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Cientistas revelam conexão entre ciclo de estrogênio feminino e vício em cocaína

Os níveis de estrogênio influenciam no caminho de recompensa da dopamina, aumentando o efeito prazeroso da droga

 

Shutterstock

As variações hormonais pelas quais as mulheres passam as deixam particularmente sensíveis, quando comparadas aos homens, às propriedades aditivas da cocaína, de acordo com um estudo conduzido pela Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, em Nova York, e publicado no dia 10 de janeiro pela revista científica Nature Communications.

A equipe de pesquisa do Monte Sinai descobriu que o estrogênio intensifica o caminho de recompensa da dopamina e demonstrou que os efeitos mais potentes da cocaína acontecem durante o ciclo menstrual, quando o lançamento de estrogênio alcança o seu maior nível. A pesquisa sugere que uma possível intervenção para o vício poderia ser ajustar esse ciclo através do uso de pílulas anticoncepcionais ou uma estratégia semelhante.

"Nosso estudo mudará a maneira de pensar sobre pesquisas relacionadas a vícios, enfatizando a necessidade de entender melhor os indivíduos femininos, já que a maior parte das pesquisas de adicção foram conduzidas em homens,” diz Erin Calipari, Ph.D., primeira coautora do estudo e pós-doutoranda da Escola de Medicina Icahn. “Mais estudos sobre o caminho de recompensa do estrógeno são importantes, uma vez que é possível que o estrogênio tenha efeitos semelhantes em outras formas de abuso de substâncias.”

A Dra. Calipari é membro do Laboratório Molecular de Psiquiatria, liderado pelo investigador sênior do estudo, Eric Nestler, MD, Ph.D., Nash Family Professor de Neurociência e diretor da Instituto Friedman Brain da Escola de Medicina Icahn.

A equipe de pesquisa do Monte Sinai procurou entender porque as mulheres, quando experimentam cocaína, tem muito mais chances do que homens de se tornarem viciadas. Embora a taxa geral de adicção seja maior em homens, pesquisas anteriores mostraram que quando mulheres têm a oportunidade de experimentar cocaína e outras drogas, elas têm maior probabilidade do que homens de continuar usando a substância, e a transição para a adicção total é significativamente mais rápida em mulheres do que em homens. Investigadores de adicção também descobriram que mulheres possuem maiores chances de usar cocaína mais cedo e em maiores quantidades, e possuem maiores dificuldades em se manter sóbrias do que homens. Além disso, mulheres relatam que quando os níveis de estrogênio estão subindo durante o ciclo menstrual, elas experienciam um efeito intensificado quando utilizam a droga.

Para entender por que isso acontece, pesquisadores utilizaram ratos — animais que mostram as mesmas diferenças relacionadas ao uso de drogas entre sexos — e fixaram pequenas sondas ópticas em áreas específicas de seus cérebros, incluindo aquelas envolvidas no caminho da dopamina. Ratos fêmeas em vários pontos de seus ciclos menstruais, bem como ratos machos, foram estudados.

A equipe de pesquisa descobriu que os estrogênio afeta a quantidade de dopamina lançada pelos neurônios em resposta à presença de de cocaína, além do tempo que a dopamina fica na sinapse entre células cerebrais. Ambas as ações aumentam os efeitos prazerosos da cocaína, e cada uma foi reforçada à medida que os níveis de estrogênio aumentaram nos ratos fêmeas. Tanto os ratos machos quanto fêmeas ligaram o prazer/recompensa ao lugar em que ele ocorreu em suas jaulas, passando mais tempo do lado da jaula onde haviam recebido cocaína. Os ratos fêmeas fizeram isso de maneira mais extensiva, indicando uma recompensa aumentada de cocaína.

"Os ratos rapidamente aprenderam que  um ambiente em particular está ligado com as drogas, e nós demonstramos que quando esses ratos, especialmente fêmeas no pico de seu ciclo estral, eram colocados nesse ambiente, isso estimulava a recompensa de dopamina mesmo sem o uso de cocaína,” afirmou a doutora Calipari. “É o mesmo tipo de resposta forte e aprendida que sabemos que acontece em humanos.”

Os pesquisadores suspeitam que o mecanismo evolutivo por trás da conexão entre estrogênio e o caminho de recompensa é prazer advindo de encontrar um parceiro e acasalar, ações que promovem a sobrevivência da espécie. Outra hipótese evolutiva é que o aumento do estrogênio poderia levar à busca por comida, através dos efeitos da sinalização da dopamina, assegurando que as fêmeas estejam saudáveis para carregar futuras crias. No entanto, o estrogênio nos cérebros de mulheres que, em um primeiro momento, ativa suas respostas iniciais à recompensas relacionadas com a sobrevivência também podem torná-las mais vulneráveis ao vício.

"Nossas descobertas trazem insights únicos sobre o funcionamento normal do cérebro e doenças que resultam do estudo dos sexos,” enfatiza o doutor Nestler, autor principal do estudo. “Essa abordagem é essencial para capacitar a área a desenvolver tratamentos otimizados para o vício em drogas e outras condições, tanto para mulheres quanto para homens.”

Mount Sinai Hospital and Icahn School of Medicine at Mount Sinai

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