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Células cancerosas podem transformar vizinhas saudáveis

Material genético liberado por tumores pode induzir malignidade em células saudáveis próximas

National Cancer Institute
Visão microscópica de células de câncer de próstata, mostrando o gene codificador de proteína Schlafen-11 [SLFN11] principalmente no núcleo.
Por Heidi Ledford e Nature magazine

 Quando uma célula cancerosa descarta seu “lixo”, ela pode transformar vizinhas saudáveis em companheiras tumorais.

Muitas células, incluindo as carcinogênicas, secretam milhares de microvesículas encapsuladas por membranas, chamadas exossomos, que contêm proteínas, DNA e RNA.

Acredita-se que o processo seja um sistema de reciclagem residual, mas ele também pode facilitar a comunicação intercelular. Nesse caso, algumas dessas vesículas podem se fundir com outras células e depositar seus resíduos no interior delas.

Em um estudo publicado on-line em 23 de outubro em Cancer Cell, pesquisadores mostram que exossomos de carcinomas de mama humanos podem causar tumores quando misturados com células normais injetadas em camundongos.

A descoberta poderia abrir o caminho para encontrar marcadores para monitorar a progressão de tumores e talvez até apontar os alvos para terapias.

“É incrível, essas vesículas eram consideradas ‘latas de lixo’”, observa Khalid Al-Nedawi, um pesquisador oncológico da McMaster University, em Hamilton, no Canadá. “Esse artigo realmente nos aproxima mais da possibilidade de aproveitarmos o potencial dessas microvesículas”, arremata.

Carga perigosa

Estudos anteriores haviam mostrado que células cancerosas secretam mais exossomos que células normais.

Por essa razão, Raghu Kalluri do MD Anderson Cancer Center, em Houston, no Texas, e seus colegas, decidiram investigar como os dois tipos de exossomos poderiam se distinguir.

Para isso, os pesquisadores isolaram exossomos de células desenvolvidas em culturas e descobriram que, ao contrário de exossomos normais, os de carcinomas continham os blocos de construção necessários para produzir fragmentos curtos de RNA, chamados microRNAs, que podem silenciar a expressão de genes alvos.

A exposição aos exossomos cancerígenos alterou a expressão gênica em células normais e eles causaram tumores quando injetadas em camundongos.

Exossomos de células normais, porém, não fizeram isso, e o crescimento tumoral foi reduzido em células expostas a exossomos cancerígenos, nos quais o mecanismo molecular produtor de microRNA havia sido desativado.

A equipe também coletou exossomos do sangue de oito mulheres saudáveis e de outras 11 com câncer mamário.

Cinco dessas 11 amostras de pacientes induziram crescimento tumoral quando os exossomos foram misturados com células normais e injetados em camundongos, mas nenhuma amostra de mulheres saudáveis fez isso.

Não se conhece a distância que exossomos podem viajar pelo corpo, explica Kalluri, mas o fato de a equipe ter conseguido isolá-los do sangue sugere que eles poderiam ser bastante ágeis. E, mesmo que seu efeito seja apenas local, eles ainda poderiam tornar células cancerígenas próximas mais agressivas, ou transformar vizinhas saudáveis em células malignas, salienta.

No entanto, tentar retardar a progressão de um câncer ao bloquear exossomos é uma tarefa difícil, argumenta Khalid Al-Nedawi. Não está claro como isso afetaria células normais, observa, acrescendo que foi demonstrado que alguns exossomos de células saudáveis contêm proteínas que previnem câncer.

Uma aplicação mais iminente talvez seja usar exossomos como um meio de detectar e monitorar carcinomas, acrescenta.

Kalluri salienta que exossomas são mais abundantes e fáceis de isolar que células tumorais suspensas no sangue, que também já foram utilizadas para rastrear a doença.

“Milhões de exossomos são produzidos por cada célula”, diz ele. “Isso é muito poderoso”.

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado originalmente em 23 de outubro de 2014.

Scientific American 23 de outubro de 2014