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Cannabis reverte processo de envelhecimento cerebral em camundongos

Animais de 12 e 18 meses que receberam tratamento com THC mostraram desempenho de memória tão bom quanto os de dois meses

Shutterstock
O desempenho da memória diminui com o aumento da idade. A cannabis pode reverter esse processo de envelhecimento no cérebro, pelo menos em modelos animais. Segundo um experimento feito por por cientistas da Universidade de Bonn e da Universidade Hebraica de Jerusalém, um tratamento prolongado de pequenas doses do ingrediente ativo da cannabis, animais idosos conseguiu fazer com que o desempenho cerebral dos animais envolvidos retornasse a um estado semelhante aos dois meses de idade. Os resultados estão apresentados na revista Nature Medicine.

Assim como qualquer outro órgão, nosso cérebro envelhece. Como resultado, a habilidade cognitiva também diminui. Isso se mostra, por exemplo, na crescente dificuldade para aprender coisas novas ou para a atenção entre diversas coisas ao mesmo tempo. Esse fenômeno é normal, mas pode, também, resultar em demência. Há muito tempo, pesquisadores têm procurado por maneira de desacelerar ou até mesmo reverter esse processo.

Os cientistas conseguiram obter esta reversão em camundongos. Na natureza, esses animais têm uma expectativa de vida relativamente curta e demonstram deficiências cognitivas pronunciadas até mesmo aos 12 meses de idade. Os pesquisadores administraram uma pequena quantidade de THC, o ingrediente ativo da planta da maconha (Cannabis), em camundongos com dois, 12 e 18 meses por um período de quatro semanas.

Após esse período, testaram a capacidade de aprendizado e o desempenho da memória nos animais - incluindo, por exemplo, habilidades de orientação e reconhecimento de outros camundongos. Aqueles que receberam apenas um placebo mostraram padrão natural de aprendizado dependente da idade e de perdas na memória. Já as funções cognitivas dos animais tratados com cannabis estavam tão boas quanto as dos camundongos de dois meses utilizados como controle. “O tratamento reverteu completamente a perda de desempenho nos animais idosos”, relata Andreas Zimmer, do Instituto de Psiquiatria Molecular da Universidade de Bonn.

Anos de pesquisas meticulosas

O sucesso desse tratamento é resultado de anos de pesquisas meticulosas. Em primeiro lugar, os cientistas descobriram que o cérebro envelhece muito mais rápido quando os camundongos não possuem nenhum receptor funcional para o THC. Esses receptores de canabinóide 1 (CB1) são proteínas nas quais as substâncias se encaixam e, assim, desencadeiam uma cadeia de sinais. O CB1 também é a razão para o efeito intoxicante do THC em produtos de cannabis, como o haxixe e a maconha, que se acumulam no receptor. O THC imita o efeito canabinóides produzidos naturalmente no corpo, que realizam funções importantes no cérebro. “Com o aumento da idade, a quantidade de canabinóides formados naturalmente no cérebro reduz”, diz Zimmer. “Quando a atividade do sistema canabinóide diminui, encontrados um envelhecimento cerebral rápido.”

Para descobrir com precisão qual efeito o tratamento com THC possui em camundongos idosos, os pesquisadores examinaram o tecido cerebral e a atividade gênica dos animais tratados. As descobertas foram surpreendentes: a assinatura molecular não mais correspondia à de camundongos idosos, mas era muito similar à de animais jovens. O número de ligações entre as células nervosas do cérebro também aumentou novamente, o que é um importante pré-requisito para a habilidade de aprendizado. “Parecia que o tratamento com THC havia feito o relógio molecular voltar”, diz Zimmer.

Próximo passo: testes clínicos em humanos

Uma baixa dosagem do THC administrado foi escolhida para que não houvesse efeito intoxicantes nos camundongos. Os produtos de cannabis já são permitidos para medicação - em algumas partes do mundo - como, por exemplo, analgésicos. Como próximo passo, os pesquisadores querem conduzir testes clínicos para investigar se o THC reverte os processos de envelhecimento cerebral também em humanos e se pode aumentar a habilidade cognitiva.

Svenja Schulze, secretária da ciência da Renânia do Norte-Vestfália, um estado da Alemanha, se mostrou entusiasmada com o estudo: “A promoção de ciência básica é indispensável, pois é o terreno fértil para todas as questões relativas à aplicação. Embora haja um longo caminho entre camundongos e humanos, eu me sinto extremamente positiva em relação à perspectiva de que o THC poderia ser usado para tratar a demência, por exemplo.”

Universidade de Bonn
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