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Bebida ritualística é testada para depressão

Estudo piloto sugere potencial terapêutico da ayahuasca 

Arran Frood e revista Nature
Jairo Galvis Henao/Creative Commons
Ayahuasca, uma tradicional bebida ritualística feita com a casca de um cipó da floresta (Banisteriopsis caapi) e as folhas de um arbusto (Psychotria viridis), contém ingredientes que são ilegais na maioria dos países.
Utilizada há séculos em cerimônias ritualísticas de cura na América Latina, a ayahuasca, uma bebida preparada com a casca de um cipó da floresta (Banisteriopsis caapi) e as folhas de um arbusto (Psychotria viridis), está atraindo a atenção de cientistas biomédicos como um possível tratamento para depressão.

Em março, pesquisadores brasileiros publicaram resultados do primeiro ensaio clínico do potencial benefício terapêutico da ayahuasca, ou chá do Santo Daime, entre muitos outros nomes.

Embora o estudo incluísse apenas seis voluntários e nenhum grupo placebo, os cientistas sustentam que a bebida começou a reduzir os sintomas de depressão em poucas horas e que o efeito persistiu após três semanas.

Atualmente, eles estão conduzindo estudos mais abrangentes na esperança que eles corroborem suas descobertas iniciais.

O trabalho faz parte de um renascimento de estudos envolvendo os potenciais benefícios terapêuticos de drogas psicodélicas (alucinógenas) ou “recreativas”.

Há meio século, essas pesquisas eram em grande parte proibidas ou restritas em todo o mundo. Mas a ciência conhece, já estudou e emprega diversas delas:

A cetamina, utilizada medicinalmente como anestésico, revelou-se promissora como um antidepressivo de ação rápida; a psilocibina, um alucinógeno encontrado em “cogumelos mágicos”, ajuda a aliviar a ansiedade em pacientes com câncer em estágio avançado; a metilenodioximetanfetamina (MDMA), mais conhecida por ecstasy, ajuda a melhorar o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT); e pacientes que sofrem de debilitantes dores de cabeça chamadas cefaleias em salvas, ou dor de cabeça suicida, têm relatado que o LSD (dietilamida do ácido lisérgico) reduz seus sintomas.

A ayahuasca, porém, [no idioma quéchua aya significa “morto, espírito, ancestral”, e huasca, “cipó, corda, ou liana”] contém ingredientes que são ilegais na maioria dos países.

Ainda assim, uma próspera indústria de ayahuasca se desenvolveu na América do Sul, onde seu uso religioso é permitido. Todos os anos, milhares de pessoas vão para “retiros” na floresta tropical a fim de experimentar seus intensos efeitos psicodélicos.

Drinque antidepressivo?

A bebida já foi estudada por antropólogos, cientistas sociais e teólogos, mas pesquisas clínicas sobre a ayahuasca têm se limitado a observar seus efeitos em camundongos e ratos; e em voluntários humanos saudáveis, inclusive por meio de estudos de imageamento cerebral e levantamentos de seu uso no passado.

No mais recente ensaio, pesquisadores liderados por Jaime Hallak, um neurocientista da Universidade de São Paulo (USP), ministraram uma dose fraca de ayahuasca a seis voluntários que haviam sido diagnosticados com níveis de depressão de leve a aguda e que não respondia a pelo menos um antidepressivo convencional.

Nenhum deles tinha tomado ayahuasca antes.

Após ingerirem a infusão, os participantes ficaram sentados em uma sala silenciosa, fracamente iluminada.

Para monitorar seus sintomas de depressão, médicos usaram questionários clínicos padrão. Sinais de melhora foram observados dentro de duas ou três horas (embora os efeitos psicodélicos de uma dose possam levar cerca de cinco horas para desaparecer).

Esse efeito foi considerado muito rápido, já que antidepressivos convencionais podem levar semanas para produzir algum resultado.

Os benefícios, que foram estatisticamente significativos, se mantiveram estáveis em avaliações ao longo das três semanas seguintes.

Três dos participantes vomitaram, o que é um efeito colateral comum da ayahuasca, mas de modo geral o procedimento foi bem tolerado, informa Hallak.

“Isso é uma prova de conceito do que tantos usuários de ayahuasca ritualística já sabem: o preparado pode ajudar uma pessoa a se sentir extremamente bem, não apenas durante a experiência, mas até dias ou semanas depois”, conclui Brian Anderson, um psiquiatra da University of California, em San Francisco, que não esteva envolvido no estudo, mas publicou artigos sobre o potencial da bebida.

“A relação entre os efeitos psicodélicos e terapêuticos da ayahuasca precisa ser estudada empiricamente”, observa ele.

James Stone, um psiquiatra da King’s College London, que estudou os efeitos de drogas psicoativas no cérebro, considerou o estudo interessante, mas advertiu que ele deve ser visto com cautela por não incluir um grupo placebo.

“O efeito placebo é uma reação bem documentada em ensaios clínicos de antidepressivos”, argumenta ele. “As únicas coisas que de fato podem ser inferidas desse estudo são que ela [a ayahuasca] é tolerada por pacientes com depressão, e que, nessas pessoas, ela não parece ter tido quaisquer efeitos colaterais graves após uma única dose”.

Bioquimicamente é plausível que a ayahuasca poderia tratar depressão.

Suas plantas contêm compostos que alteram as concentrações cerebrais do neurotransmissor serotonina, que regula o humor, assim como fazem antidepressivos industrializados.

Esses compostos incluem o alucinógeno N,N-dimetiltriptamina, que se liga a receptores de serotonina; e as substâncias químicas harmina, tetrahidroharmina e harmalina, que se acredita inibirem uma enzima chamada monoamina oxidase A (MAO-A), impedindo assim a degradação de serotonina e de outros neurotransmissores.

“É possível que a ayahuasca e outras drogas serotoninérgicas psicodélicas, como a psilocibina, presente em cogumelos alucinógenos, possam ser úteis futuramente como antidepressivos para subconjuntos específicos de doentes”, avalia Stone.

“Aguardamos os resultados de ensaios bem projetados, randomicamente controlados, para determinar sua eficácia clínica”.

Mais estudos estão sendo realizados atualmente.

Dráulio Barros de Araújo, um neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, e coautor do atual estudo, revelou que, em janeiro de 2014, sua equipe começou um ensaio clínico de ayahuasca e depressão.

O procedimento, randômico, duplo-cego, e controlado por placebo, tratou de 46 pacientes (de um total planejado de 80). 

“Esperamos concluí-lo até o final deste ano”, anuncia Araújo.

Este artigo foi reproduzido com permissão e publicado originalmente em 6 de abril de 2015.

 

 

Publicado em Scientific American em 8 abril de 2015.