| ©Vera Kailova/ Shutterstock |
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Coelhos com traqueias bloqueadas foram mantidos vivos por até 15 minutos sem um único fôlego, após pesquisadores injetarem micropartículas cheias de oxigênio no sangue dos animais.
Oxigenar o sangue dessa forma, sem passar pelos pulmões, poderia salvar a vida de pessoas com vias aéreas danificadas ou obstruídas, explica John Kheir, cardiologista do Children’s Hospital Boston, em Massachusetts, que liderou a equipe. Os resultados foram publicados na
Science Tranlational Medicine.
A técnica tem o potencial de prevenir ataques cardíacos e danos cerebrais induzidos por falta de oxigênio e de evitar a paralisia cerebral resultante de um suprimento sanguíneo fetal comprometido.
No passado médicos tentaram tratar baixos níveis de oxigênio no sangue – ou hipoxemia – e problemas relacionados, como a cianose, injetando gás oxigênio diretamente na corrente sanguínea. Eles obtiveram graus variados de sucesso, aponta Kheir.
Cheio de arNo final do século 19, por exemplo, o médico americano John Harvey Kellogg conduziu experimentos com enemas de oxigênio – uma ideia revivida em décadas recentes na forma de infusores intestinais, observa Mervyn Singer, especialista em tratamento intensivo do University College London. Esses métodos, porém, podem ser perigosos, porque o oxigênio livre pode se acumular em bolhas maiores e formar bloqueios potencialmente letais conhecidos como embolias pulmonares.
Injetar oxigênio em estado líquido evitaria isso, mas o procedimento teria que ser feito a temperaturas perigosamente baixas. As microcápsulas usadas por Kheir e sua equipe têm o melhor dos dois: são formadas por cápsulas esféricas monocamada de moléculas biológicas chamadas lipídeos, cada uma delas cercando uma pequena bolha de gás oxigênio. O oxigênio gasoso é então encapsulado e suspenso em uma emulsão líquida, de modo a não poder formar bolhas maiores.
As partículas são injetadas diretamente na corrente sanguínea, onde se ligam às hemácias em circulação. O oxigênio se difunde nas células em segundos, destaca Kheir. “Quando as micropartículas chegam aos pulmões, a vasta maioria do oxigênio já foi transferida para as hemácias”, explica ele. Isso distingue essas microcápsulas das várias formas de sangue artificial atualmente em uso, que podem carregar o oxigênio pelo corpo, mas ainda precisam recebê-lo do pulmão.
| d. kunkel/dennis kunkel microscopy, inc.; d. bell/harvard university; j. kheir/children’s hospital boston; c. porter/chris porter illustration |
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Micropartículas cheias de gás (em amarelo) podem transferir o oxigênio diretamente para as hemácias, sem passar pelos pulmões.
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São e salvo
De acordo com Kheir, a espuma de lipídeos é segura: “conforme o oxigênio as deixa, as cápsulas se curvam e se dobram, com rompimento dos lipídeos”. Em seguida, o corpo reabsorve os lipídeos.
Coelhos injetados com a substância sobreviveram por até 15 minutos sem respirar e tiveram pressão sanguínea e frequência cardíaca normais. Os animais não mostraram nenhuma indicação de embolias pulmonares ou de danos cardíacos, pulmonares ou hepáticos provocados pela falta de oxigênio.
As microcápsulas são fáceis e baratas de produzir, diz Kheir. Elas se montam sozinhas quando os componentes lipídicos são expostos a ondas sonoras intensas em um ambiente oxigenado – um processo conhecido como sonicação.
Essa é uma abordagem muito sofisticada, declara Singer. Máquinas de bypass cardiopulmonar também oxigenam o sangue, aponta ele, bem como a oxigenação por membrana extracorpórea, em que o sangue é bombeado para fora do corpo, é oxigenado e em seguida bombeado de volta. No entanto, essas técnicas são mais adequadas para cirurgias ou para suporte à vida de longo prazo e não seriam muito úteis em situações de emergência como bloqueios de traqueia, ressalta Singer.
Kheir concorda, apontando que uma das grandes vantagens da abordagem das micropartículas é a velocidade com que ela funciona. Ele acredita ser possível modificar a técnica para manter a vida por até 30 minutos, mas duvida ser possível estender muito esse tempo. Como as micropartículas não recirculam, seria necessário reinjetar novas partículas continuamente no sangue, além de haver limites para quanto fluído extra pode ser injetado na corrente sanguínea. “Isso não vai substituir os pulmões: apenas substitui sua função por um período de tempo limitado”, alerta Kheir.