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Conselhos científicos têm poucas mulheres

Maior número de mulheres na pesquisa não se reflete em organismos diretivos

Matej Kastelic/Shutterstock

Por Alison McCook e revista Nature

Nancy Hopkins começou a pesquisar seus colegas na primavera boreal de 2012. Consultou via internet e varreu mentalmente os corredores de sua instituição, o Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge – além dos campi de outras instituições de elite – em busca dos escritórios de homens que ela sabia terem fundado empresas. Entrou então nos websites dessas empresas e contou o número de homens e mulheres trabalhando em seus conselhos científicos (CC), uma posição de prestígio para pesquisadores que determinam o rumo científico da empresa.

Esse foi um exercício informal, e não uma pesquisa sistemática. Mas Hopkins, bióloga molecular do MIT que há muito tempo defende mulheres na ciência, achou os resultados chocantes. Uma amostra de 12 das empresas que examinou somava 129 membros de conselhos científicos; apenas seis eram mulheres. “Fiquei completamente chocada”, declara Hopkins. “E isso me deixou triste. Eu pensei ‘nossa, por que esses homens não querem trabalhar com mulheres [do MIT]?’ Temos uma equipe feminina incrível”.  

A proporção de mulheres na ciência industrial e acadêmica disparou nos últimos 20 anos. De acordo com a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos, mulheres compõem 25% dos acadêmicos titulares em ciência e engenharia, e mais de 25% dos cientistas industriais em pesquisa e desenvolvimento. Mas quando o assunto é engajamento acadêmico em trabalho comercial – patentear suas descobertas, começar empresas de biotecnologia, ou participar de CCs – a imagem é menos progressiva.

Estudos confirmaram a impressão de Hopkins de que mesmo as principais cientistas frequentemente estão ausentes desses papeis. “O clube secreto [de homens] costumava ir a laboratórios e conferências”, declara Fiona Murray, que estuda empreendedorismo de ciências da vida no MIT. “Esse mundo mudou muito, mas temos um novo cenário em que ainda é difícil para mulheres desempenharem papeis semelhantes”.

Especialistas na indústria e na academia especulam que a disparidade poderia refletir os pequenos números de mulheres em certos campos especializados; as exigências da vida em família; ou remanescentes de uma “panelinha” masculina.

Sejam quais forem as razões, esse abismo de gênero prejudica a todos, acredita Bonnie Bassler, bióloga molecular da Princeton University,em Nova Jersey.“Eu acho que as empresas fariam uma ciência melhor se tivessem as melhores pessoas em sua diretoria. E eu acho que essas mulheres, que são ótimas cientistas, fariam uma ciência melhor em seus laboratórios se tivessem acesso a essas ideias”.

“Todos saem perdendo”, completa ela.

Problema oculto

Durante grande parte da década de 80 e 90, havia mais de 11 homens para cada mulher no corpo científico do MIT. As coisas começaram a mudar há 20 anos, quando Hopkins, a primeira diretora do Comitê do Corpo Docente Feminino da Escola de Ciências, e sua equipe, aumentara muito a contratação de mulheres. Em 2006, um em cada cinco membros do corpo docente de biologia do MIT era mulher.

Em um jantar no último mês de abril para homenagear essas conquistas e marcar sua aposentadoria do laboratório, Hopkins falou sobre o trabalho que ainda precisa ser feito. Ela falou sobre uma lista que tinha recebido de um pós-graduado da Escola de Administração de Harvard em Boston, Massachusetts, mostrando os nomes de cientistas da área que recebiam financiamento de uma firma local de capital de risco.

Entre os 100 nomes, havia apenas uma mulher. A lista não teria surpreendido Hopkins há mais de 30 anos, quando um colega lhe disse que “mulheres não têm permissão” para fundar empresas de biotecnologia. Mas ver uma escassez tão grande de mulheres acadêmicas na biotecnologia moderna foi frustrante.

Por volta dessa época, Hopkins embarcou em sua busca no Google. Estava particularmente interessada nos conselhos científicos porque eles consistem principalmente de cientistas empregados que são frequentemente convidados pelos acadêmicos fundadores da empresa – um processo social que poderia revelar tendências conscientes ou inconscientes contra acadêmicos do sexo feminino.

E ser membro de conselhos tem suas vantagens: você pode avisar membros sobre ferramentas e áreas promissoras de pesquisa, e isso pode levar a outros prospectos lucrativos, como consultoria. Além disso, durante algumas reuniões anuais, membros de conselhos recebem honorários substanciais, opções de ações, ou ambos. 

O primeiro nome que Hopkins pesquisou foi Eric Lander, diretor fundador do Instituto Broad do MIT e de Harvard. Digitou “empresas Eric Lander” no site de busca. Observando os resultados, ela se deparou com a Verastem, uma empresa de células-tronco cancerosas fundada em 2010 por Lander e outros, incluindo Robert Weinberg, pesquisador do câncer no Instituto Whitehead,em Cambridge. Contou14 pessoas no conselho científico da Verastem; todos eram homens.

Digitar “empresas Phil Sharp” resultou na Alnylam Pharmaceuticals, uma companhia com sede em Cambridge cofundada pelo biólogo molecular ganhador do Nobel em2002. Aempresa, que está desenvolvendo teorias baseadas na interferência do RNA, tinha uma única mulher em seu conselho de 11 pessoas. “Empresas Bob Langer” produziu um punhado das mais de 20 empresas que o bioengenheiro do MIT ajudou a lançar, incluindo a Taris Biomedical em Lexington, Massachusetts, que se concentra em doenças geniturinárias, e a empresa biofarmacêutica Blend Therapeutics em Watertown, também Massachusetts. Nenhum dos conselhos incluía mulheres. (Weinberg e Lander afirmam que não se envolveram no processo seletivo para os conselhos da Verastem, e Langer que não se envolveu no processo na Blend ou na Taris. Sharp declara que, na Alnylam, escolher o conselho exigia “concordância entre” os fundadores, o diretor executivo, os investidores, e outras pessoas que já faziam parte da empresa).

Hopkins incluiu em sua pesquisa alguns cientistas de outras instituições, como a Harvard University em Cambridge, e o Memorial Sloan-Kettering Cancer Centerem Nova York.

No geral, entre os professores de tempo integral afiliados numa amostra das 14 empresas revisadas, apenas 5% dos fundadores ou membros de conselhos eram mulheres. Apesar de diretorias mudarem com o tempo, essa fração era basicamente a mesma ainda no mês passado.

Em julho último, Hopkins começou a circular seus resultados para um punhado de membros do corpo docente do MIT, e para cientistas mais distantes. Vicki Sato, professora de biologia e administração de Harvard, com uma longa carreira na indústria de biotecnologia, conta que não conseguia acreditar no que estava vendo. “Eu fiquei chocada com a amostragem que ela tinha feito, e disse-lhe que ela devia estar errada”. “Mas eu sabia, lá no fundo, que ela estava certa”. 

Preocupação global

Estudos mais rigorosos chegaram a conclusões semelhantes.

Em um artigo publicado em outubro último, Murray e Toby Stuart da University of California, Berkeley, e Waverly Ding da University of Marylandem College Park, revisaram todas as listas disponíveis ao público de conselhos científicos biotecnológicos dos Estados Unidos, começando nos anos 1970 e incluindo cerca de 500 empresas.

Apesar de mulheres representarem entre 12 e 30% dos acadêmicos ativos com doutorado nesse período de tempo, a porcentagem de mulheres em conselhos científicos nunca excedeu 10,2% (ver o quadro “Desigualdade a bordo”). Mesmo quando os pesquisadores comparavam membros do corpo docente de ambos os sexos, com níveis semelhantes de realizações, medidos por fatores como contagens de publicações e citações, cientistas do sexo masculino tinham duas vezes mais chance de entrar em conselhos científicos do que os do sexo feminino. 

Os CCs não são o único fórum comercial em que mulheres acadêmicas parecem estar em desvantagem.

 

Mulheres dos Estados Unidos também registram patentes com 40% da frequência de homens, começam negócios com metade da frequência, e recebem significativamente menos financiamento para as empresas start-up que de fato fundam. Esse não é um problema exclusivo dos Estados Unidos: um estudo publicado em abril de 2012 pela Royal Society de Edimburgo descobriu que mulheres são sub-representadas em conselhos de empresas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática no Reino Unido.

Isso levando em conta o fato de que incluir mulheres parece ser benéfico: um relatório de 2012 da Credit Suisse em Zurique, na Suíça, descobriu que no mundo todo, empresas com mulheres nos conselhos têm valores de ações mais altos do que empresas com conselhos unicamente masculinos.

Somente para convidados

Então o que está acontecendo?

Em relação aos CCs, Hopkins acredita que a resposta é simples: mulheres não são convidadas.

Quando notou os chocantes padrões de participação em conselhos, Hopkins perguntou a algumas de suas colegas – incluindo uma que ela acreditava ser uma “estrela absoluta” – se elas já tinham sido convidadas para servirem conselhos. Todaselas disseram não.

“No fim das contas, essas histórias são muito tristes”, declara Hopkins. “Pessoas sabem que são excluídas, e isso é profissionalmente custoso. Elas ficam envergonhadas de falar sobre isso. É como não ser tirado para dançar”.

Mas as coisas não são tão simples, aponta Paul Schimmel, ex-colega de Hopkins, atualmente no Instituto de Pesquisa Scripps,em La Jolla, Califórnia, cofundador da Alnylam. Ele afirma que tenta garantir participação igualitária de sexos em seu laboratório e em suas empresas há 20 anos. “Não há falta de esforço, isso eu garanto”, conta Schimmel. Mas participar de um conselho “pode dar muito trabalho” – teleconferências, emails, viagens várias vezes por ano, e grossos volumes para revisar – e mulheres frequentemente ficam com a maior parte do trabalho doméstico e cuidados com filhos.

De acordo com Schimmel, pelo menos uma mulher recusou seu convite para participar de um conselho devido a responsabilidades familiares. De fato, pesquisas mostram que acadêmicas com filhos têm uma tendência menor a patentear suas descobertas que mulheres sem filhos.

Algumas cientistas proeminentes discordam. Carolyn Bertozzi, especialista em química biológica da University of California, Berkeley, que tem dois filhos jovens e mais um a caminho, afirma que está sempre disposta a encontrar tempo para participar do conselho de pesquisas da GlaxoSmithKline, que implica participar de reuniões de dois dias, duas vezes por ano, em troca de compensações “generosas”. As reuniões lhe ensinam sobre o que é necessário para produzir um medicamento, incluindo química médica, problemas com regulamentos e propriedade intelectual; isso a ajuda com sua start-up, a Redwood Bioscience em Emeryville, na Califórnia, que tem dois membros do sexo feminino em seu conselho científico de quatro pessoas. 

Bertozzi reconhece que sua situação é incomum: sua companheira é uma mãe dona de casa. Mas Bassler, também, declara que seu trabalho em conselhos científicos vale os sacrifícios. “Se eu fosse convidada para trabalhar em um conselho, eu não faria outra coisa”, confessa ela. Bassler foi convidada para participar de dois conselhos em sua carreira, mas “é claro” que aceitaria outro convite.

Pesquisas parecem apoiar a ideia de que é a falta de convites – e não a falta de tempo – que reduz a participação feminina em conselhos científicos de biotecnologia.

Murray, Stuart e Ding descobriram que tanto homens quanto mulheres tendem a participar de CCs por volta do 20º ano após completarem seus doutorados – frequentemente na época em que os maiores problemas da educação infantil já acabaram. 

Isso sugere que obrigações familiares não estão impedindo mais mulheres que homens. E em entrevistas em uma grande instituição que Murray preferiu não revelar, mulheres relataram de maneira consistente que raramente eram convidadas a participar nos conselhos científicos de seus colegas – o que não foi o caso em uma amostra equivalente de homens.

Stuart declara que a disparidade é mais provavelmente um resultado de conexões sociais e tendências inconscientes entre homens. “Se você é homem, você fica levemente mais confortável resolvendo as coisas com seus colegas do sexo masculino, e são eles que vêm à sua mente quando você está montando esses conselhos.

Você pode supor – ‘ah, ela tem dois filhos, então não vai estar interessada’ – e assim não convidá-la”.

Mas empresas declaram que podem ter dificuldade encontrando mulheres com a experiência adequada, porque há menos mulheres que homens na academia em geral.

Na Alnylam, de acordo com Schimmel, o tipo de ciência e as doenças que a empresa espera tratar “diminuem consideravelmente a quantidade de pesquisadores qualificados, independente de gênero”. (Um comunicado da empresa aponta que mulheres representam “quase 30%” da equipe de administração da Alnylam).

Na Taris, de acordo com Langer, o conselho científico teve que incluir um grande número de especialistas clínicos em urologia, que geralmente são homens. E a Verastem descobriu que havia poucas biólogas que se concentram em células-tronco cancerosas, declara a diretora médica Joanna Horobin. Ela conta que pelo menos uma mulher recusou a oferta de se juntar ao conselho, porque ela já estava trabalhando com uma empresa concorrente.

Os acadêmicos e empresas de biotecnologia entrevistados para esse artigo dizem esperar que a situação mude.

Na Alnylam, pessoas “discutiram abertamente o problema de gênero e o conselho”, declara Schimmel. “Todos nós apoiamos fortemente a ideia de abordar o ‘problema do gênero’ de maneira consciente, e estamos trabalhando ativamente para isso”. Na opinião de Lander, mais importante que a composição do conselho científico é a seleção do conselho diretor da empresa – que “controla a empresa inteira”. Dois dos sete diretores da Verastem são mulheres.

Mulheres também podem dar o primeiro passo, lembra Helen Blau, bióloga especializada em células-tronco da Stanford University, na California, que participou dos conselhos científicos de várias start-ups.

Blau entrou no mercado ao patentear descobertas e conversar com empresas em conferências sobre seu trabalho. O esforço compensou: empresas licenciaram pelo menos uma dúzia de suas patentes, o que a ajudou a conseguir trabalhos de consultoria, convites para conselhos e agora sua própria start-up, a Didimi, em Berkeley, na Califórnia.

Hopkins, enquanto isso, não deixa o assunto descansar.

Depois de discutir seus dados com colegas do MIT, o grupo decidiu enviar as descobertas para o reitor da universidade, Chris Kaiser.

Acontece que Lydia Snover, diretora de pesquisa institucional do MIT, já tinha começado a garimpar currículos do corpo docente por toda a instituição em busca de informações sobre atividades como patentes, licenciamento tecnológico e participação em conselhos científicos. De acordo com Snover, se o MIT encontrar diferenças de gênero e puder ajudar a fazer algo quanto a isso, ele fará. “Queremos que todos [os membros do corpo docente] estejam envolvidos da mesma forma”.

Hopkins quer ver todas as instituições seguirem o exemplo do MIT.

Na academia, pessoas costumavam acreditar que “o tempo corrigirá as coisas naturalmente”, e que mulheres acabariam galgando postos, observa ela – e essa atitude ainda pode existir em termos de acadêmicos indo para a indústria. “Eu acho [que a disparidade de gênero em CCs] seria a aparência das universidades se não tivéssemos parado, analisado o que estava acontecendo, e mudado tudo. Se você não der atenção, as coisas não acontecem”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 6 de março de 2013.