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Canais de resíduos revelam níveis de resistência antimicrobiana no mundo

Análise de esgoto possibilita um monitoramento global do surgimento de bactérias resistentes

Frank Aarestrup

Mapa colorido de acordo com a abundância prevista de antimicrobiano. De azul claro (baixa abundância) para azul escuro (alta abundância). 

Uma análise abrangente do esgoto coletado em 74 cidades em 60 países produziu os primeiros dados globais comparáveis que mostram os níveis e tipos de bactérias resistentes aos antimicrobianos que estão presentes principalmente em pessoas saudáveis nesses países. O Instituto Nacional de Alimentos, ligado a Universidade Técnica da Dinamarca, liderou o estudo, que foi conduzido por uma equipe internacional de pesquisadores.

Em um estudo metagenômico, os pesquisadores mapearam todo o material de DNA nas amostras de esgoto e descobriram que, de acordo com a resistência antimicrobiana, os países do mundo se enquadram em dois grupos: América do Norte, Europa Ocidental,  Austrália e Nova Zelândia geralmente apresentam os níveis mais baixos de resistência antimicrobiana, enquanto a Ásia, a África e a América do Sul apresentam os níveis mais altos.

Brasil, Índia e Vietnã têm a maior diversidade em genes de resistência, enquanto Austrália e Nova Zelândia têm a menor.

Saneamento e saúde estão intimamente ligados à resistência antimicrobiana

Segundo os pesquisadores, o uso de antimicrobianos apenas explica uma pequena parte da ocorrência de resistência antimicrobiana nos diversos países. Portanto, os pesquisadores buscaram outros fatores que poderiam ser indicadores da ocorrência de bactérias resistentes. Neste trabalho, eles usaram vários conjuntos de dados abrangentes do Banco Mundial, os quais, por exemplo, medem o estado de saúde e o estágio de desenvolvimento dos países.

O trabalho dos pesquisadores mostra que a maioria das variáveis, associadas à ocorrência de resistência antimicrobiana em um país, está relacionada às condições sanitárias do país e ao estado geral de saúde da população.

"Na luta contra a resistência antimicrobiana, nossos resultados sugerem que seria uma estratégia muito eficaz se fossem feitos esforços conjuntos para melhorar as condições sanitárias em países com altos níveis de resistência antimicrobiana", disse Frank Aarestrup, do Instituto Nacional de Alimentos.

Usando os mesmos dados do Banco Mundial, os pesquisadores também previram os níveis de resistência antimicrobiana em 259 países e territórios e elaboraram um mapa mundial da resistência em populações saudáveis. Segundo suas estimativas, a Holanda, a Nova Zelândia e a Suécia têm os níveis mais baixos de resistência, enquanto a Tanzânia, o Vietnã e a Nigéria têm os níveis mais altos. Segundo as estimativas, a Dinamarca tem o sexto nível mais baixo de resistência antimicrobiana.

Dados reutilizáveis

Ao contrário dos dados dos métodos tradicionais de análise, os dados brutos dos estudos metagenômicos podem ser reutilizados para examinar outros problemas. Os pesquisadores do projeto de esgoto estão, por exemplo, utilizando dados do estudo para analisar a ocorrência de outros microrganismos presentes nos resíduos que sejam causadores de doenças.

À medida que mais genes de resistência surgirem no futuro, os pesquisadores também serão capazes de analisar novamente dados brutos públicos disponíveis a partir de estudos de metagenômica para descobrir rapidamente como esses genes surgiram e se espalharam.

Um passo mais perto de um sistema de vigilância global

Os pesquisadores utilizarão a experiência obtida com o projeto para cumprir sua ambição geral de desenvolver um sistema de vigilância mundial que possa monitorar continuamente a ocorrência e disseminação de microrganismos causadores de doenças e resistência antimicrobiana.

"Analisar o esgoto pode, rapidamente e com relativamente baixo custo, mostrar exatamente quais bactérias são abundantes em uma área - e coletar e analisar o esgoto não requer aprovação ética, pois o material não pode ser rastreado até os indivíduos. Ambos os parâmetros ajudam a fazer um sistema de vigilância via esgoto uma opção viável - também nos países em desenvolvimento ", explica Frank Aarestrup.

A ambição dos pesquisadores é desenvolver um sistema que possibilite a troca e interpretação de informações em tempo real. Como isso, seria possível utilizar os dados de vigilância globais e gerenciar doenças que ameaçam se espalhar para além das fronteiras de um país e se transformar em pandemias, como Ebola, sarampo, pólio ou cólera.

UNIVERSIDADE TÉCNICA DA DINAMARCA

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