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Avião solar decola para dar volta ao mundo em 180 dias

Avançada aeronave voará com uma asa gigantesca e muita luz solar

Cortesia de Solar Impulse

O Solar Impulse 2 tentará voar ao redor do mundo alimentado somente por eletricidade gerada com luz solar.

Por David Biello|Véalo en español

Em uma poeirenta e rosada aurora dos desertos de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, o Solar Impulse 2 levantou voo na primeira etapa de uma tentativa de voar ao redor do globo terrestre movido exclusivamente por energia solar.

O dia foi 8 de março, e na costa leste dos Estados Unidos, do outro lado do mundo, o relógio marcava 23h:12min.

A uma velocidade máxima de 45 km/h, o avião, de um só assento, voou para Mascate, no sultanato de Omã, em aproximadamente 10 horas, aterrissando às 02h:13min, hora da costa leste americana, depois de passar algumas horas voando em círculos, aguardando condições meteorológicas ideais para pousar.

O aparelho é uma versão aprimorada do Solar Impulse original que sobrevoou os Estados Unidos em 2013.

As duas aeronaves foram construídas pelo grupo Solar Impulse, liderado pelos aventureiros suíços Bertrand Piccard e Andre Borschberg.
Borschberg pilotou essa primeira de pelo menos 12 “pernas” que circundarão o planeta. Ele e Piccard se revezarão no comando do aparelho para perfazer todas as etapas ao longo dos próximos meses.

O voo inicial, de 10 horas, não requereu nenhuma das exóticas técnicas de meditação, ioga e auto-hipnose que serão necessárias mais tarde, em trajetos muito mais longos, inclusive pelo menos cinco dias e noites corridos quando o avião sobrevoar vastas porções do imenso oceano Pacífico.

Durante esses percursos épicos, cochilos de 20 minutos terão de ser suficientes para o piloto combater o cansaço e se refazer. Caso ocorra algo imprevisto ou desagradável durante esses períodos de descanso, um sistema de computar, mais óculos especiais que emitem flashes de luz, estarão a bordo para acordar o piloto.

De fato, o piloto usará uma braçadeira que vibra sempre que o avião exceder um ângulo de inclinação superior a 5 graus, porque qualquer coisa além desse limite poderia fazer com que o aparelho perca sustentação.

Além disso, o piloto estará confinado em uma cabina (cockpit) não pressurizada, sem aquecimento, de apenas 3,8 metros cúbicos, espaço suficiente para pouco mais que um assento reclinável, equipado com um fundo removível para funcionar como vaso sanitário.

Nas etapas do voo de travessia dos Estados Unidos, os pilotos tiveram de se contentar com garrafas de água vazias e [muita] força de vontade.
O avião em si é uma maravilha da engenharia, com uma envergadura de asas de 72 m, maior que a de um Boeing 747.
O principal componente estrutural do aparelho são lâminas de fibra de carbono que pesam apenas 25 gramas por metro quadrado, ou cerca de três vezes menos que um pedaço de papel de dimensões similares.

Essa fibra de carbono é usada com parcimônia em pontos da estrutura onde forças pressionam o avião.

A parte interna das asas, a fuselagem e outras áreas do aparelho são ocas para economizar até essa quantidade ínfima de peso, explicou o copiloto Bertrand Piccard à Scientific American.
Sobre essas asas, assim como a fuselagem e até a cauda do avião, foram instalados 17.248 painéis solares (ou células fotovoltaicas) tão finos quanto um fio de cabelo humano. Eles que geram energia elétrica à medida que o aparelho voa.

Parte dessa energia é armazenada em quatro baterias de polímero de lítio. À noite, elas assumem a alimentação dos quatro motores elétricos do avião que giram as duas hélices sob cada asa.

O peso total do aparelho é de 2.300 kg, sendo que as quatro baterias são seus passageiros mais pesados, totalizando 633 kg.

De acordo com Piccard, a produção do avião exigiu 12 anos de cálculos, simulações computadorizadas, construção e testes, além de cerca de US$ 140 milhões.
Em um dia inteiro de voo, o avião subirá a uma altitude de 8.500 metros até o meio da tarde, antes de começar a descer lentamente a uma taxa de 15 metros por minuto até atingir uma altitude bem mais baixa, de apenas 1.500 metros, à noite.

Essa estratégia economiza energia antes do próximo amanhecer ao fazer o avião planar em vez de usar o modo de voo motorizado.

Piccard e Borschberg empregaram uma tática similar nas diversas etapas do sobrevoo dos Estados Unidos.

Os dois aventureiros esperam despertar uma conscientização para o fato de que um voo não poluente desse tipo é possível. Eles também querem inspirar a incorporação de materiais solares em aeronaves mais comuns, assim como em outros meios e lugares.

“Todas as tecnologias que estamos usando neste avião poderiam ser empregadas em todos os lugares”, salientou Piccard à Scientific American.

Após um breve “pit stop” em Mascate, o avião cruzará o Mar Arábico rumo a Ahmedabad, na Índia, na manhã de 10 de março, se o tempo permitir.

Apesar de todas as suas maravilhas de engenharia, o Solar Impulse 2 não é construído para lidar com condições meteorológicas inclementes.

O itinerário da épica jornada ainda inclui escalas em Mandalay, em Mianmar; Chongqing e Nanjing, na China; assim como no Havaí, no Arizona e em Nova York, entre outros lugares.

Ao todo, o avião viajará aproximadamente 35 mil quilômetros antes de aterrissar novamente em Abu Dhabi daqui a cerca de cinco meses, dependendo mais uma vez do tempo e de outros possíveis atrasos.

Todos esses milhares de quilômetros de voo serão movidos a fótons solares.

“Não estamos com pressa, você sabe”, sublinhou Piccard. “Esse avião é mais sobre demonstrar o incrível que é possível em vez de se apressar para chegar ao destino”.

Imagens cortesia de Solar Impulse

Publicado em Scientific American em 9 de março de 2015.