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Crise do Etanol no Brasil

A escassez de etanol em um país pioneiro em biocombustíveis é uma lição para o mundo.

Claudio Angelo e revista Nature
“Um novo momento para a humanidade”. Foi assim que o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, descreveu a explosão dos biocombustíveis brasileiros em março de 2007. Naquela época o Brasil era o garoto-propaganda do etanol combustível, e sua produção só perdia para a dos Estados Unidos. A fermentação dos açúcares da abundante plantação de cana de açúcar do país produzia um combustível que diminuía as emissões de dióxido de carbono, e muitos viam o Brasil como um modelo para o mundo reduzir seu vício em petróleo, criando empregos no caminho.

Cinco anos depois, a visão de Lula foi manchada. Os biocombustíveis estão perdendo sua preferência ao redor do mundo na medida em que seus críticos atacam, dizendo que destinar milhões de hectares de terras agrícolas para plantações de combustíveis está elevando o preço dos alimentos e que os benefícios climáticos dos biocombustíveis são, no máximo, modestos. Mas a queda foi pior no Brasil, onde políticas do governo se somaram aos efeitos da crise econômica global.

O consumo doméstico de etanol líquido neste ano foi 26% menor que no mesmo período de 2008. 41 das quase 400 usinas de etanol de cana de açúcar foram fechadas nesse período. O preço do etanol puro na bomba está tão alto que na maioria dos estados é mais barato encher o tanque de carros flex com misturas de petróleo contendo cerca de 20% de etanol. O retorno aos combustíveis fósseis, combinado com o rápido crescimento do número de carros nas estradas, piorou a poluição nas cidades e fez as emissões do setor de transporte chegarem a 170 milhões de toneladas de CO2 em 2011, em comparação às menos de 140 milhões de toneladas de 2008. “Estamos aumentando o PIB do mundo: compramos mais petróleo e gastamos mais em cuidados de saúde por causa da poluição”, brinca Ildo Sauer, que estuda políticas energéticas na Universidade de São Paulo e é ex-diretor da gigante estatal Petrobrás.

A montanha russa do etanol brasileiro é um exemplo realista do que pode acontecer quando o clima e o planejamento energético se chocam com a tomada de decisões econômicas. Tudo começou com a crise econômica de 2008, que estancou novos investimentos no setor bem no momento em que ele crescia rapidamente, e estava afundado em dívidas. Em vez de desenvolver novas plantações, a indústria voltou a colher cana de locais mais velhos e menos produtivos, e plantações médias despencaram de 115 toneladas por hectare em 2008 para 68 toneladas neste ano. Somem-se a isso duas colheitas ruins, e o Brasil foi forçado a importar aproximadamente 1,5 bilhão de litros de etanol de milho dos Estados Unidos nos últimos dois anos.  

Mas o golpe de misericórdia veio quando o governo decidiu congelar o preço do petróleo e do diesel para manter a inflação sob controle, tornando os biocombustíveis menos competitivos. Na mesma noite em que a presidente Dilma Rousseff fez o discurso de encerramento da conferência Rio +20 em junho – o último acordo que prometeu eliminar subsídios a combustíveis fósseis – o governo disse que reduziria uma taxa federal de combustível a zero. “Nós tiramos empregos da agroindústria, detivemos o crescimento e pioramos o ar de nossas cidades para controlar a inflação”, aponta Luiz Horta, pesquisador de bioengenharia da Universidade Federal de Itajubá.

Enquanto isso o governo tentou estimular a economia com reduções de impostos sobre a venda de carros novos. Isso, combinado ao custo do etanol puro, significou que “a parcela de álcool em nossa matriz de combustíveis de transporte caiu de 55% em 2008 para 35%”, explica André Ferreira, diretor do Instituto de Energia e Meio Ambiente, um think-tank em São Paulo.

De acordo com Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico e presidente interino da UNICA, a associação da indústria brasileira de cana de açúcar, o governo sabe que a situação é insustentável. O governo prometeu à indústria que os preços do petróleo subirão no ano que vem, e que a mistura de etanol subirá de 20% para 25%, o máximo permitido por lei. Mas levará tempo para a indústria se recuperar de sua má sorte, e é provável que o etanol continue escasso e caro nos próximos dois anos, apontam Rodrigues e Horta.

Agora o Brasil espera encontrar uma nova fonte de biocombustível: o etanol de segunda geração, produzido a partir da celulose de caules de planta. A celulose é difícil de partir e fermentar, mas várias instalações dos Estados Unidos estão prestes a tonar o etanol de celulose comercial – usando, por exemplo, enzimas especializadas para quebrar as moléculas de cadeia longa da celulose – e o Brasil não quer ser deixado para trás. 

 Em dezembro do ano passado, o Banco Brasileiro de Desenvolvimento  lançou a uma linha de crédito de R$1 bilhão (US$481 milhões) para estimular a pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis de celulose e outras tecnologias avançadas de cana de açúcar. O Centro de Tecnologia Canavieira, uma organização patrocinada pela indústria, com sede em São Paulo, tomou um empréstimo de R$357 milhões para construir uma usina de etanol de celulose no ano que vem, que usaria os resíduos de plantas restantes da fermentação convencional da cana de açúcar. “Poderemos dobrar a produção de combustível por hectare quando a tecnologia estiver madura”, acredita Oswaldo Godoy, diretor de projetos da organização.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) também está apoiando a bioenergia. Seu presidente, Maurício Lopes, geneticista que assumiu o cargo em outubro, prometeu desenvolver pesquisas sobre tecnologia de biomassa e dobrar o financiamento da EMBRAPA na área, que atualmente é de modestos R$24 milhões por ano. “Eu quero acreditar que o atual estado do setor do etanol é uma falha temporária”, declara ele. Lopes afirma que o Brasil será “imbatível” quando a tecnologia da celulose estiver madura. “Nenhum outro país tem a logística que nós temos, ou o número de espécies capazes de servir de fonte para a produção do etanol”.

Mas o etanol de celulose não será uma solução rápida, lembra Horta. “Nada competirá com o etanol convencional de cana de açúcar até 2050”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 27 de novembro de 2012. 
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