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Como parir um bebê de um útero doado

O cirurgião sueco por trás do novo procedimento experimental diz que técnicas usadas por humanos podem ser melhoradas com assistência robótica

 

Shutterstock

Dois anos atrás uma equipe sueca de pesquisa anunciou ter realizado um ato revolucionário: pela primeira vez, haviam ajudado uma mulher nascida sem útero a dar à luz seu próprio filho. Eles transplantaram o útero de uma voluntária de 61 anos para a paciente de 35, esperaram um ano para a recuperação completa da receptora e finalmente implantaram um embrião que havia sido previamente criado através da fertilização in vitro. O menino nasceu prematuro — com 32 semanas de gravidez — mas sobreviveu e hoje é uma criança saudável que frequenta a creche normalmente.

Essa cirurgia experimental foi divisora de águas para a comunidade de pesquisas reprodutivas e reacendeu a esperança em mulheres que querem engravidar mas nasceram sem útero ou o perderam devido à doenças. Outros partos feitos pela mesma equipe também foram bem-sucedidos — mas nenhuma outra operação performada por médicos diferentes levou à partos similares seguidos de transplante uterino. Em março, o primeiro transplante de útero dos EUA falhou depois que receptora teve complicações que forçaram os médicos da Clínica Cleveland a remover o útero apenas um dia depois dele ter sido implantado. Mas esse e pelo menos outros cinco hospitais estão planejando ir em frente com suas próprias tentativas piloto para o procedimento nos próximos anos, usando úteros de voluntárias ou cadáveres. Três outras instituições dos EUA estão entre eles  — Centro Médico da Universidade Barylor, em Dallas, Hospital Bringham e De Mulheres e o Centro Médico da Universidade de Nebraska.

Mas o que é preciso para conseguir realizar um procedimento tão desafiador? A Scientific American conversou com o cirurgião chefe do time de pesquisa sueco, Mats Brännström, que é ginecologista na Academia Sahlgrenska da Universidade de Gothenburg. Ele discutiu quais obstáculos do procedimento  ainda precisam ser vencidos e seus avanços em performar transplantes uterinos que ajudam gravidezes futuras.

Quantos transplantes uterinos já foram realizados?

Ao redor do mundo, por volta de 14 ou 15. Mas nem todos eles foram bem-sucedidos. Teve um na China em novembro. Também houve outro na República Tcheca em abril, que foi coberto pela mídia tcheca, e, claro, houve o caso da Clínica Cleveland. Tiveram nove casos na Suécia. Mas dois desses [transplantes] foram removidos durante os meses iniciais; Também houve um caso saudi em que o órgão foi removido 99 dias depois e um na Turquia onde ainda não houve gravidez.

Quantas desses cirurgias resultaram em mulheres com um útero transplantado dando à luz?

Somos os únicos que produziram nascimentos bem-sucedidos. Temos cinco bebês até agora e algumas gravidezes no caminho, também.

Existem agora quatro tentativas pilotos nos Estados Unidos e duas na Europa registradas em clinicaltrials.gov, onde cirurgiões estão tentando obter o mesmo sucesso de vocês. O que ainda precisa ser aperfeiçoado nesse procedimento?

Minha equipe teve permissão para realizar uma segunda tentativa na Suécia que será assistida roboticamente. O robô retirará o órgão do doador vivo. No momento, esse processo demora de 11 a 13 horas. Nós achamos que os robôs conseguirão reduzir esse tempo para seis ou sete horas. O mais importante é reduzir o tempo da cirurgia. A cirurgia para implantar no paciente que receberá o útero leva apenas três ou quatro horas e é bem direta, mas retirá-lo de um doador vivo ainda é bem difícil.

Vocês estão usando um robô da Vinci?

Sim, esse é o único no mercado agora que pode nos ajudar com isso. Na segunda feira (6 de junho), uma equipe do Hospital Brigham e De Mulheres virá aqui — nós praticamos juntos em ovelhas e cadáveres antes. Nós trabalharemos com os robôs em cadáveres.

O que permitiu a vocês performarem de maneira bem-sucedida um transplante uterino nos anos recentes, e àquelas mulheres a dar à luz?

Eu acho que nosso sucesso se deve ao fato de que estávamos preparados de maneira meticulosa através da observação de partes difíceis em modelos animais e aprendemos a resolver as partes mais complicadas. E então quando partimos para babuínos nós tínhamos um procedimento bem-sucedido e otimizado.  Somos a mesma equipe que trabalhou com ovelhas e babuínos — não apenas os médicos — as enfermeiras e enfermeiros da sala de operação também são muito importantes.  Somos uma equipe que se esforça em equipe.

O que foi difícil com os babuínos?

Eles precisam de uma dose muito maior de drogas imunossupressoras — uma dose muito maior do que humanos. Mas a cirurgia mais desafiadora é no humano. Na verdade, ela é bem mais fácil em babuínos, e isso foi inesperado.

Por que?

Humanos são mais difíceis porque a pélvis é como um funil e é difícil de acessar, comparado a do babuíno. É bem mais funda em humanos. Nós estamos trabalhando numa área muito sensível, e é anatomicamente difícil porque é um pequeno vaso fundo com acesso ruim. Por isso acreditamos que uma abordagem robótica é melhor.

Esses transplantes pretendem ser temporários — e removidos depois que uma ou duas crianças nascerem, correto? Isso é único do ponto de vista de doações de órgãos.

Sim, esse é o único transplante de órgãos até agora que é temporário e usado apenas por algum tempo. A vantagem disso é que você não precisa estar sob efeito de imunossupressores tempo suficiente para o efeitos colaterais de longo prazo. Por enquanto, removemos três desses úteros depois que os bebês nasceram.

Eu sei que o parto é feito através de cesariana nessas pacientes — em parte para evitar a tensão no órgão transplantado. Você pode falar sobre como uma gravidez com um útero doado é diferente no geral de uma gravidez tradicional?

O parto é sempre por cesariana. O útero não tem os mesmos nervos [os nervos não são transplantados], então a mulher não sente as contrações do mesmo jeito. Elas também podem não sentir o feto chutando. Nós temos que acompanhar as gravidezes mais de perto para ter certeza que elas não estão tendo contrações das quais não estão cientes. Muitas dessas mulheres possuem uma condição rara chamada síndrome de Rokitansky e nasceram não só sem o útero, mas sem a parte superior da vagina, então normalmente uma nova vagina é feita cirurgicamente. A maior parte das mulheres passaram por essa operação. É um procedimento no qual você estende a vagina através de um tipo de dilatação forçada. No mais, não há diferenças.





Dina Fine Maron