Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Crianças têm um senso fundamental de justiça?

Experimentos mostram que essa virtude frequentemente surge aos 12 meses de vida

Shutterstock
Crianças têm a reputação de serem egoístas. Imagine a cena de uma tradicional manhã após a noite de Halloween: uma criança está curvada sobre um monte de doces coletados, enquanto seus pais imploram para que dividam seus mimos com um irmão mais novo e menos afortunado. Os pais frustrados nesta cena representam a noção popular de que a única forma de fazer crianças serem justas é obrigando-as à força, algo como tirar sangue de uma pedra.

Após estudar o comportamento de equidade das crianças por cerca de uma década, argumentamos que essa reputação é injusta.

Viajamos a espaços públicos em diferentes cidades e pedimos a crianças para jogarem um jogo simples: duas crianças que não se conhecem são emparelhadas e recebem uma distribuição injusta de doces. Uma delas recebe quatro doces, enquanto a outra recebe apenas um. É aqui que as coisas ficam interessantes. Uma das duas crianças - o decisor - pode aceitar ou rejeitar a distribuição. Se o decisor aceitar, ambas as crianças recebem seus doces. Se o decisor rejeitar, ambas não recebem doce algum. Imagine que, como no cenário do Halloween, a criança no poder ganha quatro e seu parceiro ganha um. O que eles farão?

Se você é como a maioria dos pais assistindo a seus filhos jogarem esse jogo, provavelmente acha que o decisor ficará feliz de aceitar os quatro doces, criando uma desigualdade absoluta com seu par. Crianças só focam em conseguir mais para si mesmas, certo? Para surpresa e prazer de muitos pais desavisados, crianças - ao menos as mais velhas - frequentemente rejeitam essa vantagem injusta. Elas estão dispostas a sacrificarem suas próprias recompensas para evitar que outra pessoa fique na pior. Receber nada é, ao que parece, melhor do que receber mais do que seu par, mesmo que este seja uma criança que se conheceu há pouco.

Este ato de autossacrifício em nome da equidade é, de fato, surpreendente. Porém, mais do que isso, ele confronta nossa intuição sobre de onde vem a justiça na nossa espécie. Há uma crença comum de que humanos são fundamentalmente agentes egoístas e a equidade é uma construção feita para nos ajudar a superar nossos instintos egoístas. Indo além, a ideia realmente parece ser que a equidade não surge naturalmente, motivo pelo qual precisamos de instituições como o sistema de justiça para garantir que ela prevaleça. Psicólogos e economistas começaram a ignorar gradualmente essa noção, mostrando que, na verdade, as pessoas são bastantes justas, mesmo quando podem se dar melhor com o egoísmo.

Contudo, isso ainda não nos diz de onde a equidade vem. Ela é algo que deve ser aprendido através de uma vasta experiência? Através de ensinamentos explícitos de adultos? Para responder a esta pergunta, precisamos olhar para as crianças. De fato, uma série de estudos recentes com crianças sugere que a equidade não é algo que leva muito tempo para desenvolver ou que deva ser aplicado através de princípios formais e instituições de justiça. Em vez disso, ela é parte integrante da nossa compreensão em desenvolvimento de como o mundo social opera e, talvez ainda mais surpreendentemente, orienta o comportamento das crianças desde o início.

De fato, crianças aplicam um forte senso de justiça não só para si mesmos - eles também defendem os outros. Nós convidamos as crianças a jogar um jogo diferente, no qual aprendem sobre um decisor egoísta que queria manter todos os doces para si mesmo, recusando-se a compartilhar com outro parceiro. A criança participante, então, enfrenta uma escolha: ela não faz nada ou se envolve e impede a injustiça? Para tornar isso especialmente difícil, as crianças devem pagar um custo por intervir - eles têm que desistir de alguns dos seus próprios doces para evitar a injustiça. No entanto, as crianças intervêm regularmente, optando por pagar para evitar que a criança egoísta se safe com um comportamento injusto. Juntas, essas descobertas mostram que as crianças têm padrões elevados de equidade.

Agora, estamos sentados em uma montanha de evidências de nossos estudos, bem como daqueles conduzidos por outros, as quais sugerem que o comportamento justo tem raízes profundas no desenvolvimento. Bebês com 12 meses de idade esperam que os recursos sejam divididos igualmente entre dois personagens de uma cena. Na pré-escola, as crianças protestam por receber menos do que os outros, até mesmo pagando para evitar que obtenham mais. À medida que as crianças envelhecem, elas estão dispostas a punir aqueles os quais foram injustos tanto quando são vítimas de injustiça, como também quando testemunham outra pessoa sendo tratada injustamente. Com mais idade, elas mostram o que descrevemos acima: preferem não receber nada do que receber mais do que seu igual.

Mais recentemente, muitos psicólogos do desenvolvimento, incluindo nossa equipe, começaram a estudar esses comportamentos em diferentes culturas, perguntando se as crianças mostram um padrão de desenvolvimento similar em todos os lugares. O que descobrimos é que certos aspectos da equidade parecem ser universais. Por exemplo, por todos os lugares, as crianças parecem não gostar de obter menos do que seu igual. Outras formas de equidade, no entanto, parecem ser mais variáveis culturalmente, talvez moldadas pelos costumes locais.

A questão aqui é que as crianças, mesmo as jovens, mostram sofisticação notável - não apenas na compreensão e conformidade com as normas de equidade, mas também na sua capacidade de garantir a justiça para outros e de flexibilizá-la em situações diferentes. Esses desenvolvimentos emocionantes se encaixam de forma bela com o trabalhos mostrando que os adultos são frequentemente justos, mesmo quando podem ser egoístas, e sugere a necessidade de revisarmos a noção de que os seres humanos estão fundamentalmente por conta própria em detrimento dos outros. Em vez disso, devemos adotar a idéia de que a equidade é uma parte fundamental de nossas mentes em desenvolvimento, desde o primeiro momento em que elas podem ser estudadas.

Então, claro, crianças são egoístas às vezes. Entretanto, deveríamos reconhecer que assim como em adultos, juntamente de seu ímpeto para a auto-maximização vem uma profunda e madura preocupação por equidade - não apenas para eles mesmo, mas também para os outros.

Katherine McAuliffe, Peter R. Blake e Felix Warneken
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq