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Cidades, não países, solucionarão mudanças climáticas

Alguns prefeitos de fato já começaram a fazer algo para mitigar mudanças climáticas

Shtterstock
Por David Biello

Na década de 80, acidade chinesa de Shenzhen tinha cerca de 300 mil habitantes, na maioria pessoas de baixa renda. Hoje essa mesma cidade, a primeira a experimentar as reformas e a abertura econômica da China, tem uma população de mais de 15 milhões e um sistema inédito na história nacional: um mercado de carbono.

Esse mecanismo para reduzir a poluição que contribui para o aquecimento global abrange cerca de 620 produtores e outras indústrias que, coletivamente, cresceram 9% em 2013. A compra e venda de licenças para emitir o poluente dióxido de carbono (CO2) resultou em uma queda de 500 mil toneladas no setor manufatureiro e a substituição do carvão por uma energia mais limpa reduziu as emissões de CO2 em mais 2 milhões de toneladas em toda a cidade.

“Se você sabe que Shenzhen é capaz de fazer isso, então pode acreditar que o governo chinês também é”, argumenta Tang Jie, vice-prefeito de uma das maiores megacidades da China. De acordo com ele, o objetivo geral é atingir o quanto antes a meta de poluição total estabelecida. “Em 2020, nossa cidade ultrapassará o pico de emissão. Se Shenzhen pode atingir esse limite, acredito que talvez toda a China possa atingir o pico daqui a uns 10 ou 15 anos”.

O desempenho de Shenzhen — e de Pequim, Chongqing e Xangai, todas cidades com novos experimentos de mercados de carbono — é um reflexo da China. E a China é um reflexo do mundo quando se trata de lançar dióxido de carbono (CO2) na atmosfera: o país é o maior emissor do mundo de poluentes de aquecimento global. Graças a um crescente hábito de queimar carvão, os 1,2 bilhão de chineses agora emitem tanto CO2 per capita quanto os aproximadamente 500 milhões de cidadãos da União Europeia.

Enquanto líderes mundiais se reuniam na sede da ONU em 23 de setembro para reiterar ou revelar novas promessas de ação para combater a mudança climática, é nas cidades que essas ações estão de fato acontecendo.

Elas incluem medidas já implantadas, como veículos movidos a combustíveis alternativos em Jinan, na China; um programa para compartilhar carros elétricos em Paris; ou os “ligeirinhos”, os ônibus de linha direta e trânsito rápido em Curitiba, no Brasil. E poderiam incluir também um programa massivo para modernizar ou aprimorar edifícios antigos na cidade de Nova York.

Na cúpula climática da ONU, 228 cidades, representando 436 milhões de pessoas, assumiram o compromisso de evitar a produção de mais de 2 gigatoneladas (2 bilhões de toneladas) de gases de efeito estufa por ano sob os auspícios de um novo “Pacto Global de Prefeitos” anunciado durante o evento. Além disso, 25 cidades prometeram reduzir a poluição de gás metano que vaza de grandes lixões.

Na mesma reunião, os Estados Unidos e a China reiteraram promessas feitas anteriormente. De acordo com o presidente Barack Obama, os Estados Unidos reduzirão sua poluição de CO2 para 17% abaixo dos níveis de 2005 até 2020; e o vice-premiê chinês Zhang Gaoli reafirmou que seu país diminuirá sua intensidade de carbono em até 45% em relação aos níveis de 2005 também até 2020.

“Nações não estão honrando suas promessas”, criticou Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro e presidente do Grupo C40 de cidades comprometidas com o combate às mudanças climáticas. “Como pode haver qualquer argumento contra a priorização de cidades?”, arrematou.

Ao redor de todo o globo centros urbanos estão se expandindo rapidamente — mais da metade dos 7,2 bilhões de humanos do planeta agora vivem em alguma cidade e esse número deverá saltar para mais de 6 bilhões até2050, amaioria na África e na Ásia.

Cidades atualmente respondem por 75% das atividades econômicas globais, totalizando mais de US$ 50 trilhões. E os habitantes urbanos são responsáveis por pelo menos 50% de toda a poluição de gases de efeito estufa, resultante da demanda de aquecimento, arrefecimento, alimentos, iluminação, entretenimento e transporte.

Consequentemente, a ação (ou inação) urbana em relação às mudanças climáticas pode ser determinante no resultado final do aquecimento global. “O futuro está nas cidades”, garante Jeffrey Sachs, economista e diretor do Instituto Terra da University of Columbia.

Decisões sobre como o mundo se urbaniza também moldarão o futuro climático. A esparramada cidade americana de Atlanta emite 10 vezes mais gases de efeito estufa que a compacta Barcelona, na Espanha, simplesmente devido às necessidades de transporte, salienta o World Resources Institute. Se cidades emergentes seguirem o modelo de Atlanta o mundo será muito mais quente.

Paralelamente, à medida que as cidades lutam para combater alterações climáticas, elas também terão que resolver problemas como pobreza e desigualdade urbana. “Se não agirmos nos próximos 15 anos, criaremos outra geração perdida”, adverte Aromar Revi, diretor do Instituto Indiano para Assentamentos Humanos.

O chamado Grupo C40 de Grandes Cidades para Liderança do Clima — atualmente formado por 69 cidades que se uniram para combater mudanças climáticas — divulgou uma pesquisa mostrando que ações urbanas para reduzir a poluição gerada por prédios, veículos e lixo poderiam reduzir gases de efeito estufa em quase quatro gigatoneladas nas próximas duas décadas, e oito gigatoneladas até 2050, à parte de quaisquer políticas nacionais.

Mais importante: prefeitos têm maior controle direto sobre essas políticas em suas cidades. “Temos eleitorados fortes dos quais não podemos, nem queremos, nos esconder”, salienta Bill de Blasio, prefeito de Nova York. “Somos responsabilizados de um jeito que líderes nacionais não são”.

Ao mesmo tempo, cidades estão competindo para serem o mais habitáveis possível. Enquanto Pequim pode ter um mercado de carbono e mandatos para remover a queima de carvão dos limites da cidade, Melbourne, na Austrália, planeja ter zero emissões líquidas até o final da década. Até 2025, Copenhague, na Dinamarca, espera ser a primeira capital do mundo a se tornar neutra em termos de carbono — uma meta já alcançada pela ilha próxima de Samsø.

De acordo com a prefeita de Paris, Ann Hidalgo, cidades estão passando por uma “transition écologique”. Ao comentar o programa de compartilhamento de carros elétricos de sua cidade, ela foi categórica: “Se cidades afirmam ‘não queremos carros movidos a combustíveis fósseis’, então a indústria proverá”. Uma nova Iniciativa de Mobilidade Elétrica Urbana, anunciada no encontro da ONU, visa aumentar as vendas de veículos elétricos para circulação em cidades para, no mínimo, 30% de todas as vendas de veículos novos até 2030.

Governos municipais não só dispõem dos meios para desacelerar as mudanças climáticas, mas também da motivação: são eles que arcam com o peso das ameaças do aquecimento global, como a elevação do nível do mar. As cidades estão “nas linhas de frente dessa guerra”, resume Eduardo Paes. “As vítimas são seus habitantes”.

Em 2012, o furacão Sandy deixou antever o que o futuro das mudanças climáticas reserva para Nova York. O centro da cidade foi inundado e mergulhado na escuridão; até o edifício das Nações Unidas inundou pela primeira vez nos seus 70 anos de história na cidade. “A mudança climática é a questão definidora de nossa época”, adverte Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU. “Ela não é uma ameaça distante”.

Desde 2005, Nova York já reduziu suas emissões de gases de efeito estufa em 19% graças aos esforços iniciados pelo ex-prefeito Michael Bloomberg, atualmente enviado especial da ONU para cidades, e continuados na gestão de Bill de Blasio.

Enquanto líderes nacionais ainda falam em termos gerais sobre a assinatura de um acordo climático global em Paris, em 2015, com metas a serem negociadas, prefeitos de cidades em quase todos os países continuam implementando programas práticos que reduzem a poluição por gases de efeito estufa.

Nova York, por exemplo, está preparada para ir mais longe que os Estados Unidos. A cidade se comprometeu a cortar seus gases de efeito estufa em 80% até 2050, e divulgou um plano para alcançar sua meta.

O pivô da proposta é reformar e modernizar edifícios antigos para reduzir seus consumos de energia, porque construções velhas e novas juntas respondem por 75% das emissões da cidade. “A falha em atingir essa meta nos condena a todos”, adverte de Blasio. “Se não dermos um jeito nisso agora, em algum momento será tarde demais”.

Sciam 23 de setembro de 2014