Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Bebê que derrotou a Aids inova interpretações

A aparente eliminação do HIV pode gerar novos tratamentos

Dimitri Mihhailov/Shutterstock
Por Marissa Fessenden

Uma criança nascida de uma mãe infectada com HIV em Mississipi pode estar curada após um conjunto de medicamentos administrados rapidamente. Mas vários fatores tornam o caso da criança único, e clínicos alertam que ainda não descobrimos uma cura geral para o HIV. Mesmo assim, essa conquista médica pode trazer pistas para enfrentar o vírus causador da AIDS.

Uma cura para o HIV é elusiva porque o vírus tem meios de se esconder dentro do corpo, pode se camuflar em células sanguíneas e outros reservatórios. Diante de medicamentos poderosos que evitam a replicação viral, chamados antirretrovirais (ART), níveis de HIV no sangue se reduzem a níveis quase indetectáveis. Alivie a pressão parando o tratamento, porém, e o vírus volta com tudo.

Anos recentes ofereceram algumas dicas sobre como desativar ataques do HIV. Uma categoria rara de indivíduos, batizada de “controladores de elite”, pode abandonar os medicamentos e não apresentar sintomas. Além disso, pesquisadores estão desenvolvendo um tratamento que eliminará uma das portas de entrada do HIV nas células imunes através de um processo de edição de genes. Mesmo assim, a melhor abordagem já disponível é prevenir a infecção, um desafio formidável apesar de décadas de progresso.

Prevenir a infecção em pessoas muito jovens é uma prioridade. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, todos os dias aproximadamente mil bebês são infectados com HIV em todo o mundo durante a gestação, nascimento ou amamentação. Normalmente, recém-nascidos com risco de contrair HIV podem receber um ou dois medicamentos antirretrovirais de maneira profilática. Se com seis ou oito semanas de idade o bebê tiver os anticorpos virais, o médico usará os coquetéis e doses terapêuticas. O bebê de Mississipi recebeu uma combinação dos medicamentos zidovudina, lamivudina e nevirapina, apenas 30 horas após o nascimento.

Esse tratamento agressivo não é típico porque medicamentos antirretrovirais são tóxicos e a infecção nem sempre é certa. A mãe passa anticorpos de HIV para seu filho durante a gestação. Apenas depois de seis a oito semanas de vida é que os clínicos podem saber se o bebê está de fato infectado com HIV, e não simplesmente carregando os anticorpos da mãe. “Esses medicamentos não são como vitaminas”, aponta Lynne Mofenson, chefe da Divisão de Doenças Infecciosas Maternas e Pediátricas do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano. “Elas só são utilizadas quando a criança corre um alto risco”.

Diretrizes atuais nos Estados Unidos recomendam que futuras mães infectadas com o HIV recebam medicamentos durante a gravidez. Em seguida, bebês devem nascer por meio de cesariana e serem alimentados com mamadeira. De acordo com Mofenson, essas recomendações podem deixar o risco de transmissão menor que 1%. Consequentemente, a transmissão do vírus da mãe para o filho é rara em nações desenvolvidas, mas muito mais comum onde medicamentos anti-HIV são escassos. Atualmente, menos de 200 crianças nascem HIV-positivas nos Estados Unidos todos os anos. 

A mãe do novo caso não recebeu qualquer tratamento pré-natal ou ART. Ela já chegou à clínica em trabalho de parto e deu à luz prematuramente (com 35 semanas de gravidez). Quando um teste chegou mostrando que a mãe era HIV-positivo, a especialista em HIV pediátrico do Centro Médico da University of Mississippi, Hannah Gay, determinou que o risco para a criança era grande. Assim decidiu tratá-la, mesmo sem confirmação clínica que o bebê estava infectado.

A recém-nascida de fato apresentou DNA e RNA virais com dois dias de idade. Seus testes continuaram positivos nos dias sete, 12 e 20, mas a carga viral diminuiu, indicando que o coquetel de medicamentos estava funcionando como esperado. O bebê recebeu ART líquida todos os dias: uma combinação de zidovudina, lamivudina e lopinavir-ritonavir coformulados. Com 29 dias de idade, os níveis de HIV RNA da criança haviam diminuído tanto que eram indetectáveis em testes clínicos. Depois de 18 meses, em janeiro de2012, amãe parou de visitar a clínica por razões não relatadas. Quando os médicos encontraram a mãe e o bebê no outono boreal de 2012, eles descobriram que o RNA viral ainda era indetectável apesar de meses sem medicamentos anti-HIV. Apenas testes ultrassensíveis revelaram níveis extremamente baixos do vírus. Eles relataram o caso na Conferência de Retrovírus e Infecções Oportunistas em Atlanta, em 3 de março.

A principal investigadora do relatório do caso, Deborah Persaud, virologista da Johns Hopkins University, também apresentou os resultados de um estudo de adolescentes infectados com HIV ao nascer. Cinco dos adolescentes receberam drogas anti-HIV com dois meses de idade e carregaram níveis mais baixos de DNA viral que quatro adolescentes que tinham recebido os medicamentos mais tarde na infância.

“Juntas, as descobertas de nossos dois estudos mostram que ARTs bem precoces em crianças previnem o desenvolvimento de reservatórios virais de longo prazo, e assim podem colocar recém-nascidos no caminho da remissão de longo prazo, e da cura funcional”, declarou Persaud.

O caso é uma importante prova de conceito, observa Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, não envolvido no caso. Os testes de DNA e RNA demonstraram que o bebê teve o vírus por pelo menos 10 ou 12 dias, indicando uma infecção provável, senão precoce. “O problema é que esse ainda é um caso único”, adiciona ele. “Isso não é algo imediatamente generalizável, mas nos diz que em certas circunstâncias existe uma chance de cura”.

“Esse é um relato de caso muito interessante”, declara Mofenson, que também não se envolveu no caso do Mississippi. “Ele tem alguns aspectos incomuns”. Ela ficou sabendo sobre a situação no ano passado, em um think tank para pesquisadores. A mãe apresentou cargas virais extremamente baixas, o que é incomum para um adulto infectado que não tomava medicamentos anti-HIV. Os primeiros testes da criança também mostraram níveis muito baixos. De acordo com Mofenson, esses fatos indicam que existe algo incomum tanto no vírus quanto no hospedeiro.

O novo caso pode ser uma cura para apenas uma criança. Ou pode ser anomalia – talvez a criança não estivesse infectada, ou não esteja realmente curada, observa Joseph M. McCune, professor de medicina experimental da University of California, San Francisco. Ele está mais intrigado pela ideia de que a imaturidade do sistema imune de um recém-nascido de certa forma lhe permite lidar melhor com a infecção por HIV. Pesquisas anteriores mostram que a resposta inflamatória de um sistema imune ameaçado pode na verdade fazer o vírus HIV crescer mais prontamente. Uma resposta inflamatória traz mais células imunes para o local do ferimento ou infecção, aumenta a divisão celular e a produção de moléculas chamadas citocinas. O vírus HIV evoluiu para tirar vantagem de cada um desses processos – ele se espalha de célula em célula, então uma divisão rápida nas proximidades ajuda o vírus a se replicar rapidamente. Citocinas, pequenas proteínas que células usam para se comunicar, parecem ser outro sinal que o vírus usa para saber quando se replicar, explica McCune. Mas num recém-nascido não prepara uma resposta inflamatória tão rapidamente quanto um adulto. Então o vírus pode demorar mais para infectar um bebê completamente. 

A resposta imune do feto também difere da resposta de um recém-nascido porque células da mãe saem da placenta e entram no feto. “O feto não quer desenvolver uma resposta inflamatória contra a mãe”, aponta McCune. “Então o feto desenvolveu um sistema imune que diz ‘não responda’”. Esse apaziguamento da resposta imune pode se manter durante os primeiros dias da vida do recém-nascido: a resposta inflamatória não se ativa completamente, roubando combustível extra da nova infecção por HIV. McCune ainda destaca que esse atraso, combinado com um curto tratamento agressivo, pode dar vantagem suficiente ao corpo para erradicar o vírus sozinho.

“Isso é muito empolgante”, declara McCune. “Muitas revoluções na medicina ocorreram por causa de um único caso”.

Mofenson alerta que o resultado do caso do Mississippi ainda não significa que clínicos e pediatras devam mudar suas práticas. Mesmo crianças ou pacientes mais velhos com níveis de cargas virais muito baixos devem continuar a terapia antirretroviral. Existem “várias questões levantadas por esse caso que precisam muito de pesquisas urgentes e mais profundas”. Para esse fim, seu instituto está recebem propostas de pesquisa. “Agora as pessoas estão conscientes disso e podem trazer outras crianças à nossa atenção”, observa ela. “Espero que tenhamos respostas melhores dentro de um ou dois anos”.