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Bactérias deixam rastro de metano após vazamento de óleo

Estudo nega que microrganismos consumiram quase todo gás após o vazamento da Deepwater Horizon, em 2010

 

Green Fire Productions via Flickr
 Rastrear o petróleo e o metano restantes do derramamento de 2010se provou um desafio para pesquisadores.
Por Karen Ravn e revista Nature

 Quando a explosão da plataforma de petróleo Deepwater Horizon lançou cerca de 400 mil toneladas de metano no Golfo do México, em abril de 2010, muitos cientistas e outros profissionais temeram que o gás fosse permanecer por lá. Mas pesquisadores ficaram agradavelmente surpresos quando estudos sugeriram que, em agosto, bactérias devoradoras de metano já haviam consumido quase tudo.

Novas evidências, porém, sugerem um cenário diferente. Uma pesquisa publicada em 11 de maio, na Nature Geosciences, descobriu que apesar de essas bactérias terem consumido grande parte do gás, a velocidade com que se alimentavam diminuiu consideravelmente após alguns meses. De fato, bactérias só consumiram cerca de  metade do metano, de acordo com a coautora do estudo, Samantha Joye, biogeoquímica e oceanógrafa da University of Georgia, em Athens.

Banquete ou fome

A equipe analisou mais de mil amostras de água coletadas em mais de 105 mil quilômetros quadrados durante 10 expedições ao golfo, entre março e dezembro de 2010.

A análise descobriu que, cerca de duas semanas após a explosão, taxas de oxidação de metano – uma indicação de quanto metano as bactérias estavam consumindo – começaram a aumentar, e esse aumento se manteve estável até o início de junho. Mas no final daquele mês a compulsão alimentar havia desaparecido, e as taxas diminuíram em uma ou duas ordens de magnitude.

“Nós vimos sua ascensão e queda”, conta Joye. Esse declínio aconteceu, de acordo com ela, mesmo com todo o metano que ainda restava para as bactérias aproveitarem.

A equipe sugere que a ascensão pode ter começado com a oxidação muito rápida provocada por um tipo de bactéria que era rara em amostras anteriores ao derramamento, mas que proliferou após ele. A queda, especulam os cientistas, pode se dever a um declínio na população de bactérias consumidoras de metano. Esse declínio pode resultar, por exemplo, da predação por parte de outros organismos ou talvez porque esses potentes oxidadores só consigam prosperar em concentrações extremamente altas de metano.

De acordo com Joye, pesquisas anteriores sugerindo que essas bactérias haviam oxidado todo o gás não tinham dados suficientes. “Eu não acho que os pesquisadores tenham interpretado seus dados de maneira errada”, observa ela. “Eles simplesmente tinham um conjunto de dados incompleto. Nosso artigo destaca a absoluta necessidade de realizar medidas de longo prazo”.

Interpretações divergentes

Mas David Valentine, geoquímico de microrganismos da University of California em Santa Barbara e um dos autores do trabalho anterior, não está convencido. Valentine ainda afirma que as bactérias consumiram quase todo o metano das plumas gasosas. Ele especula que o gás encontrado pelo grupo de Joye era parte do 1% que se relatou ter ido parar em águas rasas, e não nas plumas. “Níveis elevados de metano foram relatados em águas rasas durante descargas ativas em concentrações semelhantes às que foram relatadas nesse trabalho”, afirma ele.

Joye, por sua vez, declara que qualquer metano da Deepwater Horizon encontrado em águas superficiais após a explosão não teria persistido por tantos meses; esse gás teria escapado para a atmosfera.

John Kessler, oceanógrafo químico da University of Rochester em Nova York, e principal autor do trabalho anterior, acredita que o novo estudo não capta a história completa. Ele aponta que a pluma de metano era vasta e heterogênea. Taxas de oxidação de metano teriam atingido seu máximo em momentos e locais diferentes. De acordo com ele, as descobertas anteriores – que a oxidação ocorria a taxas sem precedentes e depletava a maior parte do metano –se baseiam em uma visão mais integrada da oxidação de metano sobre o volume total das plumas.

Mas Joye declara que a conclusão de consumo total se baseia em um modelo que incorpora dados apresentando uma oxidação lenta do metano no fim de junho, além de dados de agosto e setembro, quando pesquisadores encontraram taxas baixas de oxidação e de metano. Pesquisadores inferiram, portanto, que taxas de oxidação devem ter atingido seu máximo em meados de julho e durado até o fim de agosto. Os extensos dados de Joye refutam esse modelo. “Nossas conclusões de consumo incompleto se baseiam em medidas diretas realizadas em uma área muito grande”, conclui a pesquisadora.

 Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 11 de maio de 2014.

 sciambr16maio2014