certos sinais químicos das plaquetas, as quais se acumulam ao longo da parede dos vasos sanguíneos. No ententanto, em vez de dirigir a reparação de uma potencial violação na parede, esses sinais repropositados ajudam as células cancerosas a atravessarem a barreira e se esgueirar para a corrente sanguínea. Então, as células cancerosas se cobrem em uma camada protetora de plaquetas para se esconder das patrulhas sentinelas do sistema imunológico. Uma vez que as células tumorais deixam a corrente sanguínea em algum local distante, elas instruem as plaquetas que vieram junto a produzirem os chamados fatores de crescimento, que desencadeiam o desenvolvimento de novos vasos sanguíneos, “avenidas” essenciais que transportam nutrientes e oxigênio para o agora próspero tumor secundário.

Pesquisadores muitas vezes injetam células tumorais na corrente sanguínea de ratos para estimar o que acontece durante a metástase quando as células cancerosas devem navegar na corrente sanguínea para encontrar uma nova casa no corpo. Quando Battinelli e sua equipe deram aspirina a certos ratos e, depois, injetaram neles células malignas, os pesquisadores descobriram que as plaquetas não protegem as células cancerosas separadas do sistema imunológico, nem produzem os fatores de crescimento necessários que permitem que as células cancerígenas cresçam e se dividam em um novo lugar. Assim, a aspirina parece combater o câncer de duas maneiras: sua ação antiinflamatória impede que alguns tumores se formem e suas propriedades antiplaquetárias interfiram na capacidade de algumas células cancerosas para se espalharem.

Re-fiação de plaquetas

Como a aspirina impede que células tumorais de sequestrarem plaquetas para agirem sob seu comando? Ao invés de bloquear um único componente (a prostaglandina, por exemplo), o medicamento parece ligar ou desligar grupos inteiros no núcleo de certas células sanguíneas.

Para tentar entender melhor este efeito da aspirina anteriormente desconhecido, o cardiologista Deepak Voora, da Universidade Duke, e seus colegas examinaram células chamadas megacariócitos, as quais dão origem às plaquetas. Utilizando ferramentas matemáticas e farmacológicas complexas, eles identificaram cerca de 60 genes que são ou ligados ou desligados nos megacariócitos em resposta à aspirina. O resultado final de toda essa manipulação genética: as plaquetas produzidas pelos megacariócitos não se aglomeraram, o que, presumivelmente, as impediu de camuflar células cancerosas. Assim, além de bloquear prostaglandinas, a aspirina basicamente fez a “re-fiação das plaquetas” para que não sirvam como cúmplices inadvertidos da metástase.

Ainda há muita pesquisa básica a ser conduzida, diz Voora, antes de determinar a viabilidade de uma terapia baseada em aspirina para a prevenção de metástase. Os próximos passos consistem em confirmar esses experimentos em grupos maiores e mais diversos de pessoas, além de entender melhor as funções normais desses genes sensíveis à aspirina. No meio tempo, pesquisadores esperam aprender o suficiente para criar um teste genético que tornará possível dizer se um paciente pode se beneficiar tomando o medicamento. Idealmente, um teste desses determinaria não apenas a dose mais efetiva da droga, mas também se o corpo da pessoa está reagindo à mediação como previsto ou não.

Muito do benefício cardiovascular da aspirina, por exemplo, vem de sua habilidade - em uma dose de 81 miligramas - de prevenir a formação de coágulos na corrente sanguínea. E, ainda, um estudo com 325 pessoas descobriu que a aspirina não possui efeito algum no processo de coagulação em 5% dos pacientes os quais usam o medicamento, com outros 24% tendo um efeito reduzido. Além disso, algumas pessoas podem sofrer efeitos colaterais severos - como sangramentos. Portanto, nenhum clínico responsável aconselharia todo mundo a tomar o remédio todos os dias.

Até o momento, a única maneira de saber com certeza que um paciente é resistente aos efeitos anticoagulantes da aspirina é testando o sangue da pessoa após várias semanas de terapia, para ver se leva mais tempo para formar coágulos do que antes - uma proposta cara e não muito prática. Provavelmente testes genéticos seriam mais baratos, mas estão muito distantes. "É desafiador desenvolver um único teste molecular que diga se alguém vai responder [à aspirina] ou não, porque ficou claro que não há um único caminho pelo qual a aspirina funciona", diz Andrew Chan, epidemiologista da Escola de Medicina de Harvard. Em outras palavras, pesquisadores e médicos terão que examinar vários genes diferentes - e suas complexas interações - para determinar a probabilidade de um paciente se beneficiar do tratamento com aspirina, seja para doenças cardiovasculares ou câncer.

Até então, a Força-Tarefa para Serviços Preventivos dos Estados Unidos, um painel nacional de especialistas de saúde independentes, recomenda uma baixa dose de aspirina para prevenir doenças cardiovasculares e câncer colorretal apenas para um grupo muito seleto de pessoas. Aqueles que podem se beneficiar mais, de acordo com as evidências disponíveis, são adultos entre 50 e 59 anos os quais provavelmente viverão ao menos mais uma década, têm um risco de 10% ou mais de ter um ataque cardíaco ou derrame durante esse período, não possuem risco maior de sangramento (por causa de outros medicamentos, por exemplo) e estão dispostos a tomar aspirina de baixa dose diariamente durante pelo menos dez anos. Para os adultos com idade entre 60 e 69 anos, a força-tarefa recomenda uma oferta seletiva de tratamento com aspirina, dependendo das circunstâncias individuais. Ela determinou que não há evidências suficientes para pesar os potenciais benefícios contra possíveis danos para o uso diário de aspirina em adultos com menos de 50 anos ou mais de 70.

Contudo, a maioria dos pacientes que já sofreram um ataque cardíaco ou derrame parece se beneficiar com uma terapia de uso regular de aspirina apesar da idade, diz Paul Gurbel, diretor do Centro Inova para Pesquisa de Trombose e Medicina Translacional em Falls Church, Virgínia. E se você acredita que está sofrendo um ataque cardíaco, muitos doutores recomendam mastigar um comprimido de 325 miligramas de aspirina imediatamente após ligar para a emergência, para minimizar o dano de qualquer potencial coágulo.

Mesmo assim, a aspirina não pode compensar uma vida de maus hábitos. Deixar de fumar - ou, melhor ainda, nunca começar - comer com moderação, manter-se magro e fisicamente ativo pode ser tão eficaz - ou até mais - quanto tomar aspirina diariamente para evitar vários problemas de saúde, incluindo doenças cardíacas e câncer. Ela pode ser uma droga incrível, mas ainda não é uma cura para tudo que nos aflige.

Viviane Callier
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