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Crise na Ucrânia interrompe colaborações com a Rússia

OTAN e Nasa suspenderam grande parte de suas conexões científicas com o país

 

Nasa
A Estação Espacial Internacional está livre das restrições da Nasa para negociações formais com a Rússia.
Por Quirin Schiermeier e revista Nature

As relações científicas entre a Rússia e o Ocidente atingiram seu ponto mais baixo desde a guerra fria, após a Rússia anexar a península da Crimeia. Tanto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) quanto a Nasa cortaram ligações com a Rússia na semana passada.

Em 1º de abril, a Otan suspendeu todas as cooperações civis e militares com a Rússia. Isso afeta colaborações científicas sob o programa Ciência para Paz e Segurança da organização, que apoia o contraterrorismo e trabalhos de socorro após desastres, incluindo atividades com tecnologias para detectar bombas escondidas em locais movimentados de transporte público. A OTAN está procurando outros parceiros para dar continuidade a esses projetos.

Além disso, em 2 de abril, o governo dos Estados Unidos suspendeu todos os contatos entre a Nasa e as agências espaciais e representantes do governo russo – incluindo visitas, reuniões e até emails. Somente atividades envolvendo a Estação Espacial Internacional tiveram permissão para continuar. A estação espacial tem tripulantes russos e americanos, e depende dos veículos Soyuz para transporte desde que os Estados Unidos aposentaram o ônibus espacial em 2011.

Não está claro como essas medidas afetarão outras colaborações de ciências espaciais. Igor Mitrofanov, do Instituto de Pesquisas Espaciais de Moscou, que conduziu trabalhos com um dispositivo de detecção de nêutrons para a sonda marciana Curiosity, da Nasa, prefere não comentar sobre o assunto até que tenha sido notificado da situação pela agência espacial.

Os Estados Unidos e a União Europeia (UE) também impuseram sanções contra vários oficiais de destaque do governo russo. A lista dos Estados Unidos inclui o ex-ministro de ciências Andrei Fursenko, que age como conselheiro científico pessoal do presidente Vladimir Putin.

Os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia tomaram iniciativas diplomáticas para aliviar a situação na Crimeia após uma reunião de emergência em Paris, em 30 de março, entre o secretário de estado americano John Kerry e o ministro das relações exteriores russo, Sergey Lavrov.

Se esses esforços fracassarem, o isolamento cada vez maior da Rússia poderia se tornar um sério problema de longo prazo para a ciência russa e internacional, observa Harley Balzer, especializado em relações internacionais e política Russa, da Georgetown University em Washington, capital.

“Se a Rússia avançar mais um centímetro na Ucrânia, reduções em todos os tipos de programas de intercâmbio acadêmico e colaborações científicas serão inevitáveis”, declara Balzer. Os projetos afetados poderiam incluir o Programa Fullbright dos Estados Unidos, que financia intercâmbios acadêmicos com vários países, inclusive a Rússia.

Sanções futuras, adiciona Balzer, frustrariam os esforços da Rússia para fortalecer seus sistemas de pesquisa e educação, e para atrair talentos estrangeiros. Em sua campanha de eleição de 2012, Putin prometeu criar várias universidade ‘de nível mundial’ até 2020, além de aumentar substancialmente o investimento em ciência – atualmente esse número corresponde a apenas 1,3% do produto interno bruto da Rússia. “Putin está acabando com as chances de retomar o terreno perdido”, observa Balzer.

O símbolo das aspirações científicas da Rússia é o Instituto Skolkovo de Ciêntica e Tecnologia (Skoltech), uma universidade de pesquisa em língua inglesa que está sendo criada nos arredores de Moscou em parceira com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Cambridge.

O MIT está oferecendo suporte administrativo e desenvolvendo currículos e programas de pesquisa para o Skoltech. O Instituto também está administrando os pedidos internacionais de propostas para os 15 centros de excelência em pesquisa planejados para Skolkovo; seis centros já existem, e quatro serão criados neste ano. Os termos do contrato do MIT com o Skoltech são confidenciais, mas fontes declaram que a Rússia está pagando pelo menos US$300 milhões ao instituto norte-americano. Balzer prevê que o MIT ficará sob “uma pressão enorme” para encerrar essa colaboração caso a crise da Crimeia piore.

 

Edward Crawley, engenheiro do MIT e presidente da Skoltech, declara que o MIT e oficiais russos desejam continuar a parceria, e que planos para os quatro novos centros estão avançando. “Explicara ideia do Skoltech tem uma importância ainda maior nessa época de relações fragilizadas”, observa Crawley. “Quando os mares estão bravios entre dois países, é papel de cientistas e educadores estabilizar o navio”.

Atrair cientistas estrangeiros é crucial para o renascimento científico da Rússia, aponta Irina Dezhina, analista de ciências políticas do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais de Moscou, que dirige um grupo de pesquisa em Skoltech. Uma série de eventos colaborativos foi planejada para 2014 na União Europeia – o Ano Científico da Rússia. De acordo com ela, o que vai acontecer a seguir depende do Ocidente.

As pessoas podem pensar duas vezes antes de ir para um país que viola leis internacionais, alerta Oleg Kharkhordin, reitor da Universidade Europeia da Rússia em São Petersburgo. “Mas,” adiciona ele, “o interesse de ambas as partes deveria ser aumentar o intercâmbio científico livre”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 8 de abril de 2014.

sciam11abr2014