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Crianças americanas recebem "boletins de obesidade"

Escolas avaliam e notificam índices de massa corporal de alunos, mas dados sobre eficácia desse procedimento são escassos

SHUTTERSTOCK
Dina Fine Maron

 

Uma vez por ano, muitas crianças dos Estados Unidos chegam da escola com um tipo diferente de “boletim”. Eles não incluem “As”, “Bs”, ou notas mais baixas.

Em vez disso, esses relatórios, informalmente apelidados “fat letters” (cartas gordas, em inglês), avaliam como os índices de massa corporal (IMC) das crianças se comparam aos de outras da mesma idade. E muitos alunos estão recebendo notas baixas.

Isso não é muito surpreendente quando se considera que mais de 30% das crianças e adolescentes estão com sobrepeso ou são obesas. As cartas se destinam a estimular os pais dessas crianças a adotar algumas mudanças saudáveis.

Há evidências de que essas avaliações podem aumentar a conscientização dos pais sobre a importância de questões de saúde e peso. Porém, não há provas sólidas de que os relatórios de fato ajudam crianças obesas a perder alguns quilos.

A inexistência de dados concretos continua irritando os críticos. Eles argumentam que coletar esse tipo de informação de saúde é algo que deve ser deixado ao encargo dos médicos e pais das crianças.

Alguns também reclamam que os educadores estão gastando de US$ 60 a US$ 500 por ano para cada escola, quando programas de música e arte estão sob pressão de custos e há poucos indícios de que essa despesa esteja deixando as crianças mais saudáveis.

Os argumentos em torno das cartas também levaram à realização do primeiro ensaio randômico controlado para testar a eficácia de uma prática que atualmente está em vigor em nove estados.

Mesmo que ainda não haja respostas definitivas está claro que os relatórios chamaram a atenção de seus destinatários. Eles de fato parecem influenciar as percepções que os pais têm sobre o peso e a saúde dos filhos.

Um ano depois que pais no estado de Arkansas leram as notificações, uma pesquisa constatou que eles estavam mais propensos a descrever com precisão o status de peso da criança (isto é, com sobrepeso ou peso saudável).

Outro estudo, conduzido em Massachusetts, analisou os boletins de saúde e descobriu que pais que recebiam as cartas estavam significativamente mais bem informados sobre o peso preciso de seus filhos e dispostos a tomar medidas adequadas quando necessário.

Sem intervenções como o envio das cartas, concepções equivocadas sobre pesos infanto-juvenis por parte dos pais são comuns.

Diversos estudos concluíram que a maioria deles em geral acredita que o peso de seus filhos é normal, mesmo quando não é.

Em uma pesquisa, aproximadamente 75% dos pais de crianças obesas em idade pré-escolar avaliaram que o peso de seus filhos estava “perfeito”; o que faz parte de uma tendência mais abrangente em que estar acima do peso é considerado o novo normal.

“Isso dificulta apontar que há um problema se a sociedade altera a forma como caracterizamos o que é “grande” e ela normaliza um tamanho maior”, critica Jeffrey Koplan, professor de saúde pública e medicina na Universidade Emory.

Em 2005, um painel do Instituto de Medicina (IOM), presidido por Koplan, recomendou pela primeira vez que as escolas deveriam notificar os pais sobre o índice de massa corporal de seus filhos, um cálculo de proporção entre peso e altura.

 

O painel foi incumbido de refletir sobre como melhor combater a obesidade na infância e o grupo começou a considerar como as escolas poderiam ajudar. Os integrantes sabiam que outros testes escolares eram aplicados para avaliar a visão ou audição de alunos.

Talvez, então, o IMC pudesse ser o próximo passo. Na melhor hipótese, porém, a reação às cartas tem sido mista. Elas nem sempre chegam às mãos dos pais. E quando o fazem, eles talvez não as leiam ou não entendem suas implicações.

Outras vezes, elas geram indignação: alguns pais relataram que o conteúdo das mensagens não é mantido em sigilo, que seus filhos sofreram bullying por causa das avaliações, ou que elas geraram desavenças sobre questões corporais entre suas crianças.

O estado de Massachusetts abandonou seu programa estadual após três anos, citando preocupações sobre confidencialidade e sua incapacidade de monitorar o modo como as escolas comunicavam a informação aos pais.

Em pesquisas de acompanhamento, no entanto, alguns pais relataram ter mudado os lanchinhos prejudiciais (snacks) ou os níveis de exercícios de seus filhos depois de lerem as cartas, o que é um passo na direção certa. Outra pesquisa sugere que a maioria dos pais aprova e quer receber as avaliações.

Mas, além de estudos sobre problemas com a forma como as cartas foram escritas ou entregues, ainda não se sabe ao certo se elas realmente ajudam as crianças a perder peso.

O Arkansas foi um dos primeiros estados a adotar essas notificações. Em 2003 (mesmo antes da recomendação de medir o IMC), o estado determinou não só a avaliação compulsória do IMC, mas também o envio de cartas aos pais descrevendo os resultados.

Desde que o programa estadual de notificação foi posto em prática, os IMCs pararam de aumentar e se estabilizaram em seus respectivos limites.

Essa mudança se deve às cartas? É difícil afirmar com certeza. Uma das razões para isso é que os “boletins de saúde” não foram a única medida tomada pelo estado para combater a obesidade infantil.

O Arkansas também lançou uma série de programas destinados a ajudar as crianças a se alimentarem de forma mais saudável e se exercitarem mais na escola. Para complicar a questão ainda mais, a tendência do IMC no estado também espelha em grande parte um “congelamento” de IMCs infantis em todo o país.

Isso pode refletir uma maior conscientização nacional sobre obesidade infantil e mudanças em comportamento. Mas, novamente, é difícil dizer.

Apontar as pontuações do IMC como único parâmetro de sucesso pode ser um equívoco, adverte Dominique G. Ruggieri, pesquisadora da Universidade da Pensilvânia que estudou as cartas. “Há outras medidas de sucesso”, salienta ela, e cita as quedas nas vendas de máquinas automáticas nas escolas após a intervenção no Arkansas, e mais exercícios físicos entre a criançada no estado.

Em busca de evidências mais concretas, pesquisadores lançaram o primeiro ensaio clínico randômico para considerar se as “cartas gordas” podem fazer uma diferença.

Kristine Madsen, especialista em saúde e disparidades infantis na Universidade da Califórnia em Berkeley, dirige o estudo que inclui 75 escolas da Califórnia, divididas em três grupos. O primeiro não fará quaisquer exames anuais de aptidão física que incluam medições de peso e altura.

O segundo terá esses testes de aptidão, mas os dados não serão enviados aos alunos ou seus pais. O terceiro grupo fará os testes e, posteriormente, os pais receberão cartas de uma página descrevendo os resultados.

Essas avaliações detalharão se as medidas do IMC sugerem que uma criança está abaixo do peso, com peso adequado, “em risco de sobrepeso”, ou se já está obesa.

O estudo de três anos, iniciado no ano passado e financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NHI), inclui crianças da terceira a oitava séries.

“Acho que a realização desse estudo randômico é um importante avanço, mas como os resultados da Califórnia podem ser generalizados, ou comparados com os de outros estados?”, questiona Kevin Gee, professor de política educacional na Universidade da Califórnia, em Davis, que recentemente estudou se as cartas sobre o IMC de Arkansas mostram qualquer benefício entre jovens do ensino médio cujos pais haviam recebido cartas antes, quando os alunos eram mais jovens. Elas não mostram.

Nesse momento, salienta Gee, diferentes estados avaliam o IMC em séries diferentes e não há uma consistência nos processos ou nem mesmo no que as cartas dizem.

Mas novos dados sugerem que, em alguns casos, dizer às pessoas que elas estão acima do peso pode “ser um tiro que sai pela culatra” por estimular mais comportamentos prejudiciais à saúde.

Um estudo publicado no International Journal of Obesity, que incluiu adultos americanos e britânicos, constatou que quando pessoas acreditavam estar com sobrepeso isso as levava a comer mais.

Além disso, a constatação foi verdadeira independentemente de a pessoa realmente estar acima do peso ou não.

Os autores do estudo concluíram que se perceber como tendo excesso de peso estava associado a se alimentar excessivamente em resposta a estresse, o que impulsionava mais ganho de peso no futuro. Kristine Madsen, que não participou na pesquisa, salienta que comer demais pode contradizer (desmentir) uma “sensação de desesperança”.

A nova descoberta, argumenta ela, também poderia ser aplicável a crianças (e jovens) porque “há estresse e insatisfação corporal em saber ou sentir que você está acima do peso”.

Jeffrey Koplan, por sua vez, que chefiou o painel cujas recomendações originalmente estimularam muitas das cartas, está cético e duvida que as notificações possam precipitar muitas mudanças por si só.

“As coisas que tendem a funcionar, seja controle de tabagismo ou mudanças dietéticas, são intervenções com múltiplos componentes, que ocorrem em vários momentos do dia e em uma multiplicidade de ambientes”, avalia.

Concentrar-se em apenas um componente, como uma carta, “é, a meu ver, uma abordagem altamente fraca e ilusória para uma mudança de atitudes e comportamentos. Você precisa de um ‘pacote’ muito mais forte de intervenções”.

Publicado em Scientific American em 19 de agosto de 2015.