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Crença de que pés humanos são mais rígidos do que os de macacos é desacreditada

Chimpanzés ajudam cientistas a fazerem descoberta sobre evolução do pé humano


Shutterstock

A investigação da evolução do andar humano através da observação do andar dos chimpanzés é objeto de um novo estudo que será publicado na edição de março da revista científica Journal of Human Evolution.

O pé humano é diferente do pé de todos os outros primatas graças à presença de um arco longitudinal, que se estende por várias articulações e ossos da região média do pé e, acredita-se, o torna mais rígido. Os cientistas acreditam que essa estrutura é uma adaptação crítica para a locomoção bípede, ou o andar sobre os dois pés, em parte porque o arco não está presente nos pés do parentes vivos mais próximos dos humanos, os macacos africanos.

Por outro lado, os macacos africanos possuem juntas altamente flexíveis para escalar árvores e se agarrar em galhos, acreditam os cientistas, embora poucos estudos tenham sido realizados para confirmar essas suspeitas.

Mas agora, Nathan Thompson, professor assistente de anatomia no Instituto Nova York de Tecnologia, Faculdade de Medicina Osteopática, é um dos pesquisadores questionando ideias bastante consolidadas sobre o funcionamento e evolução do ser humano através da observação de como os chimpanzés usam seus pés quando andam com as duas pernas. A equipe de pesquisa, que inclui membros como  Nicholas Holowka, (Harvard); Brigitte Demes, (Escola de Medicina da Universidade Stony Brook); e Matthew O’Neill, (Faculdade de Medicina da Universidade do Arizona, Phoenix), conduziu o estudo e coletou dados enquanto todos eles estavam na Universidade Stony Brook (2013–2015).

A maior parte dos pesquisadores estudando a evolução humana supõe uma crua dicotomia entre pés de chimpanzés e de humanos. Um deles é uma alavanca rígida que torna a caminhada de longas distâncias fácil e eficiente. O outro é um dispositivo para agarrar, muito mais flexível e menos eficiente para se andar sobre. Fósseis de pés de ancestrais humanos antigos são quase sempre comparados com os pés de chimpanzés, o que torna o conhecimento da biomecânica de seus pés crucial para o entendimento de como o pé humano evoluiu. No entanto, antes dessa pesquisa, ninguém havia sido capaz de investigar se existiam diferenças entre as maneiras como os pés de humanos e de chimpanzés funcionam quando andam com as duas pernas.

Para descobrir, a equipe de pesquisa usou captação de movimento em alta velocidade para medir o movimento tridimensional dos pés de humanos e de chimpanzés andando em velocidades similares. Depois, compararam  o alcance do movimento da região média dos pés das duas espécies.

Ao contrário do que se esperava, os pesquisadores descobriram que que os pés humanos são mais — e não menos — flexíveis do que os de chimpanzés andando nos dois membros.

“Essa descoberta alteraram nossas suposições sobre como os pés de humanos e chimpanzés funcionam. Com base em um simples observação visual, nós assumimos há muito tempo que os pés de humanos são mais rígidos do que os de chimpanzés e outros macacos quando, ao dar um passo,  o calcanhar é tirado do chão primeiro. O que nos surpreendeu foi que a região média do pé humano se flexiona dramaticamente no final de um passo, à medida que o arco volta para o lugar depois da compressão durante o momento em que sustenta o peso. Esse movimento de flexão é maior do que todo o alcance do movimento nas juntas da região média dos pés do chimpanzé durante o passo, o que nos leva a concluir que uma maior flexibilidade das juntas na região média do pé é, na verdade, vantajoso para o caminhar humano. Nós nunca teríamos descoberto isso se não tivéssemos tido a oportunidade de estudar chimpanzés com o auxílio de tecnologia de captura de movimento avançada,” afirma Holowka, do departamento de Biologia Evolutiva Humana da Harvard.

Por fim, de acordo com as descobertas, o fato da dicotomia tradicional entre humanos e chimpanzés ter sido desacreditada significa que os pesquisadores talvez tenham que repensar o que pode ser aprendido do fóssil dos pés dos primeiros ancestrais humanos. “A presença de uma morfologia de juntas da região intermediária dos pés semelhante a de humanos modernos em homininas não pode mais ser interpretado como indicativo de rigidez nos pés, mas pode nos contar sobre a evolução de mecanismos melhorados de impulso parecidos com os de humanos,” afirma Thompson.

Com base nessas descobertas, os cientistas encorajam que estudos futuros considerem os jeitos em que a morfologia dos pés humanos refletem o funcionamento do arco longitudinal através da duração da fase de apoio, especialmente no começo e fim de um passo.

Thompson acrescenta, “Uma coisa que é realmente impressionante neste projeto é que ele mostra quanto ainda temos para aprender sobre nossos parentes mais próximos. Parece que quanto mais aprendemos sobre o modo como chimpanzés se movem, mais temos que repensar algumas suposições que paleoantropólogos possuem há décadas.”

 New York Institute of Technology
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