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Método antigo gera células-tronco embrionárias humanas

Resultado pode gerar nova polêmica sobre clonagem para fins terapêuticos

Creations/Shutterstock
Por David Cyranoski e revista Nature

Da revista Nature

Uso de técnicas de clonagem para criar tecidos perfeitamente adequados e compatíveis para curar diversas doenças como diabetes e doença de Parkinson foi anunciado, cerca de 15 anos atrás, como a grande esperança para uma revolução biomédica. Desde então, a abordagem tem gerado intensos debates sobre aspectos éticos. A técnica foi ainda manchada por fraude e, nos últimos anos, ofuscada por uma tecnologia concorrente. A maioria dos grupos abandonou o trabalhoso método produção de células-tronco embrionárias específicas do paciente (ESC, na sigla em inglês) por clonagem. Outro questionamento, mais silecioso, se seguiu: precisamos ainda de clonagem "terapêutica"?

Um artigo publicado esta semana pelo Shoukhrat Mitalipov, especialista em biologia reprodutiva na Oregon Health and Science University, em Beaverton, e colaboradores certamente reacende o debate. Mitalipov e sua equipe finalmente desenvolveu ESC específicas de pacientes através da clonagem, e estão ansiosos para provar que vale a pena insistir na tecnologia.

A clonagem terapêutica ou transferência nuclear de células somáticas (TNCS, na sigla em inglês), começa com o mesmo processo usado para criar Dolly, a famosa ovelha clonada, em 1996. Uma célula de tecido do corpo de um dador, ― da pele, por exemplo ―  é fundida com um óvulo não fertilizado cujo núcleo foi removido. A célula ovo resultante reprograma o DNA da célula doadora de forma que o conjunto assume um estado embrionário e se divide até alcançar a fase de blastocisto [conjunto inicial de células que se forma durante o desenvolvimento embrionário). As células foram então colhidas e cultivadas para criar uma linha celular estável e geneticamente compatível com o dador e capaz de se diferenciar em quase todo o tipo de células do corpo humano.

Muitos cientistas tentaram desenvolver linhagens de células humanas TNCS, nenhum tinha conseguido até agora. No caso mais infame, Woo Suk Hwang, da Universidade Nacional de Seul, na Coréia do Sul usou centenas de óvulos humanos para relatar dois sucessos, em 2004 e 2005. Os resultados eram falsos, fabricados. Outros pesquisadores fizeram alguns progressos. Mitalipov desenvolveu linhagens TNCS em macacos em 2007. E Dieter Egli, um especialista em medicina regenerativa da Stem Cell New York Foundation, produziu com sucesso linhagens TNCS humanas, mas somente quando o núcleo do óvulo foi deixado na célula. Como resultado, as células tinham número anormal de cromossomas, o que limita a sua utilização.

Macaquices

Mitalipov e seu grupo começaram a trabalhar em seu novo estudo em setembro passado, usando óvulos de doadoras jovens recrutados através de campanha publicitária na universidade. Em dezembro, depois de alguns insucessos, quatro embrionárias clonadas por Mitalipov começaram a crescer. "Parecem que as colônias ", ele não parava de pensar. Masahito Tachibana, um especialista em fertilidade de Sendai, no Japão, que está terminando uma temporada de 5 anos no laboratório de Mitalipov, nervosamente seccionou o aglomerado em pedaços milimétricos de células que foram transferidos para novas placas de cultura, onde continuaram a crescer - evidência de sucesso. Mitalipov cancelou seus planos de férias. "Fiquei feliz de passar o Natal cultivando células", diz ele. "Minha família compreendeu."

O sucesso seguiu pequenos ajustes técnicos. Os pesquisadores usaram vírus Sendai inativado (conhecido por induzir a fusão de células) para unir o óvulo e a célula do doadora, e um choque elétrico foi usado para ativar o desenvolvimento do embrião. Quando suas primeiras tentativas resultaram em seis blastocistos, mas não linhagens celulares estáveis, acrescentaram cafeína, que protege o ovo da ativação prematura.

Nenhuma dessas técnicas é nova, mas os pesquisadores testaram várias de suas combinações em mais de mil óvulos de macacos fêmea antes de iniciar experimentos com células humanas. "Eles fizeram as melhorias adequadas para o protocolo", afirma Egli. "É uma grande notícia. É convincente. Eu acredito nisso".

Os experimentos levaram apenas alguns meses, Mitalipov afirma. As pessoas perguntavam porque demorou tanto para fazer os experimentos com humanos se o fez isso em macacos em 2007. A maior parte do tempo, diz ele, foi gasta navegando regulamentos dos EUA sobre pesquisas com embriões.

Os pesquisadores realizaram uma bateria de testes para provar que suas células TNCS poderiam formar vários tipos de células, incluindo as células do coração, capazes de se contrair espontaneamente.

Suas primeiras linhagens de células foram criados usando células da pele do feto, outros foram obtidos com células de doadores de um paciente de 8 meses de idade, com uma desordem metabólica rara chamada síndrome de Leigh, para provar que os ESC pode ser feita a partir de células de doadores mais maduros. A técnica não requer números proibitivos de óvos: foram necessários 15 de uma doadora para a produzir de uma linhagem de células e 5 de outra para produzir a segunda linhagem. "A eficiência do processo é o que mais impressiona", diz George Daley, especialista em células-tronco do Hospital Infantil de Boston, em Massachusetts.

Tais melhorias podem ser necessárias para convencer as pessoas de que a pesquisa TNCS ainda vale a pena. Doadoras de óvulos para os experimentos receberam 3 mil a 7 mil dólares como compensação. Isso é caro e, segundo alguns profissionais de bioética representa risco de criar um comércio de órgãos que ameaça os pobres. Como a técnica requer a destruição de embriões, os fundos dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) não podem ser usados para fazer ou estudar linhas celulares derivadas de TNCS, o que dificulta ainda mais a pesquisa clínica. (Mitalipov mantém um laboratório independente para pesquisas financiadas pelo NIH).

Os temores públicos a respeito do uso da tecnologia para criar clones humanos são outra fonte de discórdia. A pesquisa pode desencadear "histeria clonagem" que os oponentes da pesquisa com células-tronco poderiam capitalizar, diz Bernard Siegel, diretor-executivo do Genetics Policy Institute em Palm Beach, Florida. Mas Mitalipov tentou sem sucesso há mais de uma década para produzir um macaco por clonagem. Tachibana diz que uma próxima publicação vai explicar por que a clonagem de seres humanos não é possível usando a técnica TNCS.

Ainda assim, Daley e a maioria dos outros pesquisadores de células-tronco têm adotado outro método para criar linhagens de células geneticamente compatíveis, específicas do paciente: reprogramação de células adultas a um estado embrionário para produzir células-tronco pluripotentes induzidas (iPS). Divulgada pela primeira vez em 2006, a técnica não envolve os óvulos, a clonagem ou a destruição de embriões. "Honestamente, a coisa mais surpreendente [no artigo de Mitalipov] é que alguém ainda está fazendo TNCS humana na era das células iPS", diz Miodrag Stojkovic, que estuda células iPS em medicina regenerativa e dirige uma clínica de fertilidade em Leskovac, Sérvia .

Mas Stojkovic, como outros, aguarda os resultados das comparações detalhadas entre iPS e as células TNCS. Algumas pesquisas têm demonstrado que as células iPS não são completamente reprogramadas e que as células-tronco derivadas de TNCS são mais como células-tronco embrionárias derivadas de fertilização in vitro. Mitalipov e Tachibana estão agora realizando um estudo para comparar as células iPS e de células TNCS derivadas da mesma célula doadora. "Estes resultados", diz Daley, "serão fascinantes".

Este artigo é reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 15 de maio de 2013.