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Avião espacial da Sierra Nevada busca aprovação da Nasa

E continua na briga para levar astronautas até a Estação Espacial Internacional

Nasa
O Dream Chaser, da Sierra Nevada Corp., que a empresa espera usar para transportar astronautas até a Estação Espacial Internacional
Por Geoffrey Giller

 A Nasa encerrou o programa do ônibus espacial em 2011, em parte para se concentrar em outros objetivos, como levar humanos até o espaço profundo e até Marte. Mas a agência ainda precisa de uma maneira confiável e custo-eficaz de transportar astronautas até a Estação Espacial Internacional (ISS) e trazê-los de volta. Nos últimos anos, a Nasa paga à Rússia para fazer isso. Mas, em breve, essa realidade pode mudar.

Desde 2010, empresas privadas competem por uma a oportunidade lucrativa: fornecer transporte de rotina para astronautas e carregamentos americanos até a ISS, além de transportar outras cargas para a baixa órbita terrestre. Agora três empresas se aproximam desse objetivo; a Nasa anunciará o vencedor, ou vencedores, ainda este ano.

Com apenas alguns meses restantes em uma corrida que durou quatro anos, duas grandes empresas espaciais – SpaceX e Boeing – receberam a companhia de um aparente azarão: a Sierra Nevada Corp., uma empresa espacial com 51 anos de idade que fornece o motor da Virgin Galactic SpaceShipTwo.

Em 2010, a Nasa anunciou o Programa de Tripulação Comercial, com o objetivo de desenvolver  um “transporte seguro, confiável e custo-eficiente para a baixa órbita terrestre”, declara Stephanie Martin, porta-voz do programa.

Essa estratégia faz uso da flexibilidade, eficiência e adaptabilidade de empresas privadas para produzir tecnologias competitivas que respondam a objetivos espaciais cada vez maiores, enquanto reduzem as despesas do contribuinte.

De acordo com o Relatório Espacial 2014 da Fundação Espacial, o espaço tem um valor global de mercado estimado em US$ 314,2 bilhões, um número que inclui tudo: de telecomunicações à previsão do tempo ao lançamento de satélites militares.

Outras organizações também se beneficiariam do desenvolvimento comercial de mais veículos capazes de chegar ao espaço a preços mais baixos. “Pesquisadores podem querer ter acesso à baixa órbita terrestre para realizar experimentos”, observa Martin. O turismo espacial é outra possibilidade; uma empresa de consultoria estimou que o turismo espacial pode valer mais de um bilhão de dólares até 2021.

A Nasa concedeu quase US$50 milhões a cinco empresas durante a primeira rodada de financiamento, em 2010, para desenvolver um veículo espacial, sistemas de lançamento e equipamentos de suporte, incluindo a Blue Origin, Paragon Space Development Corp. e United Launch Alliance, bem como as empresas envolvidas no desenvolvimento de veículos tripulados, como Boeing e Sierra Nevada.

Nas rodadas seguintes de financiamento, a SpaceX entrou na briga enquanto outras empresas saíram ou, em alguns casos, entraram em “acordos não-financiados”, permitindo que as empresas continuassem trabalhando com cientistas da Nasa, mas sem receber financiamento adicional.

A última rodada da competição, em 2012, concedeu US$10 milhões à Sierra Nevada pelo primeiro teste de segurança de seu veículo, chamado de Dream Chaser. Em julho, a empresa completou outro marco ao testar vários sistemas principais do Dream Chaser com sucesso, incluindo o suporte à vida e controles ambientais e térmicos. No começo do mês, a empresa também testou o sistema de propulsão principal do veículo.

Com a conclusão do último teste de segurança de sistemas essenciais, Mark Sirangelo, vice-presidente corporativo de Sistemas Espaciais da Sierra Nevada, declara que esse estágio do programa Dream Chaser, antes de a Nasa anunciar o vencedor, está “entre 90 e 95% completo”, com pelo menos mais um teste de aterrissagem e testes dos propulsores a serem realizados.

De acordo com a empresa, o lançamento de seu primeiro veículo não-tripulado será em 1º de novembro de 2016. Se tudo sair conforme o planejado, outro lançamento será realizado seis meses depois, e a empresa pedirá para a Nasa certificar que o Dream Chaser está pronto para transportar uma tripulação até a ISS, explica Sirangelo.

O veículo de transporte tripulado da Sierra Nevada difere de maneira marcante dos veículos da Boeing e da SpaceX.

Ainda que todos os três usem um foguete tradicional de lançamento vertical para mandar seus veículos para o espaço, os competidores da Sierra estão construindo cápsulas projetadas para retornar à Terra usando paraquedas e airbags (no caso do Boeing CST-100) ou propulsores (a cápsula Dragon, da SpaceX). Mas o Dream Chaser usa um projeto de elevação – essencialmente, é um avião espacial muito parecido com uma versão reduzida do ônibus espacial, e que também pode aterrissar em uma pista.

O projeto se baseia em um veículo espacial chamado HL-20, que a Nasa desenvolveu nos anos 80 e 90 mas que decidiu abandonar. De acordo com Sirangelo, o projeto de elevação é ideal porque é possível aterrissar em terra com uma força-g menor que uma cápsula; em vez de despencar de volta à Terra com paraquedas ou propulsores, ele plana.

Isso é útil em várias situações, aponta Sirangelo. Uma força-g maior, como a que pode ser experimentada em uma cápsula de retorno, poderia provocar problemas se um experimento delicado estivesse voltando da ISS, ou se um astronauta estivesse doente ou ferido.

O projeto do avião espacial também fica mais rapidamente acessível após seu retorno, já que pode pousar em qualquer pista comercial que suporte um Boeing 737, explica Sirangelo, ao contrário da cápsula – que pode aterrissar em uma área possivelmente remota.

Em outubro último, a Sierra Nevada testou o sistema de aterrissagem automatizada soltando o Dream Chaser de um helicóptero; a aproximação do veículo até a pista pista foi precisa, ainda que um defeito mecânico impedisse que uma das rodas se estendesse, fazendo o veículo deslizar pela pista. Mesmo assim, tanto a Sierra quanto a Nasa consideraram o teste um sucesso.

A Nasa espera transportar astronautas no veículo vencedor até 2017. Ainda este ano, a agência pretende anunciar o vencedor, ou vencedores, da competição, que envolverá o transporte de astronautas até a ISS.

Martin, da Nasa, declara que é possível que a agência escolha mais de um projeto para o transporte da tripulação. “Nós realmente esperamos continuar a trabalhar com todos os nossos parceiros”, mesmo os que não receberem o próximo contrato, declara ela – no futuro a Nasa pode optar por ter vários veículos de transporte à disposição.

É claro que a Sierra Nevada pode acabar nessa categoria. Roger Handberg, professor de ciência política da University of Central Florida e especialista em políticas espaciais, por exemplo, está cético em relação às chances da empresa.

A SpaceX, que ele acredita ser a atual favorita, já completou várias missões bem sucedidas até a ISS com uma versão não-tripulada de sua cápsula Dragon, enquanto o Dream Chaser ainda nem entrou em órbita. “É difícil enfrentar alguém sem mostrar resultados”, observa ele. “Até que consigam voar, eles terão esse problema”.

A Sierra também recebeu menos financiamento que seus competidores; até o momento, o Programa de Tripulação Comercial já obteve mais de US$363 milhões para a empresa, enquanto a Boeing recebeu US$621 milhões e a SpaceX, US$545 milhões.

Esses números discrepantes se devem, em parte, ao fato de a Sierra Nevada ser quem mais precisa “trabalhar em redução de risco e desenvolvimento tecnológico”, de acordo com uma declaração emitida pela Nasa durante sua rodada mais recente de financiamento, em 2012.

Para complicar, Handberg aponta que tanto o projeto da Boeing quanto o da Sierra dependem de foguetes Atlas 5 para entrar em órbita, que por sua vez dependem de motores RD-180, fabricados na Rússia.

Em maio, a Rússia anunciou que os Estados Unidos não poderiam mais usar motores russos para lançamentos militares; não está claro se isso inclui viagens à estação espacial.

Sirangelo, porém, não acredita que as atuais tensões com a Rússia afetarão missões espaciais futuras. Martin concorda: “Nós temos uma grande cooperação com a Rússia”, observa ela. “Sempre continuaremos a trabalhar com eles na Estação Espacial Internacional”.