Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Uso de carvão induz morte prematura anual de 100 mil na Índia

Apesar do alto custo, há previsão de aumento de consumo do combustível

Flickr/Nick Sarebi
 

Trabalhadores indianos descarregando um vagão carvoeiro. 

 

 

Por Lisa Friedman e ClimateWire

 Até 115 mil pessoas morrem anualmente na Índia devido à poluição de usinas elétricas a carvão, o que custa cerca de US$4,6 bilhões ao país, de acordo com um novo estudo pioneiro publicado.

O relatório do Conservation Action Trust, com sede em Mumbai, é a primeira análise ampla da ligação entre a poluição de partículas finas e problemas de saúde na Índia, onde o carvão é o combustível preferido e a demanda energética está disparando.

As descobertas são surpreendentes. Além das mais de 100 mil mortes prematuras, o estudo liga milhões de casos de asma e doenças respiratórias à exposição ao carvão. Contaram-se 10 mil crianças com menos de cinco anos de idade entre as vítimas fatais apenas no ano passado.

“Eu não esperava que os números de mortalidade anual fossem tão altos”, declara Debi Goenka, administrador executivo do Conservation Action Trust.

Goenka descreveu o impacto à saúde como “um dos aspectos mais negligenciados” das avaliações de impacto ambiental locais, dizendo que “Estamos muito acostumados a ler os relatórios da Administração de Informações Energéticas (EIA) ano após ano dizendo que ‘Não há impactos sobre a saúde e o desenvolvimento humano’”.

O relatório, produzido em conjunto com o Greenpeace India, usa dados de usinas compilados pelo ex-analista de poluição do ar do Banco Mundial, Sarath Guttikunda, diretor fundador de uma organização chamada Urban Emissions, sediada em Delhi, que se concentra em compartilhar informações científicas. Os dados são baseados em usinas e nas características dos combustíveis, já que a Índia, de acordo com pesquisadores, não disponibiliza informações contínuas e acessível no nível das usinas.

Em seguida pesquisadores usaram modelos para estimar mudanças nas concentrações de poluentes ambientais provocadas por usinas movidas a carvão na região e estimaram impactos à saúde usando metodologias revisadas por pares em estudos semelhantes ao redor do mundo. O relatório também foi enviado ao periódico Atmospheric Environment.

‘Completamente evitável’?

Classificando as descobertas como “chocantes”, os autores declararam que as doenças e mortes relacionadas às emissões de carvão ressaltam a necessidade de adotar padrões de emissões mais rígidos, implantar tecnologias avançadas de controle de poluição, e aumentar o uso de opções energéticas mais limpas.

“Os dados representam uma chamada à ação para evitar os impactos mortais, e completamente evitáveis, que essa poluição tem sobre a população da Índia”, escreveram os autores. Sem mudanças, alertaram eles, “centenas de milhares de vidas continuarão a ser perdidas devido a emissões de usinas de energia a carvão. Quaisquer tentativas de enfraquecer até mesmo as atuais regras ambientais se somarão a essa tragédia humana”.

O estudo descobriu que os impactos ficam concentrados na Índia central e norte. Uma região que inclui os aglomerados em West Bengal, Jharkhand e Bihar, teve entre 7900 e 11 mil mortes prematuras.

Atualmente a Índia produz cerca de 201 gigawatts de energia, e mais da metade de sua eletricidade vem do carvão. Um estudo recente do Instituto de Recursos Mundiais em Washington, capital dos Estados Unidos, descobriu que a capacidade deve mais que dobrar, chegando a 519GW, com a construção de 455 usinas propostas. Isso é apenas um pouco menos que a capacidade pendente da China, o rei do carvão mundial.

Enquanto isso, líderes da indústria do carvão declaram estar otimistas em relação à capacidade que o carvão tem de tirar países em desenvolvimento da pobreza energética, e apontaram que o carvão deve superar o petróleo como principal fonte de energia do mundo em 2015.

Ar condicionado vai aumentar consumo

O presidente da Associação Nacional de Mineração, Hal Quinn, recentemente declarou durante o Fórum Anual sobre o Estado da Indústria Energética, da Associação Energética dos Estados Unidos, que apenas o portfólio energético de carvão da Índia irá de 65% de geração total para até 80% até 2025.

“O simples ato de levar a cidade de Mumbai [com 13 milhões de habitantes] a nosso nível de refrigeração seria equivalente ao consumo de ar condicionado de todos os Estados Unidos”, declarou ele.

E líderes da indústria recentemente se concentraram em maneiras de impor tecnologias carvoeiras mais limpas, incluindo uma grande conferência em Delhi no início deste mês com oficiais de alto nível do governo e líderes de indústria concentrando-se em gasificação de carvão, captura e armazenamento de carbono, aprimoramentos, e outras medidas para melhorar a eficiência e reduzir a poluição.

Mesmo assim, de acordo com os autores, ainda existem alguns problemas ocultos – incluindo o fato de oficiais da indústria conduzirem monitoramentos da qualidade do ar usando um sistema obsoleto e impreciso. Eles descreveram o estudo como um primeiro passo para encorajar o governo a compreender os custos totais dessa fonte de combustível aparentemente econômica.

“O governo ainda vê o carvão como a resposta para as necessidades energéticas da Índia”, observou Ashish Fernandes do Greenpeace. “Será uma batalha morro acima até conseguirmos fazer as pessoas verem o custo verdadeiro que isso implica”.

 

Republicado com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC.www.eenews.net, 202-628-6500