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Bactérias placentárias poderiam moldar a saúde humana

Estudo associa microrganismos na placenta à saúde bucal da mãe 

Shutterstock
Por Dina Fine Maron

Antes mesmo de um bebê nascer um ecossistema microbiano se instala na placenta, criando um microbioma (microrganismos, seus genomas e as condições ambientais) que pode ajudar a moldar o sistema imune da criança e talvez influir em nascimentos prematuros. A revelação, baseada no perfil genético de centenas de placentas, oferece a prova mais definitiva até agora de que o órgão que sustenta a vida, que nutre o feto e ajuda a remover resíduos, está longe de ser estéril.

Embora a composição da microbiota humana tenha se tornado cada vez mais clara com a tecnologia do sequenciamento genético, pouco se sabe sobre o que forma as primeiras comunidades microbianasem humanos. Tambémnão se sabe quando, exatamente, um bebê é

exposto pela primeira vez a esses microrganismos e colonizado por eles.

Um novo conjunto de criaturas placentárias está colocando esses microrganismos no centro das atenções e suscitando questões sobre como elas poderiam ajudar a modular a saúde humana antes do nascimento, incluindo microrganismos maternos. A equipe liderada por Kjersti Aagaard, professora de obstetrícia e ginecologia no Baylor College of Medicine e no Texas Children’s Hospital, analisa sequências genéticas de centenas de microbiomas placentários de bebês prematuros e bebês nascidos a termo. Em seguida, esses dados são comparados com um inventário existente da microbiota da pele, das vias aéreas, vaginas, intestinos e bocas de mulheres não gestantes. O trabalho foi publicado em 21 de maio na Science Translational Medicine.

A pesquisa fornece os primeiros insights sobre quais microrganismos estão presentes na placenta e de onde eles vêm. A semelhança aparente do microbioma placentário à miscelânea de microrganismos orais também reacende o debate sobre as ligações entre o papel da doença periodontal da mãe e nascimentos prematuros. Para a placenta, esse novo estudo mapeia “quais organismos estão presentes, o que eles são capazes de fazer, e como a comunidade placentária provavelmente está estruturada”, escreveram os autores. (O trabalho, no entanto, não compara diretamente a microbiota do bebê com a da mãe.)

Estudos anteriores já detalharam a composição do saco amniótico, dos intestinos de recém-nascidos na primeira semana de vida, e as primeiras fezes dos bebês, fornecendo dicas de que a microbiota pode estar agindo antes do nascimento. Ainda assim, o microbioma placentário, inclusive sua existência, manteve-se relativamente misterioso até os últimos dois anos. “A beleza desse estudo é que os cientistas não fazem apenas testes de organismos gram-negativos da placenta. Eles examinam os tipos de microrganismos presentes ao analisarem suas assinaturas de DNA o que é uma novidade”, elogia Josef Neu, um neonatologista da University of Florida. O trabalho anterior de Neu descobriu que mesmo antes de bebês ingerirem suas primeiras refeições, suas fezes já hospedam uma gama diversificada de microrganismos, sugerindo que eles desempenham um papel antes de o bebê nascer. Neu não participou desse novo estudo.

O trabalho de Aagaard constatou que amostras placentárias de 320 bebês na realidade se assemelhavam mais à comunidade de microrganismos encontrados na boca humana e não à do intestino, das fezes ou da vagina. A pergunta foi: como esses microrganismos chegam lá? Os autores teorizaram que a microbiota bucal de uma futura mãe viaja através do sangue e entra na placenta, derrubando uma teoria anterior que sugere que microrganismos na placenta e na cavidade amniótica se originam na vagina. “Existem muitas pistas sobre a biologia e o desenvolvimento a serem desvendadas e detalhes ainda não investigados, e a placenta com certeza tem muitos deles”, admite Aagaard. “A biologia da gravidez sem dúvida é importante se quisermos entender a saúde da próxima geração”, acrescenta.

Embora trabalhos anteriores tenham sugerido que a doença periodontal de uma mãe pode levar a problemas de saúde em seu bebê, os esforços para tratar essa condição em gestantes não reduziu o número de nascimentos prematuros. De acordo com Aagaard, sua nova pesquisa ajuda a esclarecer por que essas intervenções não funcionaram. “Mesmo no primeiro ou segundo trimestre de gestação o microbioma já está bem estabelecido”, explica. Quando se trata de atendimento odontológico para mulheres antes da gravidez, “Seria realmente interessante considerar a prevenção primária e não um tratamento secundário”, salienta ela, lembrando que a saúde bucal deveria ser parte do tratamento padrão para mulheres antes da gravidez.

Além de traçar ligações com microrganismos bucais maternos, esse estudo também catalogou complexas diferenças entre o microbioma placentário de bebês ligeiramente prematuros, nascidos entre a 34ª e 37ª semana, e crianças que nasceram a termo. (Nascimentos prematuros em torno do período mencionado são mais comuns que os muito antecipados, por exemplo, na 27ª semana). “Não sabemos se as diferenças provocam nascimentos prematuros, mas sabemos que elas estão associadas a eles e que são um bom indicador para partos prematuros”, observa Aagaard.

As diferenças incluíram uma prevalência maior de microrganismos que normalmente controlam fungos em bebês prematuros. De modo geral, o trabalho concluiu que o único microrganismo predominante em placentas foi a Escherichia coli, uma bactéria fortemente associada à sepse ou sépsis em prematuros. “O levantamento metagenômico (a coleção de genomas e genes dos membros da microbiota) sozinho pode descrever as comunidades microbianas presentes, mas o contexto clínico e avançadas análises de inferência serão necessários para entender os fatores que afetam a composição da comunidade”, salientam os autores.

Infecções do trato urinário no início da gravidez também podem alterar o microbioma placentário sugere o estudo. Os pesquisadores constataram uma diferença na composição do microbioma entre mulheres que tiveram essas infecções e as que não as tiveram, mas o estudo não respondeu se a própria infecção ou os antibióticos utilizados no tratamento podem ter causado a variação. Além disso, ainda não está claro como essa mudança no microbioma pode ter impactado a saúde fetal ou um nascimento prematuro.

Outro dado interessante da análise é que, independente de os bebês nascerem através de uma cesariana ou se desceram pelo canal de nascimento (passando pelo “corredor” de bactérias locvais), a composição do microbioma placentário parecia ser mais ou menos o mesmo. Isso indica que, pelo menos para a placenta, o tipo de parto não altera sua comunidade microbiana. A descoberta não responde como esse método impacta um bebê, porque ele normalmente engoliria líquido amniótico e microrganismos ao longo do canal de nascimento durante o parto.

Com o novo perfil do microbioma placentário “não sabemos o que é causa e efeito. Descobrir isso envolverá um estudo longitudinal de amostras muito mais longo e contínuo”, confessa Aagaard. Como próximo passo, sua equipe pretende se aprofundar ainda mais na busca de respostas para muitas questões, inclusive como cesarianas influenciam mibrobiomas infantis em comparação com partos naturais.

Imagem: Cortesia de V. Altounian/Science Translational Medicine

Sciam 21 de maio de 2014

sciambr 27mai2014