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Complicações no nascimento estariam associadas a mudanças químicas de longo prazo no cérebro

Pessoas nascidas prematuramente podem apresentar níveis reduzidos de dopamina

Chris Sternal-Johnson/Flickr
Nova pesquisa publicada hoje (28 de novembro) na revista científica eLife, mostra que adultos nascidos prematuramente - os quais também sofreram pequenos danos cerebrais próximo ao momento do nascimento - possuem níveis menores de dopamina no cérebro.

Essa mudanças químicas foram relacionadas a falta de motivação e prazer na vida normal, além de alterações na atenção e na concentração - que poderiam ser sinais precoces de problemas de saúde mental mais sérios, como dependência de substâncias e depressão.

O estudo, que é uma colaboração entre pesquisadores do King`s College, do Imperial College de Londres e da Escola Icahn de Medicina em Mount Sinai, Nova York, também mostra que a maioria das pessoas nascidas prematuramente têm níveis completamente normais de dopamina.

Problemas de saúde mental frequentemente surgem de uma mistura complexa de fatores genéticos, que contribuem para tornar tais pessoas mais vulneráveis, com experiências de vida negativas ou estressantes. Dificuldades no nascimento podem estar entre as mais perigosas e dramáticas dessas experiências.

Cerca de uma em cada 10 pessoas nascem prematuramente, e a maioria não experimenta grandes complicações durante o parto. Contudo, entre 15% e 20% dos bebês nascidos antes de 32 semanas de gestação experimentam sangramentos durante a primeira semana de vida em espaços cheios de fluido chamados ventrículos, que ficam no cérebro. Se o sangramento for significativo, ele pode causar problemas a longo prazo.

A ligação biológica entre complicações no nascimento e maior risco de problemas de saúde mental não está clara, mas uma teoria diz que o estresse de um parto complicado poderia levar a níveis maiores de dopamina, os quais também estão aumentados em pessoas com esquizofrenia.

Os pesquisadores usaram uma combinação de imagens de tomografia por emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês) e de imagens de ressonância magnética (MRI, na sigla em inglês) do cérebro, juntamente de uma série de testes psicológicos, para identificar as mudanças precisas na química e na estrutura do cérebro após danos cerebrais precoces. Eles compararam três grupos de pessoas: adultos que nasceram muito prematuramente e sofreram danos cerebrais precoces, adultos que nasceram muito prematuramente e não sofreram danos cerebrais e adultos de controle, nascidos no tempo correto.

Sean Froudist-Walsh, principal autor do estudo realizado no King`s College de Londres, disse: "Já existe há mais de 100 anos a hipótese de que certas doenças mentais poderiam estar relacionadas a problemas no desenvolvimento inicial do cérebro. Estudos em modelos animais nos mostraram como os danos cerebrais precoces e doenças mentais poderiam ser conectados, mas essas teorias não foram testadas em experimentos com seres humanos.”

"Descobrimos que a dopamina, produto químico importante para a aprendizagem e para o prazer, é afetada em pessoas que sofreram lesões cerebrais precocemente, mas não do modo como muitas pessoas pensavam - os níveis de dopamina eram realmente mais baixos nesses indivíduos. Isso pode ser importante para a forma como pensamos em tratar pessoas que sofreram danos cerebrais precoces e desenvolveram doenças mentais. Espero que isso motive cientistas, médicos e formuladores de políticas a prestarem mais atenção aos problemas em torno do nascimento, e como eles podem afetar o cérebro a longo prazo.”

Chiara Nosarti, a co-autora sênior do estudo do King`s College, disse: "A descoberta de um potencial mecanismo ligando os fatores de risco ocorridos no início da vida à doenças mentais em adultos poderia, um dia, levar a tratamentos mais direcionados e efetivos para problemas psiquiátricos em pessoas que sofreram complicações no seu nascimento.”

Oliver Howes, outro autor sênior do estudo, também do King`s College, disse: “Essas descobertas poderiam ajudar a criar abordagens para impedir o surgimento de problemas em pessoas que tiveram um nascimento precoce.”

King`s College de Londres
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