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Aves protegem cafezais

Espécies insetívoras combatem infestação de broca-do-café na Costa Rica

Alan Vernon/ Wikimedia Commons
Mariquita-amarela combate a broca-do-café     
 

Por Traci Watson e revista Nature

Da revista Nature

 

Pesquisas realizadas na Costa Rica mostram que mariquitas-amarelas (Setophaga petéquias) e outros pássaros famintos diminuem significativamente os danos causados por uma praga devastadora do café: a chamada larva do cafeeiro, ou broca-do-café.

Um estudo constatou que aves insetívoras reduzem a cerca de 50% a infestação pelo besouro Hypothenemus hampei, economizando a uma fazenda de porte médio até US$ 9.400 na colheita de um ano.

Isso equivale aproximadamente à renda per capita média da Costa Rica. Os resultados, publicados na revista Ecology Letters, não só dão esperança aos cafeicultores que lutam contra a praga, mas também constituem um incentivo para proteger o habitat de vida selvagem: quanto maior a área de florestas em uma fazenda de café ou em torno dela, mais aves e mais baixos seus índices de infestação. 

“Com base nesse estudo sabemos que a fauna nativa pode oferecer um benefício muito grande”, diz Daniel Karp, um biólogo conservacionista da Stanford University na Califórnia, que liderou o estudo. “Incorporar sua conservação no controle de pragas definitivamente é algo que se deve fazer”.

Predadores de besouros

O besouro da broca-do-café é originário da África, mas se espalhou para quase todas as regiões de cafeicultura. O inseto é resistente à maioria dos pesticidas e pode custar aos fazendeiros até 75% de suas colheitas.

Para descobrir se as aves podiam aliviar o problema, Karp e seus colegas cobriram pés de café em duas plantações costarriquenhas com uma rede de malha suficientemente fina para impedir o acesso de pássaros.

Eles descobriram que aves predadoras de fato bicavam uma grande quantidade de insetos: na época das chuvas, auge da atividade dos besouros, a infestação de brocas quase dobrou, saltando de 4,6% para 8,5% quando os pássaros foram impedidos de se alimentar nos arbustos.

Ao analisarem fezes de diferentes aves para detectar o DNA do besouro, a equipe identificou a mariquita-amarela e outras quatro espécies como predadoras dos insetos.

Em seguida, os pesquisadores combinaram os dados de abundância de aves, cobertura florestal e populações de besouros de seis plantações de café.

Eles constataram que os pássaros que comiam os insetos eram mais frequentes em lugares com muitas áreas de florestas próximas e que a infestação era ligeiramente maior em locais onde não havia matas em vigorosas.

Além disso, muitas das aves exterminadoras viviam em pequenas áreas florestais desprotegidas em vez de nas grandes reservas naturais. 

Amigos emplumados

A descoberta “definitivamente é uma boa notícia para os fazendeiros da Costa Rica”, declara Matthew Johnson, um ecologista conservacionista da Humboldt State University em Arcata, na Califórnia. Ele e seus colegas haviam constatado anteriormente que pássaros ajudam a proteger a famosa variedade “Jamaican Blue Mountain Coffee”, um café cultivado nas montanhas Azuis da Jamaica, da broca-do-café. Johnson se diz feliz em ver que as aves jamaicanas não estão sozinhas em seu gosto pela praga; mas está cético quanto ao impacto da cobertura florestal.

O elo entre infestação e áreas de matas “obviamente não é sólido e incontestável”, observa ele. Os resultados de Karp e seus colegas mostram apenas uma redução muito modesta de brocas onde há cobertura florestal, aponta ele. Johnson gostaria de ver evidências mais fortes de que esse efeito é real.

Karp retruca dizendo que a relação entre áreas florestais e infestação de besouros é estatisticamente significante, e acrescenta que outro grupo que trabalha na Costa Rica relatou um efeito semelhante no ano passado. A essência da descoberta de sua equipe ainda está de pé: aves reduzem o trabalho sujo das brocas.

Em uma fazenda, pássaros famintos eliminaram uma porcentagem de besouros dos grãos de café equivalente a cerca de 4% do valor total da safra anual.

Isso pode não parecer muito, diz Karp, mas “na agricultura ‘cada migalha conta’, especialmente porque muitas vezes você mal e mal produz o suficiente”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi originalmente publicado em 5 de setembro de 2013.

 sciam10ago2013