Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Cresce o interesse por cursos sobre integridade na pesquisa

A necessidade é reforçada pelo índice de fraude apontado em estudo recente

Por Gary Stix

Na tarde de 30 de abril participei de um painel de debates na Academia de Ciências de Nova York que abordou fraude científica de várias formas de plágio a manipulação direta de dados. Um assunto interessante e profundamente perturbador, já que se relaciona diretamente aos estudos de pesquisa sobre os quais me debruço todos os dias em minha mesa. Após a sessão moderada pela editora-chefe de Scientific American, Mariette DiChristina, terminar, eu achei que estava encerrada minha cota de fraude da semana.

Mas na manhã seguinte tivemos uma reunião com editores e outros representantes de edições estrangeiras de Scientific American no café da manhã. Perguntei a alguns dos editores a respeito de matérias que poderiam ser interessantes para nós aqui nos Estados Unidos. Koen De Buck, diretor comercial do EOS, o grupo de revistas científicas, com sede na Antuérpia, que publica a edição holandesa de Scientific American, mencionou um estudo feito pelo coordenador de notícias onlines Reinoit Verbek sobre, supresa, surpresa! – fraude.

Verbeke, em colaboração com o psiquiatra holandês Joeri Tijdink, decidiu explorar a prevalência de práticas fraudulentas de pesquisa na região de Flanders na Bélgica, enquanto o escândalo de 2011 envolvendo o psicólogo social holandês Diederik Stapel continua a reverberar.

Verbeke e Tijdink fizeram um amplo trabalho com apoio recebido do Fundo Pascal Decroos para Jornalismo Investigativo. Fizeram contato com pesquisadores das faculdades de ciências médicas de todas universidades de Flanders, enviaram mais de 2500 questionários e receberam 315 respostas anônimas totalmente completas.

As respostas chocaram. Quatro dos pesquisadores que responderam, ou 1,3%, admitiram ter fabricado dados pelo menos uma vez nos últimos três anos, delitos que ainda podem estar sem punição. Além disso, 23 dos pesquisadores que retornaram os questionários, ou 7,3%, haviam se engajado no exótico termo “massaging” – em que dados ou resultados eram removidos para tornar seu trabalho “verdadeiro” com hipóteses originais. Encontraram aproximadamente 8% de práticas fraudulentas em universidades em Flanders, superior à  média de 2% de práticas duvidosas que apareceram em uma meta-análise de 2009 publicada na PloS ONE de estudos de todo o mundo.

EOS publicou a pesquisa em seu volume de abril e Tijdink e Verbek estão se preparando para enviar um artigo a um periódico científico. “Quando você encontra quatro pessoas fabricando dados, é muita coisa”, declarou Verbeke em uma entrevista, adicionando: “Pessoas estão dispostas a cooperar com essa pesquisa e admitem que existe um problema. Eles não podiam falar alto e de repente aparece uma chance de se comunicar sobre fraude científica. Isso pode explicar os números mais altos de minha pesquisa [em comparação à meta-análise da PloS ONE]... Estou feliz de haver um debate em Flanders e de saber que universidades estão agindo. Querem instaurar cursos sobre integridade de pesquisa, querem que seus pesquisadores publiquem dados brutos”.

Os participantes declararam que o imperativo ‘publicar ou morrer’ foi uma das principais razões para as infrações. A pesquisa descobriu que dois terços dos professores entrevistados receberam pressão excessiva para colocar seu trabalho em periódicos e quase 70% de todos os entrevistados adicionou o nome de um autor que não participou do estudo.  

Ivan Oransky, um dos fundadores da Retraction Watch e ex-diretor de Scientific American, e também participante do evento da NYAS, foi citado no artigo como dizendo que esses números não são surpreendentes em termos de pesquisas médicas. “Cooperar com a indústria farmacêutica dá recompensas financeiras aos pesquisadores. Isso poderia pressionar cientistas a aparar arestas”, comentou ele.

Estudos como esses lançaram um novo olhar sobre a maneira como se faz ciência. Os periódicos da Nature acabaram de publicar editorais pedindo pesquisas mais transparentes (Scientific American é parte do Nature Publishing Group). E a Terceira Conferência Mundial sobre Integridade de Pesquisa está programada para ocorrer em Montreal, de 5 a 8 de maio.

A EOS terminava seu artigo pedindo-nos para repensar a jornada científica. “Será que a pressão de ser publicado e a exigência de periódicos especializados por resultados positivos e espetaculares se tornou tão alta que ameaça o valor científico de muitos estudos? Essa pesquisa pode ser o ponto de partida para abrir o debate, e onde possível, melhorar ou profundamente revisar o sistema científico”.

A representanção gráfica dos dados pode ser observada, em inglês, nos links:

http://blogs.scientificamerican.com/talking-back/files/2013/05/graphic2-for-blog3.jpg

http://blogs.scientificamerican.com/talking-back/files/2013/05/graphic-8.jpg