Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Atraso de missão lunar chinesa acende debate sobre coleta de amostras

A espaçonave Chang’e 5 poderia trazer para a Terra valiosas novas rochas lunares, mas quem conseguiria estudá-las?

NASA
Imagem tirada pela missão da Apollo 15 captura um possível local de pouso para a missão chinesa de recolhimento de amostras lunares Chang`e-5 -a região de Mons Rümker, na parte norte de Oceanus Procellarum.
Após conduzir com sucesso três missões lunares com robôs entre 2007 e 2013, o florescente programa de exploração lunar chinês está entrando em uma fase mais lenta e experimental. A nação pretendia lançar sua nave espacial Chang’e 5 em um foguete Longa Marcha 3 no final do ano, para pousar e pegar amostras da superfície lunar. Mas uma falha de lançamento em julho de outro Longa Marcha 5 aparentemente adiou esses esforços por meses - talvez até anos. Com a missão de retorno de amostras da Chang’e 5 agora não-oficialmente, mas aparentemente em espera, talvez a China use, a seguir, um foguete de propulsão diferente para levar um veículo que pousará levando um rover ao lado distante da Lua em 2018. Essa outra missão é chamada Chang’e 4, e foi construída como reserva do veículo Chang’e 3 e do rover lunar Yutu da China, os quais chegaram com sucesso à Lua em dezembro de 2013.

Embora essa decisão desaponte a Administração Espacial Nacional da China (CNSA, na sigla em inglês) - que espera eventualmente despachar muito mais sondas robóticas para a Lua e, talvez, até mesmo missões humanas para suas regiões polares ricas em gelo - o atraso e a reorganização poderiam, no fim, se provar benéficos, por darem mais tempo para que a colaboração internacional na ciência e na exploração lunares se consolide.

Muitas outras nações - incluindo, talvez, os EUA - estão se preparando para suas próprias visitas à Lua nos próximos anos, o que oferece à China muitos potenciais parceiros na exploração lunar. Mais de 40 anos se passaram desde que os astronautas da Apollo, da NASA, coletaram centenas de quilos de rochas em suas saídas na superfície lunar. E a última vez em que as amostras foram trazidas à Terra foi em 1976, por meio de cerca de 170 gramas enviados de volta pelo Soviete Luna 24. Novas amostras podem ser uma bonança científica para a comunidade global de pesquisa lunar, mas somente se a China estiver disposta a compartilhá-las.

Conversas sobre potenciais colaborações e o compartilhamento de amostras lunares já estão acontecendo entre a Europa e a China, assim como discussões iniciais com a Rússia.

James Carpenter, cientista da Direção de Exploração Humana e Robótica da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) e peça chave em um recente workshop CNSA-ESA sobre amostras lunares em Pequim, diz que “nós da ESA estamos tendo conversas exploratórias com a China sobre cooperações futuras na exploração lunar, sendo que a análise de amostras faz parte delas.”

De forma similar, China e Rússia estão no caminho para assinar um acordo bilateral sobre exploração bilateral conjunta entre 2018 e 2022, com ênfase em futuras missões para a Lua e outros destinos no espaço profundo. “Os chineses claramente têm um programa de exploração lunar bastante ambicioso operando no que apenas pode ser descrito como uma escalada de tempo ‘agressiva’”, sugere Ian Wright, professor de ciências planetárias na Open University, no Reino Unido, e que também participou do workshop de amostras lunares. “O que não está claro para mim, ao menos, é o quanto [desse programa] ainda precisa de aprovação [governamental]. Porém, eu apostaria que tudo isso acontecerá em algum momento”, diz Wright. Embora o programa chinês para trazer amostras lunares possa estar atrasado, ele observa, o trabalho da nação em uma instalação para guardar e estudar essas eventuais amostras está progredindo em um ritmo rápido.

Precisa-se: novas rochas lunares

Por enquanto, o maior mistério talvez seja a nova data de lançamento da Chang’e 5. De acordo com Xingguo Zeng, assistente de pesquisa na Divisão de Exploração Lunar e do Espaço Profundo nos Observatórios Astronômicos Nacionais da Academia Chinesa de Ciências, a missão poderia ser lançada já no próximo ano, mas “a data específica ainda é desconhecida.”

A Chang’e 5 é composta de quatro partes: o orbitador, o veículo de pouso, o ascensor e o módulo de reentrada na Terra. O veículo de pouso e o ascensor formam uma combinação que iria pousar na superfície da Lua para prospectar e coletar amostras usando uma broca e um braço mecânico. Uma vez que as amostras estivessem asseguradas, o ascensor se lançaria para transferir o material lunar para a cápsula de reentrada, à espera na órbita lunar. Então, a cápsula voltaria para a Terra, reentrando na atmosfera e abrindo seus pára-quedas para depositar com segurança a sua preciosa carga de volta à terra firme. Finalmente, as amostras seriam transportadas para Pequim para serem processadas, armazenadas e estudadas em uma instalação construída e operada pelos Observatórios Astronômicos Nacionais.

A China, “é claro”, compartilharia suas amostras lunares com outras nações, diz Xingguo, “mas quando as amostras seriam divulgadas é determinado pelo comitê de Administração do Programa de Exploração Lunar da China, então é desconhecido para nós.”

A data também é desconhecida pela NASA, segundo Jim Green, diretor da Divisão de Ciência Planetária da agência. A NASA “desconhece os planos [da China] para divulgar as amostras para a comunidade de ciência planetária em geral”, diz Green.

A fome por novas amostras vem do fato de que o mais antigo material lunar coletado veio de apenas um punhado de lugares dispersos, que oferecem uma imagem terrivelmente incompleta da história profunda da Lua. Ainda falta aos cientistas uma compreensão completa de como exatamente a companhia celestial mais íntima da Terra se formou há bilhões de anos. A Chang’e 5 poderia ajudar a mudar isso coletando amostras de Mons Rümker, uma região na cratera Oceanus Procellarum da Lua, conhecida por ser rica em rochas ígneas muito mais novas do que as amostras trazidas por astronautas da Apollo. A Oceanus Procellarum é um excelente exemplo do “mare” (“mar”, em latim) lunar, uma vasta extensão de basalto escuro o qual astrônomos do século XVII confundiram com um monte de água na Lua.

“[Mons Rümker] é um ótimo alvo para uma missão para trazer amostras, já que não possuímos amostras trazidas pela Apollo de mare[s] com menos de cerca de três bilhões de anos”, diz Mark Robinson, um dos principais especialistas lunares na Universidade Estadual do Arizona. Robinson também é o principal pesquisador do sistema de câmeras do Orbitador de Reconhecimento Lunar da NASA, o qual tem mapeado a Lua desde 2009. “Com sorte, esses jovens mares serão o alvo deles”, diz ele. Trazer amostras dessa área seria “um ótimo retorno científico”, ele acrescenta, não apenas importante para entender a evolução do vulcanismo lunar no decorrer do tempo, mas também para calibrar a idade exata da Lua - o que, em troca, ajuda a restringir as idades de Mercúrio, Marte, Vênus e outros corpos rochosos no Sistema Solar.

Políticas proibitivas

Embora os planos da China de estudar e compartilhar as amostras da Chang’e 5 continuem nascentes, a nação já ofereceu amostras do laboratório em construção para diversos pesquisadores de fora. David Blewett, cientistas planetário do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, foi um dos poucos sortudos a ver o laboratório no inverno de 2016, durante uma visita patrocinada pela Academia Chinesa de Ciências.

Para visitar a instalação subterrânea, você entra em um elevador no nível do solo "e pressiona menos 3", diz Blewett, que lembra de ver comboios de caminhões entregando caixas de luvas e outros equipamentos para o laboratório. "Não consigo lembrar de ouvir ou ler sobre planos para compartilhar as amostras com a comunidade internacional", diz ele. Se, contudo, a partilha de dados segue as práticas das missões lunares chinesas passadas, "pode haver dois períodos para os dados". Os cientistas diretamente envolvidos na missão teriam prioridade no acesso, ele diz, seguido de outros pesquisadores. Eventualmente, os dados foram disponibilizados para pesquisadores de fora através de uma base de dados na internet. Um protocolo semelhante pode ser usado para dados das amostras trazidas pela Chang`e 5, segundo ele.

Ainda assim, o acesso direto ao esconderijo de materiais lunares da China está preso na política dos EUA. Atualmente, a agência espacial e o Escritório de Políticas de Ciência e Tecnologia da Casa Branca (OSTP, na sigla em inglês) estão ambos proibidos de trabalhar diretamente com a China, devido a uma cláusula inserida pela primeira vez em 2011 na legislação do governo federal pelo representante Frank Wolf (Republicano, do estado da Virgínia.) - que, na época, presidia o Subcomitê da Câmara sobre Comércio, Justiça, Ciências e Agências Relacionadas. Wolf agora está aposentado e deixou o Congresso em 2015, mas uma versão da "Emenda Wolf" continua vigente até hoje e impede a NASA e a OSTP de colaborações "bilaterais" com a China sem autorização explícita do Congresso. "Portanto, espero que a China não esteja ansiosa para compartilhar amostras diretamente com cientistas dos EUA", diz Blewett. Há, ele acrescenta, várias lacunas para contornar as restrições de Wolf: as colaborações bilaterais entre os EUA e a China são explicitamente proibidas, mas projetos "multilaterais" não são, permitindo que os pesquisadores estadunidenses participem de trabalhos financiado pela NASA juntamente de cientistas na China, desde que pesquisadores de outros países também participem. Além disso, nem a Fundação Nacional de Ciência ou o Instituto Nacional de Saúde estão sujeitos a restrições semelhantes na pesquisa conjunta dos EUA com a China, oferecendo vias adicionais para a colaboração financiada pelo governo federal. Isso significa que, de uma forma ou de outra, a comunidade de ciência planetária dos Estados Unidos provavelmente encontrará uma maneira de obter acesso a quaisquer novas amostras lunares chinesas.

"Esse é um momento emocionante para a ciência lunar, e é uma pena que a política evite que cientistas dos Estados Unidos estejam diretamente envolvidos”, diz Clive Neal, cientista lunar da Universidade de Notre Dame. "Da mesma forma, é uma pena que cientistas chineses não possam solicitar amostras da Apollo. Os cientistas, no entanto, continuarão a trabalhar em conjunto para entender melhor a Lua, e, com sorte, superar essa lacuna, algo que políticos não podem fazer.”

Um pequeno passo em direção ao compartilhamento

Uma proposta intrigante para aumentar as chances de acesso dos EUA às próximas amostras da China vem de uma das últimas pessoas vivas que andaram na Lua: o astronauta Buzz Aldrin, da Apollo 11, que foi o segundo humano a pisar na superfície lunar. Aldrin quer promover uma troca de rochas lunares, algo parecido com um arranjo feito entre os EUA e a União Soviética na década de 1970, quando ambas as nações compartilharam amostras de suas respectivas missões lunares. "Compartilhar amostras lunares entre nações é bom para a ciência", ele diz. "É bom para a cooperação entre países. E, além disso, ajuda a focar a agenda de exploração dos EUA e da China, à medida que retornamos à Lua como prova de campo para enviar equipes a Marte. Eu acredito que é hora de buscar caminhos de cooperação espacial com a China - e a troca de espécimes trazidos da Lua é um deles.”

Já há, de fato, um precedente histórico para compartilhar amostras lunares com a China: em 1970, o então presidente Richard Nixon deu algumas das rochas lunares do Apollo 11 para o país como um presente de boa vontade. A China estava entre os 135 países estrangeiros que receberam pequenos pedaços de material lunar. Contudo, essa escassa quantidade quase não arranha a superfície do tesouro da Apollo, cujo material permanece, em sua maior parte, sob a curadoria de uma instalação no Centro Espacial Johnson da NASA. No geral, entre 1969 e 1972, as seis missões Apollo trouxeram 380 quilos de rochas lunares, amostras de núcleo, pedras, areia e poeira da superfície lunar. As expedições Apollo retornaram com 2200 amostras separadas de seis locais de exploração diferentes na Lua. Talvez oferecer mais do material da Apollo para a China incentivasse o compartilhamento recíproco.

“Por mim”, diz Aldrin, “encorajaria a elaboração de um plano formal para compartilhar a recompensa de nossos respectivos empreendimentos de exploração da Lua. É ‘um pequeno passo’ que pode ser forjado entre a China e os Estados Unidos enquanto ambos avançamos no espaço profundo.”

Leonard David
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq