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Cientista que editou genomas de bebês recebe saraivada de críticas

Especialistas dizem que os riscos de procedimento controverso superam benefícios para recém-nascidas gêmeas

Wikipedia

Quanto mais informações surgem sobre o pesquisador chinês que editou os genes de dois embriões - agora se sabe que são meninas recém-nascidas gêmeas -, mais outros especialistas estão preocupados com o processo que o cientista utilizou, o gene visado e os resultados alcançados.

Em uma palestra de 30 minutos na quarta-feira (28) em uma cúpula de edição de genes em Hong Kong, He Jiankui da Universidade de Ciência e Tecnologia da China, em Shenzhen, apresentou os passos utilizados para realizar a primeira edição da linha germinativa humana - células transmitidas pela reprodução. Pelos padrões da comunidade científica global, He usou uma tecnologia de edição de genes que não é totalmente compreendida, implantou embriões com clara evidência de atividade genética incomum, não conseguiu o devido consentimento das famílias envolvidas e - talvez o pior de tudo - conduziu um procedimento arriscado e sem benefício certo.

“O uso clínico da edição do genoma na linhagem germinativa de seres humanos foi prematuro pois não compreendemos totalmente a tecnologia e o impacto desse tipo de aplicação, e isso tem um efeito potencialmente muito duradouro na vida de uma pessoa e seus futuros filhos”, disse Jennifer Doudna, que ajudou a desenvolver a técnica de edição do gene CRISPR-Cas9 que He usou. Doudna, professora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, diz que espera que a CRISPR um dia seja usada para editar doenças terríveis do genoma humano. Mas ela observa: “um dos perigos desse tipo de estudo - que sinto ser prematuro - é que ele desorienta o caminho e usa de forma irresponsável a tecnologia nessa área em um momento em que devemos celebrá-la e trabalhar juntos cuidadosamente para garantir que ela seja usada com segurança.”

O pesquisador disse a um público de várias centenas de cientistas e jornalistas - com mais de 8000 pessoas assistindo ao vivo e online - que ele editou 30 embriões usando a tecnologia CRISPR/Cas9 para deletar ambas as cópias do gene CCR5. O CCR5 está naturalmente ausente em cerca de 1% dos europeus, deixando-os essencialmente imunes ao HIV. He disse ter implantado dois desses embriões na mãe e os gêmeos nasceram no outono. He alega que todos os testes das garotas mostraram que eles estavam completamente saudáveis e normais.

O cientista, que foi treinado como bioengenheiro (completando seu doutorado na Universidade de Rice em Houston com uma bolsa de pós-doutorado em um proeminente laboratório na Universidade de Stanford) pareceu surpreso com a tempestade que seu trabalho criou. Vários cientistas, incluindo Doudna, o descreveram como “ingênuo”. Ele não respondeu a um pedido de comentário sobre seu trabalho.

Parecendo pálido e soando ansioso, He disse ao público que estava orgulhoso de seu trabalho de edição genética. Sendo ele um especialista no desenvolvimento de vacinas, He disse que seu objetivo é livrar o mundo do HIV, o vírus que causa a AIDS. Há um tremendo sofrimento, particularmente no mundo em desenvolvimento, tanto da doença quanto do estigma que o cerca, observou várias vezes.

Outros cientistas dizem que dados sugerem preocupação e questionam a escolha do gene CCR5.

A comunidade científica global decidiu em 2015, quando a edição CRISPR de genes humanos tornou-se viável, que a edição de genes deveria começar por abordar doenças hereditárias, como anemia falciforme e fibrose cística. Ambas causam tremendo sofrimento, são difíceis de tratar com eficácia e, em casos raros, são passíveis de serem passadas para qualquer criança biológica, diz George Daley, reitor da Escola Médica de Harvard um cientista que estuda células-tronco. O CCR5 não era um gene de alta prioridade para editar, ele diz, porque existem outras maneiras de efetivamente prevenir e tratar o HIV.

O pai das meninas tem HIV, mas sua doença está bem controlada com a medicação, então elas não têm mais chance de contrair a doença do que qualquer outra criança, diz Kiran Musunuru, professor associado e especialista em biologia regenerativa da Universidade da Pensilvânia. “Eu acho que é uma escolha intrigante e ruim”, diz Musunuru sobre a seleção do gene CCR5. Além disso, não ter o CCR5 também torna as pessoas mais vulneráveis a reações graves ou até a morte por outros vírus, incluindo potencialmente a gripe, que é muito mais comum do que o HIV, diz Musunuru. “Quando você compara o benefício mínimo em termos de proteção contra o HIV, em comparação com o aumento da chance de morrer devido a uma infecção bastante comum, como a gripe, eu não acho que isso faça sentido de forma geral.”

O pesquisador pretendia deletar ambas as cópias do gene CCR5, mas uma das gêmeas ainda tem uma única cópia do gene, então ela não terá nenhuma proteção extra contra o HIV.

Ainda mais preocupante, diz Musunuru, é que os testes realizados com as recém-nascidas quando eram embriões, sugerem que ambas as meninas podem ter mosaicismo, o que significa que as edições funcionaram em apenas algumas de suas células. Nessa situação sem precedentes, não está claro se a garota com a deleção dupla terá qualquer proteção contra o HIV, ou se qualquer uma das meninas terá algum benefício ou prejuízo devido à edição genética, diz Musunuru.

Os cientistas não sabem se houve edições não intencionais de outros genes, diz Musunuru. Tais efeitos “não intencionais” são um resultado comum dessa forma de edição genética e são uma das razões pelas quais muitos cientistas acreditam que ainda é cedo demais para testar a tecnologia em bebês.

A edição do CCR5 também pode ter um efeito no cérebro. Pesquisas em camundongos sugerem que a eliminação do CCR5 estimula a memória visual e espacial, de acordo com um estudo de 2016 conduzido por Alcino Silva, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA). Silva disse via e-mail que a exclusão de ambas as cópias do gene mostrou maior benefício, mas até mesmo “eliminar uma cópia sozinha é suficiente para ver melhorias em certas formas de memória.” Outros pesquisadores da UCLA, incluindo o titular de neurologia Thomas Carmichael, estão atualmente conduzindo um ensaio clínico utilizando o medicamento para o HIV Maraviroc para privar as vítimas de derrame cerebral do CCR5, esperando que isso aumente sua recuperação. Se a droga for bem sucedida, sugeriria que o cérebro humano também pode se beneficiar da eliminação do gene CCR5.

O pesquisador admitiu durante sua palestra que conhecia os dados do gene CCR5 no camundongo, mas descartou. “Ele evitou essa pergunta”, disse Robin Lovell-Badge, cientista britânico de células-tronco que moderou a discussão com He e perguntou a ele no palco sobre seu trabalho, incluindo os possíveis efeitos cerebrais da edição do CCR5. Lovell-Badge diz que não acha que He estava buscando melhorias genéticas ao editar os genes das meninas.

Daley, por sua vez, diz que ficou surpreso ao ouvir que He sabia sobre a pesquisa cerebral. “Eu não tenho como saber seus motivos, só achei curioso que ele soubesse sobre o artigo."

Em seu site e em um vídeo postado no YouTube, He argumenta que a edição de genes é totalmente ética para um propósito de cura. Ele diz que é totalmente inadequado usar a edição de genes para selecionar a cor dos cabelos ou dos olhos, ou para aumentar o QI; tal uso, diz ele no vídeo, “não é o que um pai amoroso faz. Isso deveria ser banido.”

Não está claro o que acontecerá com He, que está sendo investigado pelas autoridades chinesas e por sua universidade de origem. Ele está de licença da universidade desde fevereiro, e a escola disse em um comunicado que não tinha conhecimento do seu trabalho em humanos e que o condena. He diz que há atualmente outra gravidez em estágio inicial que resultou de seus embriões editados geneticamente.

Os organizadores da cúpula de Hong Kong, incluindo Doudna, Lovell-Badge e Daley, estão se reunindo hoje (29) para decidir se vão dar uma resposta formal ao trabalho de edição de genes de He.

Karen Weintraub

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