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Bactérias resistentes invadem domicílios em Nova York

Estudo sobre MRSA em residências reforça a necessidade de limitar o uso de antibióticos

 

NIAID (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas)
Vários tipos de bactérias MRSA (rosa) foram encontrados em domicílios nova-iorquinos.

 
Por Jyoti Madhusoodanan e revista Nature

O sequenciamento genômico revelou como uma cepa de Staphylococcus aureus (MRSA) resistente à meticilina se espalhou por algumas áreas da cidade de Nova York. Embora a MRSA seja frequentemente associada a espaços públicos como hospitais e academias de ginástica, pesquisadores advertem que residências particulares ajudaram a bactéria a se espalhar nos bairros de Manhattan e do Bronx. 

O estudo, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, sugere um quadro para outras investigações sobre como patógenos colonizam e infectam comunidades.

Pesquisadores examinaram a frequência da cepa USA300 no norte de Manhattan e no Bronx, que vem causando uma epidemia de infecções cutâneas e dos tecidos moles (as camadas mais profundas da pele) nos últimos anos. Em 2009, ela foi responsável por cerca de 75% das infecções por MRSA adquiridas na comunidade, no norte de Manhattan.

Entre 2009 e 2011, Anne-Catrin Uhlemann, uma microbiologista do Centro Médico da Columbia University, em Nova York, e colaboradores sequenciaram os genomas de 400 amostras de MRSA coletadas de 161 pessoas infectadas e as compararam com outras colhidas de pessoas saudáveis. (Muitas pessoas saudáveis são portadoras de bactérias S. aureus, que poderiam ser MRSA, sigla, em inglês, de Methicillin-resistant Staphylococcus aureus).

Os pesquisadores também compilaram dados sobre o histórico clínico dos participantes do estudo, seu uso de antibióticos e a localização de suas residências para identificar uma rede de transmissão da cepa USA300.

“Essa é uma aplicação elegante e produtiva do sequenciamento genômico completo em uma investigação epidemiológica”, observa o microbiólogo Alexander Tomasz, da Rockefeller University, em Nova York.

Infecção evolutiva

Uhlemann e sua equipe estimaram a similaridade entre as amostras de MRSA ao verificarem quantos polimorfismos nucleotídicos únicos (SNPs, na sigla em inglês) diferentes — mudanças de uma única letra nos genomas — elas tinham, e calcularam com que velocidade essas mudanças se acumularam.

Os pesquisadores concluíram que as cepas USA300 divergiram de seu ancestral comum mais recente por volta de 1993. Embora 85% das amostras fossem intimamente relacionadas a dois genomas referenciais conhecidos da USA300, outras eram mais diversas.

A equipe descobriu que algumas das amostras se originaram na Califórnia e no Texas, o que sugere que a cepa USA300 foi introduzida em Nova York várias vezes, em vez de ter apenas um ancestral local.

Amostras de pessoas de um único domicílio tenderam a ser mais semelhantes entre si que amostras colhidas em outras residências, o que implica que os habitantes de uma casa trocam frequentemente bactérias S. aureus entre si.

Mas as pessoas também estavam sendo infectadas fora de seus lares: “Houve alguns domicílios em que encontramos vários tipos de USA300, o que é bastante surpreendente”, salienta Uhlemann, acrescentando “Isso sugere algum tipo de reservatório externo, como um vínculo com um hospital ou uma academia”.

Parece que a cepa USA300 se espalhou primeiro em espaços públicos, antes de se tornar prevalente em domicílios eem hospitais. São necessários mais estudos para avaliar como hospitais podem estar envolvidos na reintrodução da bactéria na comunidade, afirmam os autores do estudo.

Uhlemann e seus colegas também constataram que quase dois terços de suas amostras bacterianas eram completa ou parcialmente resistentes às fluoroquinolonas, uma classe de antibióticos frequentemente prescrita para infecções bacterianas rotineiras. Esses medicamentos são excretados em superfícies cutâneas, o que, segundo os autores, talvez tenha contribuído para a resistência da USA300: as bactérias são expostas a níveis baixos do antibiótico e podem desenvolver meios de sobreviver a ele. “Precisamos limitar o uso de antibióticos porque eles realmente podem provocar muitos danos colaterais”, adverte Uhlemann.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. Ele foi publicado originalmente em 21 de abril de 2014.

Sciam 22 de abril de 2014

sciambr23abr2014