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Atuar melhora aprendizagem

Salas de aula deveriam incluir atividades para transformar abstrações em experiências corporais

 

Monkey Business Images/Shutterstock
Em vez de inquietação frequente e perturbadora em sala de aula, movimentos orientados podem melhorar a aprendizagem 

 

 
Por Arthur Glenberg

Se esbaldar na escola frequentemente é prelúdio de um telefonema do diretor para os pais. Mas existem jeitos de dar vazão a toda essa energia que aumentam tremendamente o aprendizado; mais exatamente ao agir como uma forma de estabelecer contato, ou entender informações abstratas. 

Existe um volume crescente de pesquisas que mostra o valor desse tipo de comportamento. Um exemplo é o programa de intervenção Moved by Reading (Movido pela leitura) que ensina a compreender a leitura.

Utilizando a intervenção, as crianças representam o significado de sentenças ao moverem imagens na tela de um computador.

Se a criança lê: “O fazendeiro dirigiu o trator para o celeiro”, ela move imagens do agricultor para o trator e os dois juntos para o celeiro. Isso pode dobrar a compreensão da leitura.

Por que isso é importante? A leitura é fundamental para grande parte da educação de estilo ocidental. Não lemos apenas por prazer, mas fazemos isso para aprender nos campos de ciências, matemática, história e assim por diante.

Lamentavelmente, muitas crianças americanas não conseguem ler e ter boa compreensão. Em 2011, por exemplo, apenas 67% delas liam no nível básico ou o superavam na Avaliação Nacional de Progresso Educacional aplicada no quarto ano do ensino fundamental.

A situação é pior ainda no caso de crianças que aprendem inglês como segunda língua: apenas 31% delas estavam no nível básico ou um pouco acima dele. Os americanos podem ser uma nação de imigrantes, mas seu sistema educacional está frustrando muitos dos alunos que serão membros do núcleo da sociedade em um futuro próximo. Esbaldar-se ou dar vazão à energia pode contribuir para melhorar o resultado.

Educacionalmente benéfica essa liberdade de expressão é baseada na teoria da cognição incorporada. Frequentemente associamos cognição a algo cerebral; ou seja, como algo que ocorre no cérebro e tem pouco a ver com o resto do corpo. Mas a separação de mente e corpo é um mito.

A cognição nos ajuda a sobreviver ao guiar nosso comportamento, e, para isso, ela deve estar em sintonia com o corpo. Imagine uma toupeira saindo de sua toca e ver uma cobra. Se a toupeira tentasse voar para longe (desconsiderando o fato de que fisicamente é incapaz disso), ela estaria morta.

Dennis Proffitt e seus alunos provaram que, nesse caso, a cognição humana (ou percepção), também leva em conta a capacidade física. Pessoas, por exemplo, julgam uma colina mais íngreme quando estão carregando uma mochila pesada ou quando estão doentes ou cansadas: quanto maior o esforço (seja para escalar um morro ou fazer uma caminhada mais longa) maior é a inclinação ou a distância julgada. 

Em outras palavras: as escalas perceptuais do sistema (ou medidas) de distâncias não ocorrem em metros, mas em termos de esforço físico. A distância escalada por esforço físico até desempenha um papel em algumas percepções baseadas culturalmente

Mas, o que isso tem a ver com a escola?

A teoria da cognição incorporada também nos diz que as abstrações, que são tão importantes para linguagem, matemática, física etc., são compreendidas ao fixar ou mapear o material abstrato em nossas experiências corporais.

Quando você lê a frase: “O fazendeiro dirigiu o trator até o celeiro”, por exemplo, você entende essa sentença ao aplicar suas experiências com agricultores, alguém dirigindo, e celeiros para simular a ação descrita na sentença. Notavelmente, compreender essa frase literalmente convoca áreas cerebrais que controlam os braços (para simular o ato de dirigir), a visão (qual é o aspecto de tratores quando estão em movimento), e muito mais.

Quando crianças estão aprendendo a ler, elas gastam uma enorme quantidade de tempo e esforço só para aprender a pronunciar palavras a partir de letras, um processo chamado decodificação. (Essa decodificação, [decoding, em inglês] é especialmente difícil em inglês, porque muitas letras têm diversas pronúncias diferentes.) De fato, algumas crianças acabam acreditando que ler é apenas decodificar.

Quando essas crianças leem, para elas isso é um exercício entediante de pronúncia: como elas não “mapeiam” as palavras em suas experiências (por exemplo, de agricultores e tratores), elas nunca entendem plenamente o que estão lendo.

Quando uma criança envolvida no projeto Moved by Reading move a imagem do fazendeiro para o trator, ela não está apenas brincando. Em vez disso, a criança aprende a correlacionar o significado de substantivos (como “fazendeiro”) a fotos e, talvez mais importante, aprende a associar a sintaxe da frase (quem faz o que a quem) às suas ações corporais (como mover o fazendeiro e o trator).

Desse modo, representar ensina a criança a como envolver grande parte de seu corpo e de seu cérebro no processo de compreensão de leitura.

Além disso, depois que as crianças aprenderam a mover fisicamente as imagens, elas podem ser ensinadas a imaginar movê-las. Ou seja, elas podem começar a fazer o mapeamento, ou a associação, das palavras a experiências por conta própria (sem o computador) e alcançar níveis semelhantes de compreensão.

Até mostramos que ensinar crianças como representar enquanto lêem as ajuda a resolver histórias de problemas matemáticos. Quando confrontadas com um problema em forma de história, muitos alunos ignoram a história e procuram por palavras-chaves como “mais que” e tentam somar os números.

Muitas vezes isso as leva a soluções absurdas. Mas assim que as crianças são capazes de entender a história ao representá-la (seja fisicamente ou mentalmente, em sua imaginação), elas podem executar a tarefa matemática de forma sensata e corretamente. 

Atuar, ou representar, não é apenas algo para crianças pequenas; o método também ajuda a compreender os chamados tópicos STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática).

Uma compreensão profunda da equação para a força centrípeta (F= m*v2/r), por exemplo, requer uma simulação mental que envolve experiências de força, massa, velocidade e o raio de um círculo. É claro que se o aluno não tem as experiências corporais apropriadas, ou é incapaz de mapear os termos abstratos sobre essas experiências, ele não entenderá a equação para a força centrípeta, assim como uma criança que não tem noção do que é um trator não entenderá plenamente a frase sobre o fazendeiro. 

O importante é que atuar, ou representar, pode ajudar a fornecer essas experiências corporais e mapeamentos. Em um experimento, alunos universitários aprenderam sobre força centrípeta atuando.

Um aluno, por exemplo, era solicitado a girar ao redor de sua cabeça um peso preso a uma corda. Quando o comprimento da corda (r) é aumentado, o estudante pode sentir que a força necessária para manter o peso girando em círculo diminui (razão pela qual r é um divisor na fórmula da força centrípeta). Essa experiência física ajuda o aluno a superar a noção equivocada de que o aumento do comprimento da corda deveria aumentar a força. 

Se você não acreditar que aumentar r diminui a força, imagine que você está de patins correndo ao redor de uma pista circular. Para parar, você precisa agarrar uma corda curta ou uma longa que estão presas a um poste no centro do círculo. Qual corda gerará uma tração maior em seu braço enquanto você gira em torno do poste? A corda curta: a sensação será como se o seu braço estivesse sendo literalmente puxado para fora de seu encaixe. Com a corda longa, por outro lado, você dará uma volta mais suave e menos abrupta ao redor do poste. (E, se você usou sua imaginação para entender essas últimas frases, verá como “fixar” termos abstratos como força e raio em experiências físicas concretas, como patinar, pode gerar uma nova compreensão.)

Tipos apropriados de atuação ou representação também provaram que ajudam crianças no aprendizado de matemática.

Quando confrontadas com um problema como “6 + 4 + 3 = ___ +4”, por exemplo, muitas crianças interpretam o sinal de igual como “some todos os números”, e elas colocaram 17 no espaçoem branco.

Qual é a melhor maneira de ensinar aos alunos a estratégia de igualdade (ou seja, fazer com que a somatória dos dois lados seja igual)?

Os pesquisadores ensinaram algumas crianças a dizer: “para resolver esse problema, eu preciso fazer um lado igual ao outro lado”. Outras crianças aprenderam a usar a mão esquerda para tampar o lado esquerdo da equação e a mão direita para tampar o lado direito; ou seja, igualar a equação por meio de gestos. Um terceiro grupo aprendeu as duas estratégias varbal e gestual para igualar os dois lados da equação.

Em um teste de longo prazo da aplicação da estratégia, as crianças que haviam aprendido a usar um gesto (sozinho ou em combinação com uma declaração verbal) lembraram melhor da estratégia que as que aprenderam apenas a declaração verbal. Existem até trabalhos que mostram que agir ou representar pode ajudar adultos a aprender a matemática de números complexos (que incluem um termo para a raiz quadrada de -1).

Todo o trabalho sobre a atuação/representação sugere que as salas de aula deveriam incluir mais atividades físicas destinadas a mapear informações abstratas em experiências físicas.

Essa sugestão se encaixa muito bem com alguns dos trabalhos recentes mais empolgantes em neurociência.

Cientistascostumavam acreditar que o número de neurônios no cérebro pode diminuir (por exemplo, através de trauma ou um excesso de bebida alcoólica), mas nunca aumentar. Agora estamos bem convencidos de que (pelo menos em animais de laboratório) novos neurônios nascem — talvez até durante toda a vida.

Eis aqui dois fatos surpreendentes sobre neurogênese. Primeiro, ela é aumentada por atividades físicas como correr. Segundo, ela ocorre no hipocampo, que é uma estrutura neural fortemente associada à memória em humanos. Portanto, se os resultados obtidos com animais de laboratório podem ser estendidos a humanos, pode muito bem ser que um corpo saudável literalmente produz uma mente saudável.

Além disso, teóricos da educação que enfatizam a importância de recessos, educação física e atividade física durante o aprendizado; ou seja, atuar, representar, podem ter uma das descobertas mais empolgantes em neurociência do lado.

Sobre o autor: Arthur Glenberg é professor do Departamento de Psicologia da Arizona State University e professor emérito da University of Wisconsin. Ele e seus alunos têm pesquisado a abordagem da cognição incorporada desde a década de 90.

Você é um cientista especializado em neurociência, ciência cognitiva, ou psicologia? E você leu um recente artigo revisado por pares sobre o qual gostaria de escrever? Por gentileza, envie sugestões para Gareth Cook, editor da revista americana Mind Matters, um jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer no Boston Globe. Ele pode ser contatado no endereço garethideas AT gmail.com ou via Twitter em @garethideas.

Sciam 22 de julho de 2014

Sciambr23jul2014