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Caçadores de estrelas cadentes

União Astronômica Internacional reconhece 23 novas chuvas de meteoritos descobertas por rede de pesquisadores brasileiros em apenas três anos de atividades

Renato Poltronieri/Bramon
Meteoro registrado pela estação de observação RCP1, em Nhandeara-SP.
Às vezes, olhando para o céu noturno, enxergamos um breve rastro de luz cortando o firmamento - uma estrela cadente, na linguagem popular. No mundo da astronomia, porém, esse rastro luminoso ganha o nome de meteoro, e é gerado pela entrada de uma partícula ou pedaço de rocha espacial na atmosfera terrestre. A observação de meteoros no Brasil vem se intensificando nos últimos três anos, e ganhou um novo capítulo na última segunda-feira, no dia 5 de junho. Naquele dia, a União Astronômica Internacional (UAI) e o Meteor Data Center (MDC) aceitaram o registro de 23 novas de chuvas de meteoros identificadas por brasileiros.

As recentes descobertas foram feitas pela Brazilian Meteor Observation Network (Bramon), rede de astrônomos amadores e profissionais do Brasil de monitoramento de meteoros. Ela foi fundada em janeiro de 2014 pelos astrônomos amadores Renato Poltronieri, Carlos Augusto di Pietro e um terceiro parceiro, que se desligou após alguns meses. Outras duas descobertas anteriores de chuvas de meteoros já haviam sido feitas pela rede, aprovados pela UAI e pelo MDC no final de março deste ano.

Com mais de 30 anos de observação do céu, Poltronieri sempre teve grande interesse por meteoros. “Quando passam pela atmosfera e caem em solo terrestre, os meteoros se transformam em meteoritos, trazendo consigo em sua ‘bagagem’ histórias sobre a criação do universo”, diz Poltronieri. Dividindo o mesmo fascínio pela astronomia, ele e di Pietro, motivados pela inexistência de redes de monitoramento de meteoros no hemisfério Sul e inspirados pela rede europeia Edmond, tiveram a ideia de criar a Bramon.

A Bramon foi a primeira rede de monitoramento de meteoros do Brasil. No começo contava apenas com três estações de observação: a de di Pietro, que fica em Goiânia (GO), a de Poltronieri, em Nhandeara (SP) e uma em São Sebastião (SP). Hoje, a rede possui colaboradores em todas as cinco regiões do país, com 95 estações de observação distribuídas por 19 estados brasileiros. Todos os dados coletados pela rede são abertos, mas só após a conclusão de análises e estudos.

Segundo Poltronieri, o meteoro que vemos cortando o céu sempre vem de algum lugar e possui uma órbita. Portanto, é essencial estudá-los para descobrir sua origem - um cometa, na maioria das vezes - e saber com antecedência se, por exemplo, esse corpo está vindo de encontro à Terra. Além disso, o monitoramento permite estudar a formação desses meteoros, entendendo mais de sua composição e do local de onde eles saíram - os chamados radiantes de chuva de meteoros.

A maioria dos meteoros vistos no Brasil e no Hemisfério Sul é classificada como “esporádicos”. Eles recebem essa nomenclatura pois não possuem nomes próprios e não se sabe de onde eles vieram, já que há pouco estudo sobre isso na região. “É principalmente nesse tipo de meteoro que a Bramon trabalha, para finalmente reconhecê-los”, diz Poltronieri.

Primeiras descobertas brasileiras

As duas primeiras descobertas - os radiantes Epsilon Gruids e August Caelids - foram aceitas pela UAI e o MDC no dia 20 de março, mas o processo se iniciou um ano antes. À época, o banco de dados da Bramon já possuía cerca de 82 mil meteoros registrados. Foram necessários profissionais especializados em astronomia e física para fazer uma busca por todo o banco e realizar cálculos para dizer se certo meteoro pertence a uma determinada chuva. “Fizemos um trabalho em conjunto, partindo das observações feitas na minha própria estação”, diz Poltronieri. Esses foram os primeiros registros feitos por brasileiros.

Segundo Marcelo Zurita, também membro da Bramon, o trabalho de análise de cálculos foi facilitado graças a um novo software desenvolvido por Leonardo Amaral, outro integrante da rede. “O programa não só foi capaz de encontrar e confirmar matematicamente as chuvas em nossa base de dados, como também conseguiu integrar as bases de dados da Edmond e da Sonotaco (rede japonesa), que são redes consolidadas há vários anos no hemisfério norte e possuem uma vasta base de dados de meteoros”, explica. Ambas as redes estrangeiras possuem base de dados aberta.

O trabalho para investigar estes dados se iniciou em janeiro deste ano, em meio aos esforços para validar as duas primeiras descobertas. Observando a base de dados da Bramon, os brasileiros perceberam que havia outros seis novos agrupamentos de meteoros com potencial para serem classificados como chuvas de meteoros.

No total, o trabalho com os dados da Edmond e da Sonotaco levou à identificação de 10 chuvas de meteoros que ocorrem no Hemisfério Norte. Somadas a outras 13 detectadas no Hemisfério Sul, compõem as 23 novas chuvas reconhecidas pela UAI.

Como colaborar com a rede

Para ser um operador da Bramon, não é necessário ter conhecimento prévio sobre astronomia. “O importante é ter curiosidade sobre o céu, além de vontade de aprender e colaborar com o monitoramento que fazemos”, diz Poltronieri. Apesar de ser constituída majoritariamente por astrônomos amadores, a rede conta com dois astrônomos profissionais, além de cientistas, doutores e profissionais de outras áreas que possuem interesse nas informações coletadas pela rede.

Quanto aos equipamentos, é preciso, primordialmente, três coisas: um computador com as configurações necessária; câmeras convencionais simples, que consigam fazer registros fotográficos das observações; e o programa japonês utilizado atualmente pela rede para a coleta e armazenamento dos dados. O programa, pago, é fornecido pela Bramon, juntamente de manual para instalação e utilização. Quando pronta e registrada, a estação pertence única e exclusivamente ao operador, possuindo apenas um vínculo com a Bramon. “Então, tudo aquilo o que produzir é do próprio operador.”

Em apenas três anos, a Bramon já tem enormes conquistas. Desde 2014, as pesquisas feitas pela rede são apresentadas anualmente no Encontro Nacional de Astronomia (ENAST). Em 2016, Poltronieri foi premiado durante o 19º ENAST em João Pessoa, na Paraíba, pelo trabalho de pesquisa de campo feito com a Bramon. O prêmio é um dos mais importantes da área no Brasil. Mesmo após 25 registros de novas chuvas de meteoros, o astrônomo diz que o trabalho está só começando. “Eu garanto para você que vêm mais coisas por aí, pode se preparar. É animador, toda nossa equipe está roendo as unhas!”

Marília Fuller
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