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Consultas médicas virtuais aumentam nos Estados Unidos

Geneticistas usam webcams e videoconferências para examinar pacientes em locais remotos

Kelly Cooper, Hospital Infantil de Arkansas
Por Dina Fine Maron

No Alaska, pacientes têm mais chance de encontrar um astronauta que um geneticista. William Oefelein, que pilotou o ônibus espacial Discovery, se aposentou por lá. Mas o estado que abriga mais de 700 mil pessoas não tem um único médico geneticista. Em vez disso, pacientes devem esperar até que um desses especialistas chegue do Oregon, a cerca de quatro mil quilômetros de distância.

 Seis vezes ao ano, um geneticista ou dois vai até o Alaska e visita algumas clínicas, atendendo cerca de oito pacientes por dia, diagnosticando causas genéticas para atrasos de desenvolvimento como a síndrome do X frágil, ou discutindo o risco hereditário de câncer. Se um paciente não consegue agendar uma consulta – e muitos não conseguem – ou se a combinação de aviões e máquinas de neve não consegue levar um paciente para uma clínica a tempo, esse paciente pode ter que esperar mais seis meses para uma consulta.

Mas o Alaska não é o único. Idaho também não tem nenhum geneticista clínico. A Georgia só tem três para atender uma população de quase 10 milhões. O Maine se gaba de ter três, então pacientes no extremo norte da Nova Inglaterra podem ter que dirigir até sete horas para ver um deles pessoalmente.

Esses “desertos de geneticistas” estão provocando uma onda cada vez maior de visitas virtuais a pacientes. Em uma época onde bate-papos virtuais são relativamente frequentes, videoconferências para consultas genéticas – “telegenética” – estão se tornando uma extensão do que pessoas já fazem com suas webcams e smartphones.

A telegenética economiza o tempo dos pacientes, o preço e o trabalho do transporte e, frequentemente, a necessidade de encontrar uma babá ou pedir licença do emprego.

Para médicos, a abordagem pode expandir seu alcance e reduzir suas viagens. Além disso, eles podem cobrar por seus serviços como se os pacientes estivessem no consultório, usando um código de cobrança ligeiramente diferente.

Especialistas da saúde estimam que é necessário um médico geneticista para cada 250 mil indivíduos, e apesar de números de 2009 sugerirem que os Estados Unidos estavam perto de atingir essa meta, o geneticista clínico médio passa menos da metade de seu tempo cuidando diretamente de pacientes –uma redução significativa do número de horas disponíveis na clínica, de acordo com dados da Escola Americana de Genética e Genômica Médica (ACMG).

Essa não é uma especialidade popular ou, em alguns estados, financeiramente atraente. “Nós não temos a força de trabalho necessária”, declara Sylvia Mann, diretora da Colaboração de Serviços Genéticos do Oeste. Assim, locais com falta de profissionais dependem de visitas esporádicas de especialistas de outros estados, visitas virtuais, ou alguma combinação dos dois.

 Dos 225 especialistas em genética que responderam uma pesquisa recente da ACMG, 82 relataram ter usado a telegenética – um número que surpreendeu Mann e outros especialistas. “Isso é cerca de 70% a mais do que esperávamos”, admite ela.

Ao contrário de um gastroenterologista, por exemplo, que pode precisar tocar o abdôme do paciente para chegar a um diagnóstico adequado, serviços genéticos se baseiam principalmente em aconselhamento e inspeções visuais, o que torna consultas virtuais uma possibilidade atraente. E conforme pesquisadores cosolidam as ligações entre mutações do genoma humano e doenças, ou o risco do paciente adoecer, é cada vez mais evidente como a informação integral de geneticistas pode servir para a tomada de decisões de vida críticas para o planejamento familiar e para avaliar opções de tratamento.

As interações [entre médico e paciente] poderiam incluir a avaliação do risco genético para a perda de audição ou câncer de mama, ou o diagnóstico de atrasos no desenvolvimento de recém-nascidos para receitar um tratamento adequado.

Nesse sentido, Mann está tentando recrutar geneticistas clínicos e conselheiros genéticos jovens de estados do centro e do oeste dos Estados Unidos para um programa de treinamento grátis sobre telegenética. Ela espera que esses profissionais disponibilizem a telegenética conforme avançam em suas carreiras.

No Alaska, as necessidades dos pacientes “superam em muito a capacidade”, conta Meg Kurtagh, administradora do Programa de Serviços Genéticos do estado. Mesmo assim o Alaska, que só começou a oferecer consultas com geneticistas médicos da Oregon Health and Science University (OSHU) no verão boreal passado, não está usando a telegenética, principalmente devido a conexões lentas ou pouco confiáveis à Internet, adiciona ela.

De qualquer forma, as autoridades avaliam como poderiam superar esses desafios no futuro. Idaho também está tentando descobrir se poderia tornar a telegenética uma realidade. Sem um geneticista, quando um bebê nasce com um conjunto de sintomas que requerem um diagnóstico unificador, ou quando alguém avaliar sobre outros riscos genéticos, o paciente normalmente está desassistido.

A telegenética já está bem estabelecida em alguns locais. A Georgia emprega a tecnologia desde 1995. Mais de 250 pacientes do Kansas tiveram consultas com um geneticista do Arkansas nos últimos anos, graças a um programa organizado por um conselheiro genético de Wichita, no Kansas. (Um geneticista é um médico especializado, enquanto um conselheiro genético normalmente é alguém com mestrado que aconselha famílias a respeito de seus riscos de desenvolver certas doenças, e informa sobre testes e herança genética).

Assim como muitas outras colaborações profissionais, esse tipo de acordo geralmente surge de relacionamentos pessoais – um conselheiro genético que costumava trabalhar com um geneticista, por exemplo, como no programa Kansas-Arkansas. Ou um geneticista que é entusiasta da telegenética e inspira o engajamento de colegas de profissão.

Na maioria das áreas, a única necessidade é uma boa conexão com a Internet, uma câmera (de preferência com bom zoom), computadores e funcionários da saúde dispostos, tanto no consultório em que o paciente esperaria com uma enfermeira ou conselheiro genético, quanto no local onde o geneticista trabalha. Para os geneticistas e pacientes, a interação face-a-face é o que importa. O paciente olha para a tela, que exibe o rosto do geneticista em tempo real, além de seu próprio rosto no canto superior da tela – mostrando-lhe o que o geneticista vê. Uma câmera com uma lente de zoom pode ajudar o geneticista a examinar pequenas áreas da pele do paciente, e um conselheiro genético ou enfermeira que estivesse na sala com o paciente poderia ajudá-lo a ficar na posição ideal para os exames, auxiliar com quaisquer inspeções físicas necessárias ou servir de apoio pessoal caso o geneticista esteja comunicando notícias desagradáveis.

Certamente, o advento de ferramentas poderosas que propiciam maior acuidade aos exames visuais remotos pode tornar essas opções ainda mais atraentes – se elas estiverem disponíveis e acessíveis.

Estetoscópios bluetooth permitem que um médico ouça o coração de um paciente remotamente. Oftalmoscópios digitais podem ajudar um médico a examinar olhos, e um otoscópio pode fazer o mesmo para ouvidos. E para pacientes jovens, a simples oportunidade de ver a si mesmo em uma tela é bem atraente.

De qualquer forma, muitas propostas para projetos de telegenética acabam sendo abandonadas – e não por falta de equipamento, complicações de licenciamento interestadual para geneticistas ou problemas de cobrança. “As pessoas acham que as barreiras são técnicas, mas outro importante fator é o apoio dos dois lados”, explica Hans Andersson, diretor do Centro Hayward de Genética, da Escola de Medicina da Tulane University. Ele obteve financiamento para comprar equipamentos para oito geneticistas em Porto Rico, Saint Croix, Alabama, Mississippi, Flórida, Carolina do Norte, Tennessee e Louisiana. Todo esse equipamento agora está juntando pó, na maioria dos casos porque geneticistas não conseguiram encontrar um médico disposto a trabalhar do outro lado. Outras clínicas também não conseguem encontrar geneticistas dispostos. Tudo isso “depende da cultura local”, porque profissionais da saúde normalmente já estão sobrecarregados, aponta Andersson.

Uma consulta virtual com um geneticista não é tão íntima e pessoal quanto uma visita comum, e também não existem garantias de que a tecnologia funcione perfeitamente, mas taxas de satisfação de pacientes que estão utilizando esses serviços permanecem altas, de acordo com relatos de voluntários.

Rosemarie Smith, geneticista clínica que trabalha em Portland, no Maine, é a única geneticista do estado que oferece a opção de telegenética. Uma vez ao mês, Smith se encontra com seis pacientes de telegenética que vão até uma clínica em Caribou, no Maine, a cinco horas de carro. Isso sem contar os 96 pacientes mensais que ela atende em pessoa. O interesse está aumentando, mesmo à distância: ela já está negociando com uma segunda clínica que quer contratar seus serviços – virtualmente.