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Cérebro e sistema imune têm linha de comunicação direta

Nova descoberta leva a uma reavaliação de doenças neurológicas

SHUTTERSTOCK
Bret Stetka

Quando os antigos egípcios preparavam uma múmia, eles extraíam o cérebro através das narinas e o descartavam.

Enquanto outros órgãos eram preservados e enterrados com o morto, o cérebro era considerado separadamente do resto do corpo e desnecessário para a vida, ou a vida após a morte.

É claro que, em algum momento, curandeiros e cientistas perceberam que aquela massa cheia de neurônios emaranhados, pesando aproximadamente 1,3 kg e embutida em nosso crânio, na realidade desempenhava algumas funções bastante críticas.

Ainda assim, até agora, o cérebro frequentemente é visto como algo um tanto distinto e separado do resto do corpo — como um mágico de Oz neurobiológico que habita nossos corpos e mentes por trás dos bastidores com uma biologia singular e patologias únicas.

Talvez a separação corpo-cérebro citada com mais frequência diga respeito ao sistema imune.

Quando exposto a bactérias, vírus, tumores e transplantes de tecidos estranhos, o corpo humano precipita uma torrente de atividades “de combate” (imune): glóbulos brancos do sangue devoram patógenos invasores e “explodem” células comprometidas; e anticorpos marcam tudo o que é diferente (estranho) para ser destruído.

O cérebro não.

Considerado vulnerável demais para abrigar um violento ataque de furiosas células defensivas, acreditava-se que esse órgão estava protegido contra o efeito imune em cascata.

No entanto, uma pesquisa publicada on-line em 1º de junho na Nature relatou uma linha até então desconhecida de comunicação entre nossos cérebros e sistemas imunes, o que veio se somar a um volume rapidamente crescente de estudos que sugerem que cérebro e corpo estão muito mais intimamente conectados do que se acreditava.

O novo trabalho poderia ter implicações importantes para compreender e tratar disfunções cerebrais.

Cientistas sabem desde 1921 que, em termos de defesa, o cérebro é diferente.

Tecidos estranhos transplantados para a maior parte do corpo frequentemente resultam em ataques imunes; mas enxertos no sistema nervoso central acionam uma reação muito menos hostil.

Graças, em parte, à barreira hematoencefálica (sangue-cérebro), células superagregadas (coesas) que revestem os vasos cerebrais e permitem a passagem de nutrientes, mas, em geral impedem a entrada de invasores indesejados, como bactérias e vírus, o cérebro foi considerado durante muito tempo “imuno-privilegiado”; ou seja, capaz de tolerar a introdução de patógenos e tecidos estranhos.

O sistema nervoso central (SNC) era visto como algo que existia separadamente do sistema imune periférico, livre para exercer suas próprias defesas, bem menos agressivas.

Esse “privilégio” também era atribuído à sua falta de drenagem linfática.

O sistema linfático é o terceiro e talvez menos “respeitado” conjunto de vasos do nosso corpo (os outros são as artérias e veias). 

Os vasos linfáticos conduzem fluido intracelular de volta à corrente sanguínea, enquanto os linfonodos, estacionados periodicamente ao longo da rede de vasos, servem como depósitos de células imunes.

Na maior parte do nosso corpo, os antígenos, moléculas em patógenos ou tecidos estranhos que alertam nosso sistema imune para potenciais ameaças, são apresentados aos glóbulos brancos do sangue em nossos linfonodos (nódulos, ou gânglios linfáticos), precipitando uma resposta imune. 

Mas presumia-se que isso não ocorria no cérebro em vista da suposta falta de uma rede linfática, razão pela qual as novas descobertas representam uma mudança dogmática na compreensão de como esse órgão interage com o sistema imune.

Trabalhando principalmente com camundongos, o autor principal do estudo e professor de neurociência na Universidade da Virgínia, Jonathan Kipnis e seu grupo identificaram uma rede desconhecida (anteriormente não detectada) de vasos linfáticos nas meninges, as membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, que transporta fluido e células imunes do líquido cefalorraquidiano (fluido cerebrospinal) para um grupo de gânglios linfáticos no pescoço, chamados linfonodos cervicais profundos.

Kipnis e seus colegas haviam mostrado anteriormente que um tipo de glóbulos brancos chamados células-T nas meninges estão associados a influências significativas na cognição e, portanto, estavam curiosos sobre o papel da imunidade meníngea na função cerebral.

Ao reconstituir meninges inteiras de camundongos e utilizar técnicas de neuroimageamento a equipe notou que havia células-T presentes em vasos à parte de artérias e veias, o que confirmou que o cérebro de fato tem um sistema linfático que o liga diretamente ao sistema imune periférico.

“Descobrimos esses vasos por puro acaso”, observou Kipnis.

Os vasos recém-descobertos, que também foram identificados em amostras humanas, poderiam explicar diversos enigmas fisiopatológicos; mais exatamente, como o sistema imune contribui para doenças neurológicas e psiquiátricas.

“É prematuro especular”, reconhece Kipnis, “mas acredito que alterações neles talvez afetem a progressão da doença naqueles distúrbios neurológicos que têm um componente imune proeminente, como esclerose múltipla (EM), autismo e Alzheimer”.

Acredita-se, por exemplo, que a EM, pelo menos em alguns casos, resulta de uma atividade autoimune em resposta a uma infecção no sistema nervoso central e no líquido cefalorraquidiano. 

Talvez antígenos do vilão infeccioso consigam chegar aos linfonodos cervicais através dos vasos linfáticos das meninges, precipitando a reação imune que provoca os sintomas de esclerose múltipla.

Já no caso de Alzheimer, acredita-se que a doença seja causada pelo acúmulo e transmissão de uma proteína chamada beta-amiloide no cérebro.

Pode ser que ela não esteja sendo adequadamente eliminada através desses vasos linfáticos e que melhorar de alguma forma a falta de abertura (ou obstrução) desses vasos ajude a livrar o cérebro dessa proteína patológica.

Outro trabalho recente de Kipnis e seus colegas constatou que uma lesão no SNC resulta em uma acentuada ativação de células-T nos linfonodos cervicais profundos.

O neurocientista suspeita que algum composto talvez seja liberado do sistema nervoso central lesionado e transmitido para esses linfonodos através de vasos linfáticos onde, então, ele ativa o sistema imune. 

Algo semelhante pode estar ocorrendo em outras condições neurológicas; ou seja, que uma drenagem excessiva ou demasiadamente reduzida do SNC para o sistema imune talvez contribua para doenças cerebrais.

Se isso for comprovado, Kipnis acha que tratar os vasos com medicamentos, manipulação gênica ou cirurgia são abordagens terapêuticas que vale à pena estudar.

Josep Dalmau, professor de neurologia da Universidade da Pensilvânia, que não esteve envolvido no estudo, concorda que as novas descobertas poderiam ajudar a explicar o início, a persistência e talvez o agravamento de distúrbios autoimunes que afetam o cérebro.

Ele também sugere que, em vista das novas descobertas, os compêndios clássicos talvez tenham de ser parcialmente revisados:

“Tornou-se cada vez mais claro que o [sistema nervoso central] é imuno-diferente em vez de imuno-privilegiado”, salienta. 

Está claro há décadas que existe algum tipo de relação entre o cérebro e o sistema imune.

Atividades imunes anormais foram relatadas em casos de esquizofrenia já na década de 30, e sabe-se, ou acredita-se, que numerosas doenças mentais e neurológicas têm um componente imune.

No entanto, o fato de o grupo de Kipnis ter identificado uma estrutura anatômica tangível, que facilita essa relação, sugere que o cérebro e o corpo estão intimamente interligados, e que o cérebro não é a cidadela que se acreditava ser no passado. 

Sobre o autor: Bret Stetka é diretor editorial na Medscape (uma subsidiária da WebMD) e frilancer que escreve sobre saúde, ciência e alimentos. Ele obteve seu título de Doutor em Medicina (MD) em 2005 pela Universidade da Virginia e já escreveu para as publicações WIRED, Slate e Popular Mechanics sobre cérebros, genômica e ocasionalmente os dois. Siga-o no Twitter em @BretStetka

Publicado em Scientific American em 21 de julho de 2015.