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Face de guerreiro morto há 2 mil anos é reconstituída no Brasil

Tecnologia 3D foi usada para simular o crânio e a face do Senhor de Sipán, líder de uma civilização pré-inca

ANDINA/Difusión
Quase dois mil anos depois de sua morte, o Senhor de Sipán, considerado o "Tutankamon das Américas", vai renascer digitalmente. A reconstituição do crânio e da face do governante do povo moche, civilização pré-inca que ocupou o norte do Peru entre 100 a.C e 700 a.C , foi apresentada nesta quarta-feira (21), em Lima. O trabalho, conduzido pelo designer Cícero Moraes, é resultado de uma parceria internacional que tem a colaboração do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

A reconstituição digital foi feita com base nos restos mortais do líder mochica. A tumba do Senhor de Sipán, descoberta em 1987, é considerada um dos maiores tesouros arqueológicos do século 20. No túmulo, os arqueólogos encontraram partes do crânio, objetos e ornamentos em ouro, prata, cobre e pedras preciosas.

O designer Cícero Moraes explica que o projeto teve início em 2015, a partir de fotografias de partes do crânio do Senhor de Sipán. As imagens foram inseridas em um programa de computador, que ajudou a reconstituir o formato original. Para chegar à imagem digital tridimensional (3D) do crânio, foi utilizado o InVesalius, um software livre desenvolvido pelo CTI Renato Archer, e também o software Blender, que é aberto.

O passo seguinte foi a reconstituição do rosto. O designer conta que, depois de concluir a montagem do crânio, começou o trabalho de modelagem digital da face. Essa fase incluiu o desenho de cada músculo, do traçado do nariz e do posicionamento dos olhos. Tudo isso feito a partir de parâmetros anatômicos e artigos científicos sobre as características do povo moche. A imagem final mostra o Senhor de Sipán com os adereços utilizados pelo líder, como adorno na cabeça, narigueira e cetro de ouro.

Até o fim deste ano, será feita também a impressão em 3D do crânio e da face do Senhor de Sipán. As peças serão impressas no CTI Renato Archer, e o material utilizado será resina em pó. O crânio e a face serão levados para o Museu Tumbas Reales de Sipán, na cidade peruana de Lambayeque. As impressões tridimensionais ficarão ao lado dos restos mortais e artefatos originais encontrados na tumba do governante mochica.

O projeto de reconstituição é uma parceria entre a Universidade Inca Garsilaso de La Veja, a Equipe Brasileira de Antropologia Forense e Antropologia Legal (Ebrafol), o museu e o CTI. "Vamos presentear os peruanos com a face desse grande rei do povo moche", celebra Cícero Moraes.

O designer já participou da reconstituição e impressão em 3D do rosto de nove figuras católicas, entre eles Santo Antônio de Pádua e Madre Paulina. "Em todos esses projetos, contamos com o apoio e utilizamos as técnicas desenvolvidas pelo CTI Renato Archer."

Impressão 3D

A impressão tridimensional, usada para reproduzir o rosto de figuras históricas, vem sendo utilizada atualmente em diversas áreas. As possibilidades abrangem peças para o mercado de publicidade, da saúde (próteses) e arqueologia. Cícero Morais revela que o trabalho conjunto com o CTI inclui a impressão tridimensional principalmente para a confecção de próteses de animais.

Como exemplo, o designer lembra os casos da Arara Gigi, que recebeu um bico de titânio feito em impressora 3D, e os tucanos Zazu e Pirata, do Distrito Federal, que também foram beneficiados pela tecnologia. "Em veterinária, a técnica já foi desenvolvida. O que a gente pretende agora é compartilhar essa técnica para que as pessoas possam se valer desse conhecimento e salvar animais no mundo inteiro."

Cícero conta que, atualmente, os estudos estão concentrados na utilização da impressão 3D voltada para humanos. "Estamos começando a desenvolver estudos e experiências relacionados a cirurgias faciais, como a confecção de miniplacas, que são estruturas que auxiliam o médico na hora de fazer a cirurgia."

Segundo o designer, esses procedimentos vêm sendo utilizados em pacientes com problemas buco-maxilares e também na reconstrução facial de vítimas de câncer.

A expectativa é de que, num futuro próximo, a impressão tridimensional seja utilizada em larga escala. Mas Cícero faz a ressalva de que é preciso muita cautela para aplicar a tecnologia em seres humanos. "É preciso ter boa base científica e testar todas as possibilidades do uso da impressão 3D em medicina. É possível utilizar a tecnologia para auxiliar as pessoas a terem novamente uma vida plena."

 

Por Ascom do Ministério de Cultura, Tecnologias, Inovações e Comunicações