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Bradley Manning é Culpado ou Inocente?

O que são `segredos necessários` depois da revelação do programa de vigilância PRISM da CIA?

Save Bradley/Flickr
Simpatizantes carregaram pedem liberdade para Bradley Manning Banner.

 
Por Bryan Bumgardner

Em 30 de julho, um juiz militar absolveu Bradley Manning, o soldado americano responsável pela divulgação de mais de 700 mil documentos secretos, da polêmica acusação de “ajudar o inimigo” inflamando ainda mais a discussão pública sobre o seu papel: ele seria um informante heroico ou um delator traiçoeiro de informações do governo?

Embora inocentado da acusação mais grave, Manning foi considerado culpado de vários outros crimes discutidos no tribunal a partir de 31 de julho para determinar uma sentença. (O The Guardian, britânico, está fazendo uma grande cobertura ao vivo do julgamento).

Manning, rotulado por críticos como um traidor que deveria ser executado e considerado um herói que deve ser libertado por seus defensores, declarou em fevereiro que repassou centenas de milhares de arquivos militares e despachos diplomáticos ao controvertido site WikiLeaks, que publicou o material e provocou uma tempestade na mídia.

As informações incluíam relatórios de guerra, conversas diplomáticas confidenciais e um vídeo brutal mostrando a tripulação de um helicóptero militar dos Estados Unidos disparando contra um grupo de pessoas matando, entre outros, dois jornalistas da agência de notícias Reuters.

A promotoria argumentou que as ações de Manning ajudaram o inimigo indiretamente, uma vez que os documentos divulgados podiam ser acessados pela al-Qaeda e outros inimigos do Estado.

A juíza, coronel do Exército Denise Lind, não quis descartar a possibilidade de considerar Manning culpado quando o processo começou há vários meses, mas acabou por inocentá-lo de ajudar o inimigo, determinando que suas ações “não eram suficientes para condenar o jovem soldado ao equivalente militar de traição”.

Antes do início do julgamento, considerei Manning, com certa reserva, como um informante; mas à medida que li os comunicados publicados, ouvi os argumentos da promotoria, descobri como ele foi tratado e li a reação internacional às suas ações, comecei a ter dúvidas. Percebi que neste momento não consigo chegar a nenhuma conclusão sobre sua culpa ou inocência.

A Scientific American vem investigando o caso há vários anos e organizei a nossa cobertura com base em algumas perguntas simples. Considere essas questões quando discutir o caso Manning com amigos ou contemplar a sua opinião pessoal.

O vazamento dos telegramas diplomáticos foi benéfico para o público, ou prejudicial para as relações internacionais?

Muitos dos documentos expostos são avaliações francas e subjetivas de líderes políticos de todo o mundo o que levou o governo Obama a condenar sua divulgação como sendo prejudicial às relações exteriores. A verdade é um pouco mais difusa: algumas autoridades internacionais ignoraram os despachos, como o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita Osama al-naqli, que declarou que os memorandos “não nos dizem respeito”.

Já o ministro das Finanças do Afeganistão Omar Zakhilwal disse que os vazamentos prejudicariam os Estados Unidos e que o relacionamento não seria mais normais, como de costume. A lista de reações internacionais vai do hilário ao simplesmente sinistro. Será possível medir quantitativamente o efeito desses vazamentos na diplomacia?

Este caso constitui um precedente para futuros denunciantes e informantes?

Como Manning é militar, ele tem obrigações legais ligeiramente diferentes das de um civil. Ainda assim, as notícias sobre o seu suposto confinamento solitário durante 23 horas por dia, sendo forçado a dormir nu, sem travesseiro e impedido de praticar uma atividade física podem ser suficientes para intimidar alcaguetes em potencial.

Muitosde seus atos violaram diretamente os códigos militares e ele se declarou culpado de 10 das acusações. Manning realmente merece uma absolvição incondicional ou a pena de morte? O impacto cultural do caso justifica ignorar uma lei militar de longa data ou devemos ajustar os nossos padrões legais?

Existem coisas como “segredos necessários”?

Muitos defensores de Manning (e de Edward Snowden) fazem campanha por um governo mais transparente, mas qualquer um que já tenha jogado o jogo estratégico de tabuleiro “Risk” (“Risco”) entende o poder político de segredos diplomáticos: eles podem manter a paz ou destruí-la completamente.

Agências do governo americano prometeram aprimorar seus métodos de seleção de funcionários depois que Manning vazou as informações, mas as ações de Snowden levantam questões sobre a eficiência desses métodos. É justificável acreditar que certas coisas não devem ser conhecidas pelo público em prol da diplomacia internacional? Do mesmo modo vale perguntar:

Será que em nosso futuro digital a expansão da transparência será aprovada ou desaprovada por nossa sociedade?

A palavra transparência está se tornando um chavão, especialmente depois da revelação, em junho, do programa de vigilância PRISM da Agência de Segurança Nacional.

Verdade seja dita, assim como o chamado “big data”, o aumento vertiginoso do número e diversidade de dados, começou a revelar mais sobre as comunicações pessoais do público com empresas e agências governamentais, a internet forneceu uma janela de acesso às práticas questionáveis dessas mesmas organizações.

O processo de Manning deve ser visto como uma reação emblemática do governo dos Estados Unidos aos que trabalham rumo à transparência? Ou a sociedade como um todo deve adotar a transparência como a nova norma, como ela é defendida por Julian Assange, o fundador do WikiLeaks? 

Sobre o Autor: Estagiário de verão na Scientific American. Amante da antropologia, da língua francesa e de discussões profundas. Siga no Twitter @@ BryanBumgardner.

As opiniões expressas são as do autor e não são necessariamente as da Scientific American.

sciam1ago2013