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Cérebros dos pianistas de jazz e de música clássica funcionam de forma diferente

Distinções aparecem até quando interpretam a mesma música

Wikimedia Commons
O famoso pianista de jazz Keith Jarret acredita que tocar jazz e música clássica em um mesmo show não faz sentido, porque nosso cérebro precisa de diferentes circuitos para cada uma dessas coisas
O cérebro de um músico é diferente do de um leigo em música. Tocar um instrumento requer uma complexa interação de várias habilidades, que se reflete num maior desenvolvimento de certas estruturas cerebrais. Cientistas do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Cerebrais Humanas em Leipzig, na Alemanha, descobriram que essas capacidades se expressam no cérebro de forma muito mais refinada do que se acreditava antes, e se diferenciam dependendo do estilo da música: a atividade cerebral de pianistas de jazz difere da dos pianistas que tocam música clássica, mesmo quando executam a mesma canção. A pesquisa pode ajudar a compreender os processos cerebrais que ocorrem acontecem enquanto se faz música, e quais são específicos de cada estilo musical.

Em uma entrevista, perguntaram ao famoso pianista de jazz Keith Jarret se ele gostaria de se apresentar em um mesmo concerto tocando jazz e música clássica: "Não, isso é hilário [...] é impossível escolher isso [...] por causa dos circuitos. Seu sistema precisa de diferentes circuitos para cada uma dessas coisas." Os leigos tendem a achar que alternar diferentes estilos de música não é algo tão desafiador quando se é um artista profissional. Mas eles estão enganados. É algo mais difícil do que se imagina, até mesmo para pessoas com décadas de experiência.

Os cientistas do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Cerebrais Humanas demonstraram que pode haver uma explicação neurocientífica para esse fenômeno: eles observaram que enquanto se toca piano, processos diferentes ocorrem nos cérebros dos pianistas de jazz, em comparação com os de música clássica, mesmo quando estão tocando a mesma música.

"A razão pode estar relacionada às diferentes exigências que esses dois estilos impõem sobre esses músicos, seja para interpretar habilmente uma peça clássica ou para improvisar criativamente no jazz. Desse modo, diferentes processos podem se estabelecer em seus cérebros enquanto tocam piano, o que torna a mudança entre estilos mais difícil," diz Daniela Sammler, neurocientista do instituto e líder do estudo.

Uma distinção crucial entre os dois grupos de músicos é o modo como planejam os movimentos ao tocar piano. Independentemente do estilo, pianistas primeiramente tem que saber o que vão tocar (o que significa as teclas que vão acionar) e como tocar (quais dedos serão utilizados). Essa ponderação de ambos os passos do planejamento é influenciada pelo gênero da música.

Pianistas clássicos se focam no segundo passo, o "como". Para eles, o importante é tocar com a técnica perfeita e adicionar um toque pessoal. Portanto, a escolha de como utilizar os dedos é crucial. Pianistas de jazz, por outro lado, concentram-se no "o que". Eles estão sempre preparados para improvisar e se adaptar enquanto tocam para criar harmonias inesperadas.

"De fato, nos pianistas de jazz nós encontramos evidências neurais dessa flexibilidade de planejar harmonias ao tocar o piano." diz Roberta Bianco, primeira autora do estudo. "Quando pedimos a eles que tocassem acordes harmonicamente inesperados dentro de uma progressão tradicional de acordes, o cérebro deles conseguiu reavaliar as ações mais rapidamente do que o dos pianistas clássicos. Portanto, eles têm a habilidade de uma reação mais rápida para continuar sua performance." Curiosamente, os pianistas clássicos tiveram um desempenho melhor quando se tratava de adotar uma digitação incomum. Seus cérebros mostraram maior consciência do movimento dos dedos e consequentemente eles erraram menos vezes enquanto seguiam a sequência de acordes.

Os cientistas investigaram essas relações em 30 pianistas profissionais; metade deles se especializou em jazz nos últimos dois anos, a outra metade foi treinada na música clássica. Todos os pianistas puderam ver uma mão na tela que tocava no piano uma sequência de acordes entremeada com diversos erros harmônicos e de digitação dos dedos. Os pianistas tinham que imitar essa mão e reagir de acordo com as irregularidades enquanto seus sinais cerebrais eram registrados com sensores de Eletroencefalografia (EEG) na cabeça. Para assegurar que não houvesse perturbações acústicas, todo o experimento foi realizado em silêncio usando um piano sem som.

“A partir desse estudo, nós descobrimos quão precisamente o cérebro se adapta às demandas do ambiente ao seu redor,"diz Sammler. A descoberta também deixa claro que não é suficiente focar em músicos de apenas um estilo se queremos compreender perfeitamente o que acontece com o cérebro quando se toca um instrumento (que é como se fazia até então, quando se investigava a música clássica ocidental).

"Para obter uma visão mais ampla sobre o assunto, é preciso procurar o menor denominador comum entre vários gêneros," explica Sammer. "É um processo similar ao das pesquisas sobre linguagem: para reconhecer o mecanismo universal de processamento da linguagem não dá para limitar nossa pesquisa apenas ao Alemão."  

Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Cerebrais Humanas
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