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Cientistas desligam gene causador de câncer

Estudo realizado em camundongos indica possibilidade de tratar câncer inicial de mama sem cirurgia

Mark LaBarge, Berkeley Lab, Alexander Barowsky, UC Davis
Secções histológicas de mamas normais mostram lóbulos de uma mulher de 37 anos (à esquerda) e outra de 76 anos, que foram coradas com um reagente para mostrar como a expressão de uma proteína de queratina (marrom) muda com a idade. Em mulheres jovens essa proteína só existe nas células que rodeiam as células produtoras de leite. Em mulheres mais velhas até as células secretoras de leite produzem a proteína; um fator que pode aumentar o potencial para o desenvolvimento de malignidades em mulheres mais idosas.

 
 

Por Jeanene Swanson

Um recente estudo em camundongos talvez possa ajudar médicos a desenvolver novos tratamentos para o câncer de mama no futuro. Os resultados, divulgados na publicação científica Science Translational Medicine, no início de janeiro de 2014, sugerem a possibilidade de impedir que alguns crescimentos anormais se transformem em tumores potencialmente fatais.

Aproximadamente 25% dos novos casos de câncer de mama diagnosticados nos Estados Unidos são carcinomas ductais in situ (DCIS, na sigla em inglês), que há muito tempo são considerados como o estágio mais precoce desse tipo de câncer. Como não há meios de prever se um DCIS algum dia será um problema por se alastrar (metastizar), os tratamentos padrões ainda são uma nodulectomia (em que o tumor e algum tecido circundante são removidos cirurgicamente) ou, às vezes, uma mastectomia (a retirada da mama). Uma nodulectomia muitas vezes é seguida por radioterapia (o que é recomendado), e tanto pacientes submetidos à nodulectomia como à mastectomia podem medicadas com tamoxifeno, um tratamento hormonal oral que pode reduzir o risco de recorrência. Nos dois casos, os efeitos colaterais da terapia incluem fadiga e dores na mama.

Muitas pessoas julgam que deve haver um meio melhor de lidar com o DCIS. “Muitas mulheres acabam sendo submetidas à mastectomia”, informa a doutora Susan Love da Susan Love Research Foundation, o que, em sua opinião, é excessivo considerando que talvez até 50% dos DCIS provavelmente não se dispersarão. Recentemente, a fundação tem trabalhando no desenvolvimento de tratamentos quimioterápicos minimamente invasivos.

Uma das terapias alternativas estudada por pesquisadores da Harvard University é chamada RNAi. Ao injetarem uma partícula de RNA (ácido ribonucléico), que interfere com ou “desliga” um gene específico causador de câncer (de onde o nome, em inglês, RNAi, para RNA interference), ou RNAi, pesquisadores esperam evitar que lesões de DCIS se transformem em tumores invasivos.

O grupo de Harvard começou a testar o conceito em camundongos com lesões DCIS em estágio inicial. Eles usaram dados de amostras de tumores e análises computacionais para determinar que o gene que precisavam alvejar era o HoxA1. Trabalhos anteriores em pesquisa de câncer de mama humano também mostraram que o HoxA1, que faz parte de uma família de genes envolvidos no desenvolvimento normal de um organismo, poderia tornar-se mutante e se transformar em um oncogênico, indutor de câncer.

Trabalhando em colaboração com o Instituto Wyss para Engenharia Biologicamente Inspirada em Harvard, os cientistas criaram uma partícula de RNA destinada a neutralizar o HoxA1. Em seguida, eles envolveram a molécula de RNA em uma nanopartícula e injetaram o conjunto diretamente nos mamilos de camundongos que já apresentavam os primeiros sinais de DCIS. Eles constataram que apenas 25% dos animais desenvolveram tumores cancerosos. Comparativamente, 100% dos tumores dos animais de controle tornaram-se malignos. “Esse e outros estudos sugerem que aplicar os agentes de tratamento diretamente no sistema ductal da mama pode ser eficaz para eliminar lesões pré-malignas e evitar a formação de novos cânceres”, observa Vered Stearns, codiretor do Programa de Câncer de Mama da Johns Hopkins University, não envolvido na pesquisa.

A RNAi não só pode ser minimamente invasiva, mas também pode ser localizada e customizada para uma mutação genética específica, ou predisposição, para desenvolver câncer a partir do DCIS. “A aplicação localizada de uma substância terapêutica abre novas opções para pacientes e médicos”, anuncia Amy Brook, da University of Texas em Austin e coautora do novo estudo. Brock espera que, futuramente, a terapia baseada em RNAi possa ser usada para prevenir câncer em pacientes de alto risco. “Vemos isso como uma plataforma tecnológica que pode ser personalizada para pacientes e tipos de tumores individuais”.