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Sucesso de células modificadas no tratamento de leucemia

Células T modificadas destróem células cancerosas em pacientes com leucemia linfoblástica aguda

Flickr/Ed Uthman
Células sanguíneas de um paciente sofrendo de leucemia linfocítica crônica, vista em filme sanguíneo periférico. 

Por Heidi Ledford e revista Nature

Um breve teste clínico sugere que células imunológicas geneticamente modificadas podem fazer regredir um tipo agressivo de leucemia. 

Os resultados do teste – feito em cinco pacientes com a forma aguda de leucemia linfoblástica – foram publicados em Science Translational Medicine, e representam o último sucesso de uma terapia ‘de fronteira’, em que um tipo de célula imunológica chamada de célula T é extraída de um paciente, modificada geneticamente, e então reinserida.

Nesse caso, as células T foram modificadas para expressar um receptor para uma proteína de outras células do sistema imune, como células B, encontradas em tecidos saudáveis e cancerosos.

Quando reintroduzidas nos pacientes, as células T modificadas rapidamente avançaram sobre seus alvos. “Todos os nossos pacientes rapidamente eliminaram o tumor”, declara Michael Sadelain, pesquisador do Centro de Câncer Memorial Sloan-Kettering em Nova York, e um dos autores do estudo.

O tratamento “funcionou muito mais rápido do que pensávamos”.

A técnica já se mostrou promissora contra leucemia crônica, mas havia dúvidas a respeito de ela ser capaz de enfrentar a leucemia linfoblástica aguda, que cresce mais rápido, uma resistente doença que mata mais de 60% dos pacientes.

Carl June, imunologista da University of Pennsylvania, na Filadélfia, e pioneiro na engenharia de células T para enfrentar o câncer, declara estar surpreso que o método tenha funcionado tão bem contra um câncer que cresce tão rápido. O próximo passo, de acordo com ele, é tirar a técnica da “butique” dos centros acadêmicos do câncer que a desenvolveram e levá-la a testes clínicos multicentrados.

“O que precisamos fazer é convencer oncologistas e biólogos do câncer de que essa nova imunoterapia pode funcionar”, observa ele.

Esperança extra

O oncologista Renier Brentjens, também do Centro de Câncer Memorial Sloan-Kettering, se lembra do dia em  que precisou contar a um paciente de 58 anos que as altas dosagens da quimioterapia à qual esteve submetido durante semanas não teve qualquer efeito.

 “Aquela foi uma conversa dolorosa”, lembra Brentjens. “Agora ele me diz que aquela foi a pior notícia que ele já recebeu na vida”. Outro mês no hospital em quimioterapia intensiva não ajudou nada. Quando o paciente foi incluido no teste,  70% de sua medula óssea era tumor.

Brentjens, Sadelain e seus colegas então extraíram células T do paciente e as modificaram para expressar um ‘receptor antigênico quimérico’, ou CAR, que visaria células expressando uma proteína chamada de CD19. Como a CD19 é encontrada tanto em células B cancerosas quanto saudáveis, as células T modificadas eram incapazes de diferenciar entre as duas. Pacientes, porém, podem viver sem células B.

Duas semanas após o procedimento, o paciente mostrava sinais de melhora. O tratamento provocou a remissão de seu câncer – assim como fez para os outros quatro pacientes do teste – e ele se tornou elegível para um transplante de medula óssea. Cem dias depois, de acordo Brentjens, ele está bem. Quatro dos cinco pacientes estavam bons o suficiente para receber transplantes; um paciente teve recaída e permaneceu inelegível [para transplante].

Companhias farmacêuticas tendem a recear a técnica CAR porque ela é tecnicamente desafiadora, deve ser personalizada para cada paciente e enfrenta um caminho não testado para a aprovação regulatória, explica Steven Rosenberg, diretor da seção de imunologia de tumores do Instituto Nacional do Câncer em Bethesda, Maryland.

Mas isso parece estar mudando. Rosenberg aponta a colaboração instituída em agosto de 2012 entre o grupo de June e a gigante farmacêutica Novartis, bem como o lançamento de várias pequenas firmas de biotecnologia voltadas para CAR. E Sadelein declara ser um pesquisador do Instituto do Câncer Dana-Farber em Boston, Massachusetts, participando de um teste para verificar se a técnica pode ser exportada para outros centros de tratamento, além de outros resultados.

Brentjens, enquanto isso, está feliz de ver seus pacientes recobrarem o espírito de luta. “Você vê essas pessoas emocional e fisicamente esgotadas”, observa ele. “E então você percebe que elas estão melhorando porque elas ficam caçoando de sua gravata de novo”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 20 de março de 2013.