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Cientistas protestam contra ordens de Trump com boicote a publicações e conferências norte-americanas

Mais de 4.500 acadêmicos assumiram o compromisso de faltar a conferências realizadas nos EUA

ResistFromDay1
Crédito: ResistFromDay1 Flickr (CC BY 2.0)

Várias cidades têm sediado diversos tipos de protesto contra a ordem executiva do presidente Trump que barra a entrada de imigrantes de sete países predominantemente muçulmanos nos EUA. Mas nem todos os manifestantes marcharam ou carregaram cartazes. Alguns cientistas estão usando as redes sociais para aderir aos protestos, defendendo boicotar conferências e publicações americanas. Tais atos de “desobediência civil” acadêmica poderiam, no curto prazo, desacelerar o progresso da ciência. Mas nada promete causar mais danos à ciência quanto a própria proibição de entrada de imigrantes.

Desde que a ordem executiva foi anunciada, mais de 4.500 acadêmicos internacionais assinaram um compromisso para boicotar conferências realizadas nos EUA, e todos os anos são feitas centenas delas. “Nós questionamos a integridade intelectual desses espaços e diálogos, que são projetados para incentivar, enquanto colegas muçulmanos estiverem explicitamente sendo excluídos deles,” escreveram os autores do compromisso. E mais de 18.000 acadêmicos — a maioria dos EUA  — assinaram uma carta denunciando a ordem de proibição.

Numa iniciativa individual, um anestesista australiano parou de revisar artigos científicos de revistas científicas baseadas nos EUA, como forma de se opor à política. “Como australiano, posso fazer pouco em relação aos eventos recentes dos EUA. No entanto, posso fazer isso,” Stuart Marshall escreveu em seu Twitter, junto com uma foto da carta que mandou para seis revistas científicas.

Marshall diz saber de “vários” colegas que implementaram tipos semelhantes de protestos em relação à revistas científicas, “e e-mails e mensagens pessoais de apoio de acadêmicos ao redor do mundo também [me] dizem que farão o mesmo.”

“Sua organização e muitas outras para as quais eu trabalho pro bono na comunidade científica se beneficiam financeiramente do meu trabalho e pagam impostos para o governo dos Estados Unidos,” escreveu Marshall para as revistas. “Esse governo decidiu discriminar sistematicamente acadêmicos e outras pessoas por causa de suas raças, religiões e nacionalidades. Assim sendo, eu não desejo contribuir direta ou indiretamente para essa ação.”

Se o boicote terá efeito sobre a administração Trump é outra história. Não parece, para dizer o mínimo, que Trump e seu círculo íntimo se baseiem muito na literatura científica revisada para criar novas política. E a academia não parece uma indústria com a qual eles estejam preocupados em satisfazer.

Isso nos faz lembrar do que aconteceu há 25 anos, quando Harvard — em resposta à proibição da entrada de pessoas com HIV no país decretada pelo presidente Reagan — decidiu mudar o local de uma enorme conferência sobre AIDS de Boston para Amsterdã. Foi uma postura baseada em princípios, mas é difícil contradizer quem afirma que a ação teve pouco impacto real em relação à proibição, que não foi desfeita até 2009, na administração Obama. O seu efeito real foi pragmático: assegurar que mais pessoas pudessem ir a reunião.

Isso aponta para uma preocupação maior: se conferências não mudarem de lugar, elas sofrerão — não por causa do protesto, mas por causa da proibição de viagem em si.

A medicina é internacional, e seus avanços vêm de todos os lugares do mundo. Então, embora esforços de protestos possam não ter tantos efeitos práticos, a manifestação em si está mostrando a vibrante comunidade internacional de cientistas e acadêmicos — a coisa que mais está em risco caso o banimento continue.

 

Ivan Oransky

Republicado com permissão da STAT. Esse artigo foi publicado originalmente em 1º de fevereiro de 2017.

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