Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Composição microbiana influencia a doença de Crohn

Bactérias intestinais podem ser a chave para diagnosticar e tratar essa condição debilitante

Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC)
Por Beth Skwarecki

A identificação de bactérias específicas presentes, ou não, em pacientes com essa inflamação crônica intestinal poderia resultar em diagnósticos e terapias melhores.

O maior estudo do gênero revelou, pela primeira vez, as bactérias intestinais específicas envolvidas na doença de Crohn, que aflige cerca de 700 mil americanos com diarreia crônica, dores abdominais e sangramento entre outros sintomas desagradáveis. Uma compreensão melhor de como o ecossistema microbiano muda em crianças que sofrem da doença, forneceu a pesquisadores pistas que, algum dia, poderiam levar ao aprimoramento do diagnóstico e do tratamento.

O Projeto Microbioma Humano revelou que centenas de tipos de bactérias vivem no intestino de uma pessoa, mas a diversidade de espécies e sua abundância relativa variam de uma pessoa para outra. Pesquisadores estão constatando cada vez mais que, além da doença de Crohn, populações bacterianas anormais, conhecidas como disbioses (desequilíbrios da flora intestinal), estão vinculadas a doenças que vão de artrite reumatóide a diabete e possivelmente até mesmo ao autismo.

Microorganismos foram associados à doença de Crohn em vários estudos passados que em geral envolveram um pequeno número de pacientes que vinham convivendo com a doença há meses ou anos e já estavam em tratamento.

Como pacientes muitas vezes são diagnosticados na infância ou no início da idade adulta, a nova pesquisa, divulgada em 12 de março na publicação científica Cell Host & Microbe, concentrou-se em 668 crianças como objetos de estudo.

O trabalho tinha como objetivo criar novas ferramentas para prever quais pacientes desenvolveriam formas leves ou severas da doença, e determinar quais tratamentos poderiam ser mais eficientes.

Os pesquisadores fizeram biópsias intestinais e colheram amostras de fezes de jovens recém-diagnosticados em 28 centros espalhados pelo país. Comparadas com amostras de controles saudáveis, as coletas revelaram que certas famílias bacterianas eram mais, ou menos, comuns em pacientes com Crohn.

Os resultados “amarram” e esclarecem os resultados de várias observações anteriores.

Alguns dos microorganismos tinham sido previamente associados a doenças inflamatórias intestinais, o termo geral para doença de Crohn e colite ulcerativa.

Uma família bacteriana também tinha sido implicada no câncer colorretal, uma complicação da doença inflamatória intestinal de longo prazo. Além disso, um dos microorganismos encontrados nos controles saudáveis do mais recente estudo já era conhecido por ser antiinflamatório e tende a ser reduzido ou ausente em pacientes cuja condição é recorrente após a cirurgia.

Esses microorganismos fundamentais ainda não podem ser responsabilizados por provocar ou prevenir a doença, adverte Ramnik Xavier do Massachusetts General Hospital, do Broad Institute of Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Harvard University, que liderou o estudo. Eles podem ser apenas microorganismos que prosperam em um intestino doente (ou em um sistema saudável).

De qualquer modo, eles têm valores previsíveis como marcadores para um diagnóstico: a equipe desenvolveu uma fórmula para calcular um “índice de disbiose microbiana”, com base em todas as espécies presentes no início da doença. Esse índice indicou confiavelmente as pessoas portadoras de Crohn e os pacientes com as maiores pontuações acabaram revelando ter os casos mais graves.

O índice é um poderoso aliado de outras técnicas de diagnóstico, salienta Xavier, que o vislumbra lado a lado com testes genéticos e de biomarcadores sanguíneos para prever o curso dessa doença complexa e os melhores tratamentos para ela.

O estudo também ajuda a explicar por que antibióticos frequentemente não têm efeito em casos de Crohn. A equipe de Xavier descobriu que pacientes medicados com antibióticos tinham até menos “bactérias boas” que seus pares igualmente afetados, mas que não tomavam os medicamentos. Em outras palavras, “ministrar-lhes antibióticos tornou o desequilíbrio microbiano mais pronunciado”, resume Xavier.

Em vista do fato de que há microorganismos envolvidos, mas antibióticos são ineficientes, parece lógico para dar aos afetados bactérias “boas”, essencialmente probióticos, e facilitar a instalação permanente dos microorganismos no intestino.

Embora tratamento, chamado transplante fecal microbiano, em que pacientes recebem uma dose de microorganismos de um doador saudável através de um enema ou de uma colonoscopia, tenha funcionado maravilhosamente bem em pessoas com outra doença digestiva, no caso infecção por Clostridium difficile, essa abordagem não é confiável em distúrbios mais complexos, como a doença de Crohn. Após o tratamento, a aparência saudável de seus ecossistemas intestinais provou ser temporária, explica Xavier.

Estudos genéticos fornecem uma pista: muitos dos genes associados ao surgimento da doença de Crohn são responsáveis pelo reconhecimento de microorganismos pelo sistema imune, sugerindo que o sistema imune do paciente está desprovido das ferramentas essenciais necessárias para alimentar bactérias benéficas ou para controlar os tipos nocivos.

Além de precisarmos aprender mais sobre a influência de respostas imunes “temos que descobrir mais sobre esses microorganismos”, admite Xavier.

É possível que compostos que eles produzem poderiam ser desenvolvidos e transformados em fármacos que alteram as populações intestinais. Mas cultivar microorganismos intestinais humanos em laboratório é um desafio: muitos não conseguem sobreviver na presença de oxigênio; portanto, estudá-los exige técnicas cuidadosas e equipamentos especiais.

Outra dificuldade é que algumas das bactérias encontradas nesse estudo se correlacionaram com outras espécies em grupos intrincadamente coesos, sugerindo que elas não podem ser isoladas para estudo porque dependem umas das outras para prosperar.

Xavier continua ansioso para desvendar os diversos mistérios em torno das complexidades dos ecossistemas de microbiomas. Seu grupo está começando um estudo longitudinal de pacientes de Crohn, colhendo uma amostragem de seus microbiomas a cada duas semanas à medida que os doentes progridem no tratamento e experimentam crises periódicas de ressurgimento da doença.

Combine isso com uma compreensão de que compostos químicos os microorganismos produzem, diz ele, e deverá ser possível desvendar o mistério de seus exatos papeis na doença.

Sciam 20 de março de 2014

sciambr31mar2014