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Brasil pode sofrer queda de produtividade

Cientistas se reunirão em São Paulo para debater consequências de mudanças climáticas e adaptações possíveis

 

Tom Wang/Shutterstock
A primeira conferência nacional brasileira sobre mudanças climáticas globais será realizada na Fapesp, em São Paulo, de 9 a 13 de setembro.
Por Jan Rocha e The Daily Climate

SÃO PAULO — Temperaturas mais elevadas, mudanças acentuadas de precipitação, menor produtividade, mais ferrugem e doenças: essas são apenas algumas das consequências das mudanças climáticas previstas no Brasil se as projeções dos 345 cientistas que compõem o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) estiverem certas.

De acordo com eles, se as atuais tendências de emissões de gases de efeito estufa persistirem, as temperaturas médias no país serão de3 a6ºC mais altas em 2100 em comparação ao final do século 20.

Os padrões de chuva poderão mudar drasticamente, aumentando em até 30% nas regiões Sul e Sudeste e diminuindo em até 40% no Norte e Nordeste.

As previsões, apoiadas em pesquisas realizadas ao longo dos últimos seis anos, constam de um relatório que constitui o diagnóstico mais completo até agora das futuras tendências climáticas no Brasil.

O documento será apresentado na primeira Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima), a ser realizadaem São Paulo de 9 a 13 de setembro sob os auspícios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), de financiamento público. Após o encontro, os dados serão incluídos no quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas que será lançado duas semanas depois. 

`Um pouco loucas`

As alterações de temperatura e precipitação não estarão restritas ao Brasil, o maior país da América do Sul, mas também afetarão seus vizinhos.

“Com exceção da costa central e sul do Chile, onde ocorreu um arrefecimento nas últimas décadas, a temperatura aumentará em todas as outras regiões”, afirmou José Marengo, cientista climático do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que utiliza modelos climáticos regionais para fazer projeções futuras.

“A impressão é que as estações ficaram ‘um pouco loucas’, com extremos climáticos mais frequentes”.

Os tornados, antes raros, se tornarão mais frequentes. As cidades de grande e médio porte ficarão mais quentes e terão padrões de chuva alterados. Na Amazônia e no Nordeste semiárido o índice pluviométrico pode cair 40%, aumentando em 30% no Sul e Sudeste.

E, embora a confiabilidade dessas projeções seja menor, os modelos climáticos também indicam mudanças significativas na região do cerrado no planalto central, uma importante área de cultivo de cereais, e no Pantanal.

Pouca consciência

Todas essas mudanças terão um efeito dramático nas colheitas de um dos maiores países produtores de alimentos do mundo, mas até agora os agricultores brasileiros têm demonstrado pouca consciência dos problemas futuros e, consequentemente, não começaram a se adaptar à mudança climática. As monoculturas continuam a se expandir e invadir a região da Amazônia e tomam conta do cerrado.

“Precisamos agir agora para evitar o agravamento da situação”, advertiu Eduardo Assad, um dos pesquisadores do PBMC que trabalha para a Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.

As medidas sugeridas incluem investir intensivamente em sistemas agrícolas mistos e abandonar a prática da monocultura. Além disso, os fazendeiros devem aumentar a fixação biológica de nitrogênio no solo, reduzir o uso de pesticidas (desde 2008, o Brasil é o maior consumidor do mundo), e intensificar a rotação de culturas.

“O conhecimento para tudo isso já existe, mas precisamos de uma orientação mais firme do governo [para os agricultores]”, observou Assad. “Temos que aumentar a produtividade no Centro-Oeste, Sudeste e no Sul para evitar a destruição da Amazônia. A reorganização do espaço rural brasileiro é urgente”.

Segundo Assad, perdas de colheitas já estão sendo observadas. Desde 2000, o país tem registrado uma queda de produtividade em algumas regiões e culturas; especialmente nas de café, soja e milho.

Difícil de sustentar

A soja será a mais afetada. Até o final de 2013, o Brasil deverá ultrapassar os Estados Unidos, se tornando o maior produtor do mundo, mas essa posição será difícil de sustentar se os esperados efeitos climáticos se concretizarem.

As mudanças na umidade do solo e na temperatura do ar afetarão regiões como o Nordeste semi-árido, onde a falta de água é constante. A produtividade de culturas básicas, como o milho, o feijão, o algodão, a mandioca e o arroz sofrerão e levarão a uma queda de rendas na região, que já é a mais atrasada do Brasil em termos de indicadores sociais que agravam a pobreza.

Autoridades temem que o bem-sucedido programa do governo federal para reduzir a pobreza, o Bolsa Família, não será suficiente para impedir uma renovada onda migratória de áreas rurais para as cidades, agravando os problemas de infraestrutura relacionados à habitação, ao transporte e ao saneamento.

Ajuda no planejamento futuro

Os pesquisadores querem que seu relatório seja usado para orientar a elaboração e execução de políticas públicas para mitigar uma adaptação às mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, ajudar as empresas em seus planejamentos futuros.

O relatório, o primeiro do PBMC, também marca a aceitação do Brasil pelo IPCC como uma nação que fornece projeções em escala planetária. Isso se deve ao fato de que o país desenvolveu seu próprio modelo de simulação climática, o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre — o único país do hemisfério sul a fazer isso.

Isso não só permitiu que os cientistas reconstruíssem as ocorrências recentes do fenômeno climático El Niño, causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais da região equatorial do oceano Pacífico, que afeta o regime de chuvas em grande parte do planeta, mas que também simulassem os efeitos de El Niños futuros.

Este artigo foi publicado originalmente no The Climate Daily, a fonte sobre mudanças climáticas publicada pela Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.

sciam5set2013