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Células humanas clonadas na Coréia foram produto de “nascimento virgem”

Células clonadas fraudulentas provavelmente foram o primeiro exemplo de um óvulo humano transformado diretamente em células-tronco

JR Minkel
A origem das células clonadas coreanas: Hoo Suk Hwang, o pesquisador sul-coreano que afirmou fradulentamente que havia criado células de embriões humanos clonados, pode ter produzido sem querer as primeiras células-tronco a partir de óvulos humanos
Pesquisadores dizem ter confirmado as suspeitas de que células-tronco embrionárias que teriam sido extraídas do primeiro embrião humano – “clonado” pelo desacreditado cientista sul-coreano Woo Suk Hwang – na verdade, devem sua existência à partenogênese, processo em que os óvulos dão origem a embriões sem serem fertilizados por espermatozóides.

Uma série de marcadores genéticos espalhados por todos os cromossomos das células mostra o mesmo padrão encontrado em camundongos partenogenéticos em comparação a camundongos clonados, de acordo com um estudo publicado na revista especializada online Cell Stem Cell.

O resultado sugere que, apesar de Hwang ter enganado o mundo ao afirmar que havia obtido o primeiro clone humano, sua equipe foi a primeira a realizar a partenogênese humana com sucesso. A descoberta pode fornecer uma maneira de criar células geneticamente compatíveis com as de uma mulher para serem transplantadas de volta em seu organismo e assim tratar doenças degenerativas.

“Esse estudo é extremamente importante – e confiável”, assegura o pesquisador de células-tronco Robert Lanza, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento científico da Applied Cell Technology, uma fabricante de medicamentos regenerativos na Califórnia, que não integrou o estudo. “Trata-se de uma prova conclusiva de que a linha de células-tronco em questão não foi clonada como se afirmou, mas gerada por partenogênese.”
O primeiro parthenote humano deliberado: no final de junho, uma empresa californiana publicou o primeiro estudo de células derivadas de óvulos humanos estimulados para se tornarem embriões. As células são mostradas aqui após o transplante para um camundongo
O resultado veio logo depois de um anúncio realizado no mês passado por outra empresa de células-tronco na Califórnia, a International Stem Cell Corporation (ISC), de que havia realizado a partenogênese humana com sucesso pela primeira vez. No ano passado, pesquisadores italianos afirmaram ter realizado o mesmo feito, mas eles ainda não publicaram seus resultados.

“O fato de o resultado ter sido obtido por dois grupos independentes confere um grau ainda maior de confiança” à técnica, avalia Lanza.

A descoberta traz uma conclusão para uma história que abalou o mundo científico pela primeira vez em fevereiro de 2004, quando Hwang e seus colegas da Universidade Nacional de Seul anunciaram ter clonado uma célula de uma doadora, transferindo o núcleo para um de seus óvulos (cujo núcleo já tinha sido retirado), em um processo conhecido como transferência de núcleo de células somáticas (SCNT), e obtiveram células-tronco embrionárias da fusão. Os resultados foram publicados no mês seguinte na revista Science.

O estudo foi questionado em janeiro de 2006, depois que uma investigação da universidade concluiu que Hwang havia fabricado as provas, o que foi seguido por uma do histórico do ano interior, em que a equipe reportou falsamente 11 linhas de células que combinavam geneticamente com seus doadores.
Mistérios ainda sem solução

Uma célula clonada deveria ser idêntica ao seu doador, mas a investigação descobriu que de 48 variações genéticas comuns, ou marcadores, presentes nas células de 2004, oito não eram compatíveis com seu doador aparente. Os pesquisadores sugeriram a partenogênese como explicação mais provável para isso, mas não tinham certeza.

Mais tarde, durante uma discussão por acaso com colegas europeus, o pesquisador de células-tronco George Daley, do Children\\`s Hospital Boston e do Harvard Stem Cell Institute ficou sabendo que eles haviam recebido amostras da linha celular antes de o trabalho ser questionado. “Tínhamos lido sobre a suspeita de a célula ser produto de partenogênese, mas também notamos que isso nunca havia sido provado”, recorda-se Daley.

Para fechar o caso, eles analisaram a seqüência genética da linha celular em 500 mil locais do genoma.

O DNA de qualquer pessoa será diferente do DNA de outra em uma para cada mil subunidades ou pares de base, em média, explica Daley. Quando o cromossomo de um espermatozóide se junta ao de um óvulo, esses polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) tendem a não combinar um com o outro.
O mesmo vale para células clonadas. Mas, em comparação, pares de cromossomos correspondentes em células partenogenéticas tendem a combinar uns com os outros e serem diferentes nas extremidades devido a um processo de mistura genética chamada recombinação. Em seu estudo, Daley e seus colegas afirmam que os SNPs na linha celular coreana na verdade combinam com o centro dos cromossomos, de forma similar às linhas celulares de camundongos partenogenéticos que a equipe criou para fazer uma comparação.

Jeffrey Janus, presidente e diretor de pesquisa da ISC, concorda que “as células do Dr. Hwang possuem características encontradas em células partenogenéticas”, mas se mostra cauteloso, dizendo que “isso requer mais estudos”.

A ironia disso tudo

Especialistas em células-tronco dizem que Hwang e sua equipe provavelmente não tinham idéia do que conseguiram, ou teriam exigido crédito pela descoberta.

“Acho que isso é tão animador quanto a SCNT que eles tinham anunciado”, especula o pesquisador de células-tronco Kent Vrana, da Pennsylvania State University, pioneiro da partenogênese com macacos. Justifica que “os parthenotes são embriões não-viáveis por natureza, então você não está destruindo embriões, o que traz vantagens éticas”.
Vrana diz que a equipe coreana utilizou um procedimento comum em tentativas de induzir a partenogênese, assim como a SCNT, no qual eles injetam óvulos com cálcio e um inibidor de síntese de proteínas para imitar o que acontece quando um espermatozóide fertiliza um óvulo.

Para realizar a SCNT, primeiramente é preciso extrair o DNA de cada óvulo e então injetar o núcleo da célula do doador. Daley explica que os cientistas coreanos devem ter deixado o DNA intacto inadvertidamente em um dos 242 óvulos que injetaram. “Eles afirmaram que verificaram a remoção do DNA”, diz Daley, “mas obviamente não o fizeram”.

A injeção do núcleo do doador deve ter falhado se a agulha o puxou de volta quando estava sendo retirada do óvulo ou se o óvulo rejeitou de alguma forma o núcleo introduzido, diz Vrana.

A equipe de Hwang eliminou a partenogênese como explicação, em parte ao mostrar dois genes ativados normalmente pelo DNA paterno quando estão inativos nas células. No entanto, Daley afirma que esses experimentos são fáceis de interpretar erroneamente e são menos conclusivos que seqüênciar SNPs.
“Acho que eles estavam tão ansiosos pelo objetivo que não perceberam isso”, considera Vrana.

Como resultado, no final de junho, mais de um ano após a Science ter retratado o estudo de 2004, os pesquisadores da ISC puderam reivindicar a descoberta de linhas celulares humanas partenogenéticas na publicação Cloning and Stem Cells. A equipe relatou ter feito cultura de linhas de células-tronco embrionárias partenogenéticas incubando óvulos em um meio morno e com pouco oxigênio.

Antes desse anúncio, o trabalho já estava “muito convincente”, diz Vrana, e surpreendentemente bem-sucedido: dos cerca de 50 óvulos doados, a empresa conseguiu produzir seis linhas celulares. A partenogênese em macacos geralmente funciona com um óvulo a cada 90, ele afirma.

Aplicação terapêutica

O potencial terapêutico das células partenogenéticas ainda está a ser descoberto. A falta de impressão do DNA paterno pode fazer com que as células se comportem de maneira anormal durante seu desenvolvimento. Além disso, elas devem ter proteínas imunes correspondentes para serem transplantadas de volta para o doador.
Em princípio, os bancos de tecidos de linhas celulares partenogenéticas poderiam incluir combinações de proteínas imunes suficientes para tratar metade da população dos Estados Unidos – tanto homens quanto mulheres – diz Lanza. No entanto, ele explica que se os parthenotes humanos geralmente tiverem tantas faltas de combinação quanto as células coreanas, o número de óvulos necessários para criar um banco como esse com certeza precisaria ser grande.

Daley afirma que essa equipe espera receber óvulos doados por mulheres com doenças hereditárias e usar a partenogênese para criar linhas celulares para estudar esses transtornos. No futuro, os pesquisadores terão que determinar se células similares são seguras e eficazes quando transplantadas.

“Ainda há um longo caminho até chegarmos ao uso terapêutico dessas células”, prevê.