Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Brasil ganha novo telescópio construído pela Rússia

Observatório instalado em Minas Gerais vai monitorar lixo espacial

Laboratório Nacional de Astrofísica
Trezentos gigabytes de dados por dia. É essa a quantidade de imagens que o mais novo e avançado telescópio em território brasileiro vai gerar em cada noite de observação. Construído no Observatório do Pico dos Dias em Brazópolis, Minas Gerais, pela agência espacial federal russa Roscosmos, ele será responsável pelo monitoramento de lixo espacial para a Rússia. Seu lançamento oficial acontece amanhã, dia 5 de abril.

O acordo entre a agência russa e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações foi assinado em abril de 2016. Foram investidos cerca de R$10 milhões pela Roscosmos, enquanto o Brasil ficou responsável por oferecer a estrutura para operação do equipamento e arcar com custos de energia e internet. Contudo, os “alvos” de monitoramento serão todos escolhidos pela agência russa, ressalta Bruno Castilho, diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), laboratório que gerencia o Observatório do Pico dos Dias

O telescópio faz parte do projeto russo de mapeamento de lixo espacial, que teve início há dois anos, e é o primeiro colocado em território internacional. Será usado para rastrear os detritos espaciais que orbitam a Terra sobre o hemisfério Sul. Esse monitoramento pode diagnosticar possíveis colisões, mostrando as opções mais seguras de órbita para novos satélites. Há um primeiro telescópio construído na Rússia, em Altai, que já monitora o hemisfério Norte.

Com abertura de 75 cm e uma cúpula de 6 metros de diâmetro, o telescópio será operado por seis técnicos e astrônomos brasileiros treinados por uma equipe da agência russa. O projeto contou com a participação de engenheiros e técnicos brasileiros, além de cientistas russos, na implantação de estrutura mecânica e de informática e na montagem final - adequação de lentes, espelhos, cilindro e câmera, instalação da parte ótica e de software do equipamento.

Lixo espacial

Segundo a Space-track.org, base de dados da Força Aérea dos EUA, existem hoje cerca de 20 mil objetos com mais de 10 cm de diâmetro orbitando a Terra. Dentre eles, apenas 1400 são satélites operacionais - todo o restante são detritos espaciais, que vão desde satélites mortos a pequenos pedaços de espaçonaves. Eles estão em diferentes órbitas e altitudes, e a qualquer momento podem se chocar entre si, ou com satélites operacionais e estações espaciais.

Embora o lixo espacial exista desde os anos 50, quando ocorreu o lançamento do primeiro satélite, o Sputnik, as agências espaciais só começaram a se preocupar com o problema nas últimas duas décadas. “O número de detritos cresce de maneira estável, mas houve algumas grandes colisões nos últimos 20 anos”, explica Stuart Grey, engenheiro aeroespacial e professor da Universidade de Strathclyde, na Escócia, que pesquisa detritos espaciais. “Essas colisões causaram um aumento repentino na quantidade desses objetos.”

Um exemplo foi a colisão em 2009 entre o satélite russo morto Kosmos-2251 e o satélite de comunicações norte-americano Iridium-33, que ainda operava. “O choque formou milhares de novos pedaços de detrito instantaneamente”, diz Grey. Para os próximos anos estão previstos planos para criar novas mega redes de satélites de comunicação e internet, o que aumentaria ainda mais número de objetos em órbita, e também o perigo de colisões.

Para minimizar os efeitos de possíveis colisões, monitorar a órbita da Terra é necessário, mas não o bastante. Regras e diretrizes têm sido propostas, tais como a incineração de satélites que deixam de funcionar. Além disso, diversas agências espaciais estão desenvolvendo meios para remover certos satélites mortos. “Isso diminuiria drasticamente o perigo de colisões”, diz Grey. A Agência Espacial Europeia, por exemplo, tem a missão e.Deorbit. que pretende capturar satélites mortos com um arpão ou uma rede e trazê-los de volta à superfície.

A agência russa, que já possui um banco de dados próprio sobre detritos espaciais, quer melhorar e ampliar seu mapeamento. Segundo Grey, a Rússia é o único país, além dos EUA, que consegue monitorar lixo espacial também por radar. “A tecnologia foi criada durante a Guerra Fria para defesa contra mísseis”, diz. O radar é algo complementar ao telescópio, porém fundamental, pois permite rastrear objetos em órbitas mais baixas, com até 2 mil quilômetros de altitude.

Processamento de imagens

Todas as imagens tiradas pelo telescópio no Observatório do Pico dos Dias serão coletadas e armazenadas temporariamente pelo LNA. Depois disso, serão enviadas para a Rússia, onde supercomputadores processarão os 300 GB diários de dados coletados. Ao final de seis anos, prazo do acordo inicial estabelecido entre as entidades, estima-se que haja um banco de dados com cerca de 700 TB de imagens sobre lixo espacial.

O acordo também permite que o LNA faça uma cópia de todos os dados. Eles serão utilizados principalmente para a pesquisa em astronomia e ficarão armazenados em um computador na sede do laboratório, em Itajubá. “A ideia é que o pesquisador não tenha que vir até aqui para pegar essas imagens, porque é muita coisa”, diz Castilho.

Todo pesquisador, seja um professor de universidade ou alguém com um estudo independente, poderá ter uma conta no servidor do LNA para acessar as imagens. Essa ferramenta evita que precisem transferir os dados para seus computadores ou mesmo se locomover até o laboratório para pegá-los. “Tudo o que precisam fazer para ter essa conta é apresentar um projeto científico e mostrar que realmente precisam dessas imagens em suas pesquisas”, explica.

 

Marília Fuller
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq