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Cirurgia de redução de peso altera o cérebro

Mudanças na atividade neural podem ajudar a explicar porque a cirurgia bariátrica é tão eficiente

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Em junho, organizações internacionais de diabetes endossaram novas diretrizes provocativas sugerindo que os médicos deveriam considerar prescrever a cirurgia de redução de estômago para uma número maior de diabéticos — incluindo aqueles com índice de massa corporal (IMC) de 30 ou mais, e não apenas para aqueles com IMC 40 ou superior. Uma pesquisa mostrou que a cirurgia ajuda pessoas a perder mais peso, manter o peso baixo por mais tempo e atingir melhor níveis de glicose no sangue em comparação com aqueles que perdem peso através de re-educação alimentar e exercícios físicos. Agora, um estudo em ratos sugere que a eficácia da cirurgia bariátrica se deve, em partes, às mudanças que ela causa no cérebro.

De acordo com o estudo, publicado na revista científica International Journal of Obesity, a cirurgia causa hiperativação de uma via neural que leva dos neurônios de detecção do estômago no tronco do cérebro para o núcleo parabraquial lateral, uma área no meio do cérebro que recebe informações sensoriais do corpo, e daí para a amígdala, o centro de processamento de emoções e medos do cérebro.

Os ratos obesos foram submetidos à cirurgia bariátrica chamada de The Roux-en-Y, na qual os médicos retiram a maior parte do estômago, deixando apenas uma pequena “bolsa” conectada ao duodeno. Logo após a cirurgia, os ratos começaram a mostrar uma ativação aumentada nesse caminho neural, além de optar por refeições menores e uma preferência por alimentos menos gordurosos. Eles também passaram a secretar maiores níveis de hormônios de saciedade. Padrões hormonais e comportamento similares são encontrados em humanos após a mesma cirurgia, sugerindo que as mudanças cerebrais também podem ser semelhantes — mas os autores dizem que observar esse circuito em particular em humanos através do imageamento cerebral é difícil porque a resolução do equipamento é capaz de enxergá-la claramente.

De acordo com o autor principal, Hans-Rudolf Berthoud, do Centro de Pesquisa Biomédica Pennington, da Universidade Estadual da Louisiana em Shreveport, a mudança na atividade cerebral provavelmente é causada pelo contato novo e repentino de comida não digerida com o duodeno, no lugar da mistura pré-digerida que normalmente vem do estômago. “Esse pacientes basicamente precisam aprender a comer de novo. Eles estavam acostumados com porções grandes e engoliam a comida direto. Era prazeroso para eles. Mas se fizerem o mesmo após a cirurgia, isso os machucará,” Berthoud afirma. As áreas cerebrais que se tornam hiperativas pela cirurgia provavelmente refletem esse feedback negativo, que é uma poderosa ferramenta de aprendizado.

Em poucas semanas o caminho não estava mais hiperativo nos ratos, talvez indicando que o cérebro recrutou outros processos para apoiar a redução de comida, diz Berthoud. Ele acrescenta que esse caminho é, provavelmente, apenas uma pequena peça do quebra-cabeças. Estudos anteriores sugerem que a cirurgia bariátrica também afeta o sistema de recompensas do cérebro, tornando comidas gordurosas menos prazerosas. Uma pergunta que permanece é por que a cirurgia bariátrica não leva a um metabolismo mais lento, observado em pessoas que perdem grandes quantidades de peso graças à mudanças drásticas de vida. Num estudo muito divulgado este ano, pesquisadores descobriram que os participantes do programa de televisão “Perder para Ganhar” ainda possuíam um metabolismo bem devagar mesmo seis anos depois de sua enorme perda de peso. Pacientes bariátricos, de acordo com estudos semelhantes, alcançam um metabolismo normal e estável dentro de um ano.

A cirurgia bariátrica possui, é claro, riscos  e efeitos colaterais. Mas com o acúmulo de estudos que mostram que perda de peso proveniente de dietas é quase impossível de manter a longo prazo, Berthoud e outros pesquisadores esperam continuar elucidando os prós e contras do procedimento. “É uma história muito complexa,” ele diz.

 

Meredith Knight
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