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Bases militares enfrentam mudanças climática

Instalações do Departamento de Defesa americano no mundo contabilizam efeitos e adaptações necessárias

U.S. Air Force (Força Aérea dos Estados Unidos)
O leito de um lago usado como pista de emergência na Base Aérea de Edwards, inundado por enchentes, não secou completamente durante 8 meses.

 

 
Por Brian Kahn e Climate Central

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DOD, na sigla em inglês) tem quase 7,6 mil instalações militares espalhadas por todos os 50 estados do país, além de 40 nações estrangeiras. Elas desempenham diversas funções, mas todas têm uma coisa em comum: mudanças climáticas poderiam lhes custar muito caro nas próximas décadas, a não ser que sejam adotadas medidas de adaptação rapidamente.

Os militares já tomaram algumas medidas. O planejamento para impactos gerados por alterações climáticas está sendo incorporado a planos mestres básicos ao redor do mundo e projetos de energia renovável apareceram em algumas instalações, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa e fornecendo energia à parte da rede.

Em vista do fato de que o DOD é proprietário e gerencia um portfólio de imóveis no valor de US$ 850 bilhões, essas são medidas de grande porte.

Além dos muros de suas bases, o Pentágono também reconheceu que as mudanças climáticas representam uma ameaça à segurança nacional e está analisando opções para lidar com as alterações que já ocorrem.

Um recente relatório do Government Accountability Office (GAO) [o órgão responsável pela Auditoria, Avaliações e Investigações do Congresso dos Estados Unidos] expôs como a mudança climática está afetando algumas instalações militares nos Estados Unidos, da tundra à costa e ao deserto. O documento constatou que, embora algumas medidas estejam em andamento, ainda há obstáculos para se preparar, em tempo hábil, para futuras mudanças ou adaptações nas bases.

“O DOD tem mais de 500 bases de grande porte, mas cerca de 7.600 instalações em todo o mundo. Teoricamente qualquer uma delas, ou todas, são vulneráveis à mudança climática”, observou Brian Lepore, o chefe do programa de capacidades de defesa do GAO e autor do relatório.

O documento delineou cinco impactos climáticos principais que terão de ser enfrentados pelas instalações militares: temperaturas mais elevadas, mudanças no índice de precipitação, elevação do nível dos mares, aumento da frequência e intensidade de tempestades, e alterações da química e temperaturas oceânicas.

Como documentar seus impactos em todas as instalações seria uma tarefa monumental, para os efeitos desse relatório, foram analisadas 15 instalações nos Estados Unidos, embora os autores ressaltassem que elas não devem ser consideradas necessariamente uma amostra representativa. Mas todas as 15 já sentiram impactos relacionados ao clima ou estão cientes de seus futuros efeitos.

O clima já impacta visivelmente

Em alguns casos, os resultados foram dramáticos e visíveis, especialmente no Ártico, onde os efeitos climáticos são magnificados. O aumento das temperaturas, que tem sido o dobro do índice do resto do globo, descongelou o permafrost [também chamado pergelissolo, ou solo permanentemente congelado]. Isso literalmente abriu buracos no solo em áreas normalmente usadas para treinar tropas em exercícios de lançamentos aéreos e saltos de paraquedas.

Em uma estação de radar ao longo do litoral do Alasca, a linha costeira recuou mais de 12 metrosdevido a uma combinação do degelo do permafrost, o desaparecimento de gelo marinho, e níveis oceânicosem elevação. Isso, por sua vez, destruiu partes de estradas e pistas aeronáuticas, reduzindo a acessibilidade da estação.

Há outros eventos climáticos extremos que, embora não estejam diretamente vinculados às mudanças climáticas, são indicativos de tendências e impactos esperados futuramente.Em Fort Irwin, localizado no deserto de Mojave, na Califórnia, uma forte chuva em agosto de 2013 despejou o equivalente à precipitação anual em apenas 80 minutos, provocando danos da ordem de US$ 64 milhões. Todas as regiões dos Estados Unidos registraram aumentos de chuvas pesadas desde a década de 50, uma tendência que deve continuar.

A elevação do nível do mar também levou o Estaleiro Naval de Norfolk, na Virgínia, a considerar como manter suas docas secas... bem... secas. Desde 1930, o oceano subiu aproximadamente38 cmna região, o dobro da média global, devido a uma combinação de um afundamento de terras e águas marítimasem elevação. Essaelevação aumentou as chances de ondas de tempestades atingirem as docas onde navios e submarinos precisam ser mantidos secos para reparos ou modificações. Qualquer inundação poderia atrasar esses serviços de manutenção por semanas ou meses e levou a base naval a estudar a possibilidade de construir um novo quebra-mar para manter águas revoltas de tempestades afastadas.

Planejar como enfrentar esses impactos ainda é um desafio

Embora a mudança climática seja uma questão que não desaparecerá para bases militares (nem para o mundo), o planejamento contra seus impactos continua cheio de impedimentos. O DOD está conduzindo uma revisão de todas as suas instalações para identificar vulnerabilidades, começando com mais de 700 instalações costeiras, porque elas estão localizadas na intersecção de várias questões climáticas, de elevação dos níveis marítimos a tempestades mais intensas com ondas mais violentas.

“O aumento do nível do mar certamente é algo sobre o que as pessoas têm falado há algum tempo, portanto é um lugar óbvio para começar”, salientou Lepore. “É bem fácil de medir e a Marinha já está fazendo isso em suas instalações”.

Esse é um bom começo, mas o relatório do GAO concluiu que não existem planos ou datas demarcadas para garantir que a revisão seja concluída a tempo.

E, uma vez que as vulnerabilidades são identificadas, também não há maneira fácil de solicitar fundos para projetos que poderiam ajudar a reduzir os riscos representados por alterações climáticas ou um lugar centralizado para se informar sobre riscos climáticos locais. Lepore considerou a recém-divulgada Avaliação Climática Nacional uma boa fonte de informação, mas salientou que ela é insuficiente.

Planejadores básicos precisam de informações mais explícitas e precisas. Não basta saber que os furacões provavelmente aumentarão em intensidade; planejadores querem saber se eles precisam construir telhados capazes de resistir a ventos de160 km/hou de193 km/h.

“Quando conversamos com planejadores mestres de instalações, eles nos disseram que estavam cientes dos impactos potenciais decorrentes de mudanças climáticas e sabiam que precisavam fazer algo a respeito, mas só lhes dar uma ‘vaga’ orientação, como mais secas, mais tempestades severas, não lhes dizia o que fazer”, admitiu Lepore.

O outro obstáculo para superar desafios de planejamento climático é o próprio processo de financiamento de infraestrutura. Bases militares têm que apresentar propostas para projetos juntamente com uma justificativa para o porquê o projeto deve ser financiado. Mas o DOD no momento não considera explicitamente adaptações em seu atual processo de revisão de projetos, o que dá aos planejadores poucos incentivos para incluir esses tipos de obras em seus pedidos de financiamento.

Dos 15 locais avaliados pelo GAO, 14 não tinham apresentado um projeto relacionado à mudança climática, porque não acreditavam que ele seria financiado por essa razão.

Em última análise, tudo isso são problemas solucionáveis.

“Em nossa opinião, embora o DOD tenha feito progressos, julgamos que há algumas áreas em que eles têm um pouco mais a fazer”, resumiu Lepore.

Isso inclui definir um cronograma para avaliar vulnerabilidades e colocar informações sobre o clima em um local centralizado para que os planejadores possam agir de acordo com as sugestões do relatório. O GAO também recomendou definir termos-chaves de mudanças climáticas, além de considerar adaptações correspondentes como projetos de infraestrutura viáveis.

Essas mudanças são pequenos passos, mas elas poderiam ajudar o DOD a manter sua infraestrutura de US$ 850 bilhões operando sem problemas em todo o mundo.

Este artigo é reproduzido com permissão de Climate Central. O artigo foi publicado originalmente em 14 de julho de 2014.

Sciam 15 de julho de 2014

sciambr17jul2014