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Autismo pode retardar habilidade do cérebro de integrar informações

Estudo descobre que crianças autistas eram mais lentas para integrar estímulos de sentidos diferentes, o que pode explicar diferenças comportamentais

Katherine Harmon
Crianças com autismo frequentemente se concentram completamente em uma única atividade ou elemento de seu ambiente. Nova pesquisa pode ajudar a explicar esse traço comportamental, fornecendo evidências de que o cérebro de jovens com autismo é mais lento para integrar as informações vindas de mais de um sentido ao mesmo tempo.

Durante o estudo da desordem, décadas atrás, pesquisas sobre essas tendências básicas eram comuns. Porém, nos anos seguintes a tendência científica foi se concentrar mais em assuntos complexos, desde problemas de comunicação até padrões genéticos subjacentes.

Recentemente, no entanto, mais estudos voltaram a olhar para alguns processos simples que a maioria das pessoas acha natural – a recepção sensorial, por exemplo – para melhor entender manifestações de níveis mais altos, como problemas de interação social.

“Acreditamos que essas coisas interajam de maneiras muito significativas”, afirma Sophie Molholm, professora-associada de neurociência do Albert Einstein College of Medicine e coautora de um novo estudo sobre processamento multissensorial.

A pesquisa, publicada on-line em 19 de agosto na Autism Research, usou eletroencefalogramas (EEGs) para medir a atividade elétrica no cérebro através do couro cabeludo dos pacientes enquanto eles se deparavam com vários estímulos. Dezessete crianças (com idades entre 6 e 16 anos) com autismo – e 17 crianças de desenvolvimento normal, com QI adequado para a idade – assistiram a um vídeo mudo da própria escolha durante o teste. Enquanto isso, tons e vibrações eram administrados em ordem aleatória, algumas vezes separados e outras, ao mesmo tempo.

As leituras do EEG eram carimbadas com o momento dos estímulos e comparadas entre todas as crianças para verificar a tendência geral da atividade cerebral durante o estímulo de um ou vários sentidos. Apesar de o vídeo apresentar estímulos visuais, Molholm ressalta que, por ter havido uma exposição consistente durante os experimentos e as leituras do EEG terem sido configuradas para captar o som e os estímulos somatossensoriais, além de as leituras terem ficado na média durante tantos testes, elas se tornam semelhantes a uma “atividade cerebral de fundo que tende a zero”. “Na verdade, é só algo para mantê-los ocupados”, observa ela.


Um estímulo simples leva cerca de 20 milissegundos para chegar ao cérebro. Quando informações de múltiplos sentidos são registradas ao mesmo tempo, a integração leva cerca de 100 a 200 milissegundos em crianças com desenvolvimento normal. Mas, naquelas com autismo, o tempo gasto para integrar som e vibração quando ocorriam juntos foi em média 310 milissegundos.

Essa diferença, “em certo nível, é um atraso muito pequeno”, compara Molholm. “Mas se estivermos pensando sobre a cognição humana, essa diferença pode interferir muito com o processamento normal”, criando o que ela descreve como um “impacto bem significativo”. A equipe de pesquisa também descobriu que pouco depois de um estímulo ser apresentado, tempo no qual a atividade cerebral entre crianças com desenvolvimento normal e aquelas com autismo pareceu semelhante, as crianças com autismo tiveram em geral um sinal com força menor, representado por ondas de menor amplitude no EEG.

Apesar de o estudo não conseguir explicar definitivamente nenhuma relação comportamental direta, pode apontar algumas das razões subjacentes para muitas das características da desordem, como a sensibilidade a estímulos sensoriais excessivos.
“Talvez parte da razão de essas crianças quererem bloquear isso – o que lhes parece um estímulo estranho – é que, para elas, não faz tanto sentido quanto para as outras pessoas”, observa Molholm. Ela e seus colegas deixaram claro em seu estudo que essas crianças ainda são capazes de integrar as informações de vários sentidos e que existe uma chance de que, conforme envelhecem, a velocidade de integração aumente.

Os pesquisadores propuseram que uma das razões para esse atraso é que as crianças com autismo podem precisar direcionar sua atenção para os estímulos para que possam atingir a integração, enquanto a maioria das outras é capaz de fazer isso automaticamente.

Apesar de o EEG ser capaz de detectar a localização da atividade cerebral e o momento em que ocorre com uma precisão bastante alta, ele não cria uma imagem completa da fisiologia por trás dos atrasos observados. “Este é apenas um pequeno passo para entender a integração multissensorial”, ressalta Molholm. “Parte do que gostaríamos de fazer a seguir é investigar a anatomia do cérebro e possivelmente como a conectividade entre diferentes regiões funcionais do cérebro difere no autismo”.

Encontrar mais informações sobre como crianças com autismo respondem a estímulos multissensoriais também deve ajudar os pesquisadores, terapeutas e pais a avaliar a terapia de integração sensorial, que tem sido um tratamento popular para indivíduos com autismo. No momento, “não há medida objetiva para saber se a terapia de integração sensorial funciona”, nota Molholm.
Mapas empíricos de EEGs podem acabar por se tornar componentes de uma caixa de ferramentas para diagnósticos, afirma Molholm. “Gostaríamos muito que fosse esse o caso”, completa ela.

Além disso, o teste de estímulo com EEG tem a vantagem de ser “um paradigma passivo”, no qual as crianças não têm de executar tarefas ou receber muitas orientações, assim permitindo que todos os níveis de desenvolvimento e uma vasta gama de faixas etárias possam passar por análises paralelas.