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Astronauta do projeto Apollo, Eugene Cernan morre aos 82 anos

Comandante da última missão do Apollo em 1972, Cernan foi o último humano a pisar na Lua

 

Nasa

O astronauta americano Gene Cernan, que, como comandante da última missão de pouso na Lua do projeto Apollo, em 1972, se tornou conhecido como “o último homem a pisar na Lua”, morreu na segunda feira (16 de janeiro). Ele tinha 82 anos.

A Nasa confirmou a morte de Cernan em seu site e mídias sociais, revelando que ele estava rodeado por seus familiares na hora em que morreu. A causa da morte não foi mencionada, mas sabe-se que o astronauta esteve doente recentemente.

"Estamos entristecidos pela perda do astronauta aposentado da Nasa, Gene Cernan, o último homem a andar pela Lua,” escreveu a Agência. “Capitão da Marinha dos EUA, [ele] deixou sua marca na história da exploração espacial ao voar três vezes para o espaço, duas delas para a Lua.”

Cernan foi escolhido com o terceiro grupo de astronautas da Nasa em 1963. Seu primeiro vôo espacial, na Gemini 9A, veio três anos depois, quando ele e Thomas Stafford substituíram Elliot See e Charles Basset, depois que o jato de treinamento em que estavam caiu, em 1966, tirando a vida dos dois membros originais da missão.

Como piloto do sétimo vôo do Gemini — uma missão de três dias na órbita da Terra que encontrou, mas não conseguiu se encaixar em um veículo alvo não tripulado, Cernan se tornou o segundo astronauta americano a sair em atividade extra-veicular (EVA). A caminhada espacial de duas horas, no entanto, quase lhe custou a vida.

`Caminhada espacial do inferno’

"Então, você sabe sobre aquele caminhada espacial do inferno,” falou Cernan em uma entrevista de 2007 para a Nasa, se referindo à sua atividade extra-veicular durante a Gemini 9 em 5 de junho de 1966.

Com dificuldades para se curvar usando um traje espacial pressurizado, Cernan lutou para se manobrar para fora da cápsula de dois assentos, caindo incontrolavelmente enquanto estava ligado ao “cordão umbilical” da nave. Na falta dos corrimãos que mais tarde se tornariam comuns nas espaçonaves, Cernan escalou devagar até à popa do Gemini para colocar e testar a Unidade de Manobra do Astronauta (AMU, na sigla em inglês), um antecessor das mochilas a jato que os astronautas teriam nos anos seguintes.

O vôo de Cernan com a AMU, no entanto, não daria certo. O sistema de resfriamento de seu traje sofreu superaquecimento, o que embaçou a viseira do seu capacete. Sem ter como limpá-lo, Cernan não conseguia enxergar. Exausto e praticamente cego, o astronauta conseguiu achar o caminho de volta para o seu assento e, com a ajuda de Stafford, entrou de novo na espaçonave.

Depois de orbitar a Terra 47 vezes durante seus três dias no espaço,

Cernan e Stafford pousaram na água em segurança e foram resgatados pelo porta-aviões USS Wasp no dia 6 de junho de 1966.

`Linha branca no céu`

Os parceiros de equipe da Gemini 9 se reuniram novamente três anos depois — dessa vez, juntamente com um terceiro astronauta, John Young — para serem lançados em um ensaio para o primeiro pouso na Lua, no dia 18 de maio de 1969. Como piloto do módulo lunar a bordo da Apollo 10, Cernan e Stafford levaram a lander de quatro pernas chamada “Snoopy” para uma altitude de apenas 15,6 quilômetros acima da Lua, o ponto onde os membros da próxima missão desceriam para o pouso.

"Eu dizia para Neil Armstrong o tempo todo que nós pintamos aquela linha branca no céu até a Lua e a mais de 14 mil metros do chão para que ele não se perdesse, tudo que ele tinha que fazer era pousar,” Cernan disse em sua história oral da Nasa. “Eu meio que facilitei as coisas pra ele.”

Mais uma vez, no entanto, Cernan se esquivou do desastre. Depois de ter descartado o estágio de descida e acendido o motor de ascensão para retornar para o módulo de comando “Charlie Brown”, o módulo lunar começou a virar e rolar inesperadamente, o que poderia ter levado Cernan e Stafford a colidirem com a Lua. Os dois astronautas haviam deixado, acidentalmente, o modo de abortar da missão no automático para encenação. Stafford conseguiu retomar o controle manual e a altitude correta.

Os três tripulantes da Apollo 10 conseguiram pousar na água em segurança no dia 26 de maio de 1969, oito dias depois de terem deixado a Terra com destino à Lua.

Nasa
A tripulação da missão Apollo 10: Eugene Cernan, John Young e Thomas Sttaford (da esquerda para a direta). 
`O desafio de hoje da América’

Apenas 24 pessoas na história viajaram para Lua e apenas três delas foram para lá duas vezes: Jim Lovell, John Young e Cernan.

Mas Cernan precisou sobreviver a mais um incidente de quase-morte antes de partir para o seu terceiro e talvez mais histórico vôo espacial.

No dia 23 de janeiro de 1971, Cernan estava pilotando um helicóptero Bell 47G como parte de seu treinamento para pouso lunar, quando ele mergulhou muito baixo e bateu contra o Rio Indiano, no Cabo Canaveral, e quase se afogou. Ele sobreviveu, mas teve queimaduras de segundo grau em seu rosto e o cabelo queimado, e quase foi impedido de voar pela Nasa.

A última missão tripulada da Nasa para a Lua, no entanto, levantou vôo naquele que foi o primeiro lançamento noturno dos EUA, no dia 7 de dezembro de 1972, com Cernan no assento do comandante. Quatro dias depois, ele e Harrison Schmitt pousaram o módulo lunar da Apollo 17, Challenger, no vale lunar Taurus-Littrow, enquanto Ron Evans orbitava a bordo do módulo de comando, America.

Durante suas três caminhadas pela Lua, Cernan e Schmitt, esse último o único geólogo a visitar a Lua, coletaram 741 amostras de pedras e solo, incluindo o único vidro vulcânico cor de laranja trazido à Terra e a “rocha da boa vontade”, apresentada em nome dos EUA para mais de 130 nações ao redor do mundo. Os astronautas da Apollo 17 que caminharam pela Lua foram os últimos a dirigirem o Veículo de Exploração Lunar (LRV, na sigla em inglês) e estabeleceram vários recordes, incluindo um por terem passado a maior quantidade de tempo do lado de fora, na superfície da Lua (22 horas e 6 minutos).

"O desafio de hoje da América moldou o destino de amanhã do homem”, afirmou Cernan antes do lançamento de volta para a Terra. “À medida que deixamos a Lua e o Taurus-Littrow, nós partimos como viemos, e, se Deus quiser, retornaremos, com paz e esperança para toda a humanidade.”

No caminho até a Lua, Cernan e seus colegas de tripulação tiraram a primeira foto de uma face da Terra totalmente iluminada, uma imagem icônica a que alguns se referem como “Blue Marble” (bola de gude azul, ou mármore azul).

Os três astronautas pousaram na água no dia 19 de dezembro de 1972: a missão durou 12 dias, 13 horas e 51 minutos.

No total, Cernan passou 23 dias, 14 horas e 15 minutos registrados no espaço, incluindo mais de 24 horas em uma caminhada espacial e três caminhadas lunares.

`Último homem na Lua`

Eugene Andrew "Gene" Cernan nasceu em Chicago, Illinois, no dia 14 de março de 1934. Possuía bacharelado de ciência em engenharia elétrica pela Universidade Purdue, Indiana, onde se formou em 1956. Em 1963, concluiu seu mestrado em engenharia aeronáutica na Escola Naval de Pós-Graduação, na Califórnia.

Comissionado na Marinha através do programa de treinamento de oficiais de reserva (ROTC, ou Reserve Officer Training Corps, em inglês) da Purdue, ele ingressou no treinamento de vôo após a graduação. Servindo como Aviador Naval por 13 anos, o Capitão Cernan se aposentou da Marinha depois de ter registrado mais de 5 mil horas de vôo, incluindo 4.800 horas em jatos e mais de 200 pousos em porta aviões.  

Antes de se aposentar da Nasa, em 1976, Cernan auxiliou no planejamento do Projeto de Teste Apollo-Soyuz (ASTP, na sigla em inglês), contribuindo como negociador sênior em discussões diretas com a antiga União Soviética para ajudar na histórica missão conjunta.

Inicialmente se juntando à Coral Petroleum de Houston como vice presidente executivo,  Cernan estabeleceu sua própria companhia, a Cernan Corporation, em 1981, para fornecer serviços de consultoria em energia, espaço e outras indústrias relacionadas. Ele também foi presidente do conselho da Johnson Engineering, antes dessa ser adquirida pela Spacehab (depois Astrotech).

Em 1999, Cernan publicou seu livro de memórias, intitulado “O último Homem na Lua”, coautorado por Donald Davis, sobre sua carreira naval e na Nasa. O livro serviu de base para um documentário de mesmo título, dirigido pelo britânico Mark Craig.

Cernan foi casado com Barbara Jean Atchley de 1961 até 1981, com quem teve uma filha, Tracy. Em 1987, ele se casou de novo, dessa vez com Jan Cernan, e teve mais duas filhas, Kelly e Danielle.

Recebeu múltiplos prêmios e menções honrosas em doutorados, e a ele foram concedidas a medalha de Serviço Distinto da Nasa e a Cruz de Vôo Distinto, entre outras honras. Cernan passou a fazer parte do Hall da Fama dos Astronautas dos EUA em 1993 e do Hall da Fama da Aviação Nacional em 2000.

Em 2016, ele recebeu o Prêmio Neil Armstrong de Realização Excepcional do Hall da Fama de Aviação Nacional, em parte para honrar sua defesa pelo “empoderamento e desenvolvimento pessoal, especialmente entre a juventude”, e também pelo seu apoio em favor da retomada do programa de exploração espacial humana dos EUA.

"Eu sempre disse isso e acredito que ainda levará — bom, já faz quase 50 agora — mas mais 50 ou 100 anos na história da humanidade até que olhemos para trás e realmente entendamos o significado do Apollo,” afirmou Cernan em 2007. “Nós o realizamos muito cedo considerando o que estamos fazendo agora no espaço.”

"É quase como se JFK [o presidente John F. Kennedy] tivesse alcançado o século 21, onde estamos hoje, agarrado uma década do tempo, e a levado sutilmente para os anos 60 e 70 e tivesse a chamado de Apollo,” ele disse.

Robert Z. Pearlman

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